As artes como lugar de experimentação ambiental

As artes, e a cultura em geral, têm-se relacionado de formas muito diversas com as temáticas ecológicas. Projectos como Terra Batida ou Ponto d’Orvalho acreditam num papel activo e transformador, sempre em relação com outras práticas, conhecimentos e territórios.

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cortesia projecto Terra Batida

Artistas, cientistas sociais, biólogos, agricultores e dirigentes associativos estão juntos no Terra Batida, projecto que há dois anos é impulsionado pela artista e pesquisadora Rita Natálio, com a cumplicidade da investigadora e autora Marta Lança. Desta rede de diversas práticas e saberes têm resultado residências artísticas, programas públicos, produção de pensamento e ensaios, tudo resumido no sítio da internet terrabatida.org.

“Em 2020, quando começámos, a ideia era imaginar uma rede transversal entre a investigação, a acção no território e a criação de percepções estéticas dos problemas ambientais, mais do que um projecto curatorial ou apenas de criação. Depois, seria desenhar isso tudo em diversas escalas – local, nacional e global, em diálogo com outras realidades”, explica Rita Natálio, que tem vindo a explorar nos últimos anos o conceito de antropoceno e o seu impacto sobre as conexões entre arte, política e ecologia.

Apesar dos constrangimentos impostos por uma pandemia, ao longo destes dois anos têm-se realizado residências com a participação de artistas, cientistas, activistas, arqueólogos, agrónomos ou cooperativas, em diversas zonas do interior do Alentejo, do litoral, como Sines, mas também Aveiro, Ílhavo, Nazaré ou Lisboa. O novo universo agrícola trazido pelos regadios do Alqueva, que operaram uma mudança física, humana e laboral no Alentejo, ou a recuperação da biodiversidade em indústrias de celulose em Aveiro são exemplos de contextos que levantam interrogações ambientais, paisagísticas e políticas, e que foram abordados pelo Terra Batida, sempre em contacto com as pessoas e os colectivos locais.

Criar pontos de contacto e acções entre artistas, cientistas, activistas, arqueólogos, agrónomos ou cooperativas é objectivo de projectos como Terra Batida ou Ponto d'Orvalho
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No contexto dessas experiências têm também sido desenvolvidos espectáculos e intervenções (com nomes como Vera Mantero, Rita Natálio, Ana Pi, Joana Levi, Ana Rita Teodoro ou Hugo Canoilas), que depois foram exibidos no festival Alkantara, numa dicotomia entre o que é o espaço laboratorial – de residência – e o da apresentação pública. A performance de Joana Levi Rasante, por exemplo, questionou as fronteiras hierárquicas entre “humano” e “animal” a partir das relações colonialistas ou supremacistas.

Mas para Rita Natálio o projecto é mais do que isso. É um contínuo. Um projecto de vida. Quando chegou do Brasil, onde esteve até 2018, sentia que em Portugal não havia muita gente a pensar numa lógica interseccional. Não se trata só de reflectir, por exemplo sobre poluição, mas também sobre racismo, transfobia ou desigualdades.

“Não é só apresentar espectáculos ou criar debates específicos, mas conceber uma experiência no tempo e diálogos entre quem está há anos no campo (investigadores, biólogos ou ambientalistas) e quem gostaria de saber mais sobre essas realidades, como os artistas, que nem sempre têm ligação com os territórios. Isso permite a todos ir imaginando diferentes formas de interagir”, explica Rita Natálio.

Trânsito entre disciplinas

A ideia é que o projecto não viva só de um programa público, em que são apresentados resultados, mas que possa haver um processo contínuo de actividades. Com o atenuar da pandemia, a previsão é que a circulação por outros pontos de Portugal, como o Algarve, venha a ser uma realidade. E até voar além-fronteiras. “Queremos criar alianças com outros movimentos que estão a acontecer noutros países e contextos”, diz Rita Natálio. E dá um exemplo: “Este ano, vai estar connosco o urbanista brasileiro Paulo Tavares, que trabalha no urbanismo aplicado à floresta amazónica. Poderá ajudar-nos a entender a situação da floresta nativa portuguesa, mas através de outras lentes e ferramentas.”

Nesse trânsito entre disciplinas, o interesse é mútuo. Os cientistas que, por norma, operam com investigações lentas e complexas, necessitam de canais de divulgação para os seus trabalhos, tanto quanto de expandir as suas pesquisas; e os artistas têm vontade de entender outros processos. “Em Portugal, ainda temos uma realidade muito disciplinar e isso acontece a todos os níveis”, diz Rita Natálio, [seja nos] pedidos de apoio, nas entidades de apresentação, ou no próprio campo artístico, das artes performativas às visuais. Existe muita compartimentação e conservadorismo.” Em tudo o que vai sendo desenvolvido há uma atitude de experimentação, e existe também essa certeza de que, quando se fala de “violência ecológica”, não nos podemos fixar apenas numa disciplina.

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No montado do Freixo do Meio pratica-se a agro-ecologia, entre cultivo e produção de mais de 300 alimentos – um dos exemplos de práticas que tentam respeitar e cuidar do planeta. Foi ali que decorreram duas edições do Ponto d’Orvalho. Ana Paganini

Em vez da cultura isolada, activar ligações com outros actores e saberes parece ser uma atitude cada vez mais comum numa geração mais nova, que cresce com as conflitualidades decorrentes do pós-colonialismo, ou com as questões de representatividade, do extractivismo no planeta e da precariedade económica. “Essas feridas estão todas abertas”, reconhece Rita Natálio, “existindo intersecções entre todas, e é preciso reconhecê-lo, os artistas sentem-no bem na pele enquanto trabalhadores, porque há imensas dificuldades. Não existe forma de escapar a estas questões.”

Outra percepção da realidade

Quem também sentiu necessidade de olhar para o espaço rural para lá da dimensão bucólica foi a produtora criativa Joana Krämer Horta, que tem operado em aventuras e projectos que envolvem música, som, artes visuais ou performativas, em Portugal e não só. Durante anos viveu em Montemor-o-Novo, com o pai, o coreógrafo e bailarino Rui Horta, até há poucos meses director do Espaço do Tempo, mas foi durante a pandemia que teve uma experiência que considera marcante. “Passei seis meses na Herdade do Freixo do Meio e foi muito importante para ter outra percepção da realidade”, diz.

No Alentejo das culturas superintensivas, da mão-de-obra estrangeira quase escrava, dos ciclos em que um agricultor tradicional não consegue acompanhar as exigências de um tipo de produção intensa, vivem-se também outro tipo de experiências. No montado do Freixo do Meio pratica-se a agro-ecologia, entre cultivo e produção de mais de 300 alimentos – um dos exemplos de práticas que tentam respeitar e cuidar do planeta. Foi ali que decorreram duas edições do Ponto d’Orvalho, um acontecimento idealizado por Joana Krämer Horta em conjunto com Leonor Carrilho e Sérgio Hydalgo, com responsabilidade na programação. “Participei no dia-a-dia da cooperativa, vi as transformações, constatei que toda a vertente agro-ecológica tem grande potencial. Às tantas, senti que era importante mostrar essa filosofia a muitas outras pessoas. E ao mesmo tempo proporcionar novos encontros, enriquecer ainda mais o que acontece ali.”

Ana Paganini
Stella Horta
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Ana Paganini

Todos os anos, no 25 de Abril, a herdade abre-se à população de Montemor-o-Novo e não só. “Tinha a imagem desses dias, com milhares de pessoas a afluírem à herdade, e o Ponto d’Orvalho foi sendo idealizado a partir dessa vontade de fazer, congregando aquilo que se passa no Freixo com actividades artísticas, que acabam por já estar presentes ao longo do ano através de residências e outras intervenções.”

A partir dessa vontade nasceu um acontecimento transdisciplinar com artes visuais, concertos, performances, caminhadas, refeições comunitárias, práticas holísticas, palestras ou debates. Este ano será em Setembro, havendo até lá diversos momentos – em Lisboa e não só – que pretendem expandir o conceito do evento, prolongando-o no tempo.

“Esta congregação de saberes é cada vez mais pertinente. Criam-se espaços híbridos onde se podem formar novas ideias e narrativas, unindo pessoas muito diferentes, de locais a estrangeiros, com o centro a ser ocupado pela consciência ecológica e pela transformação urgente.”

Todos aprendem

Na sua visão, as artes têm essa capacidade de criar discurso crítico e de projectar outros futuros colectivos, mais equilibrados, e menos extractivistas. No Freixo do Meio, o modo biológico e biodinâmico foi criado há muito. Pratica-se a regeneração dos solos e o restauro ecológico em sistema agro-florestal de produção de alimentos em sucessão e estratificação. Foi nesse contexto que em Setembro do ano passado se ouviu a música de Norberto Lobo ou Laila Sakini, se viram performances de Piny Orchidaceae ou Stav Yeini, e intervenções artísticas de António Poppe ou Marta Wengorovius, para além de refeições performativas (Evy Jokhova) ou momentos que permitiram a participação e a discussão à volta das questões ambientais.

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"Participei no dia-a-dia da cooperativa, vi as transformações, constatei que toda a vertente agro-ecológica tem grande potencial" Joana Krämer Horta Stella Horta

“Naquela zona, a agro-ecologia já comporta uma comunidade activista muito ampla. A prova são as colaborações que vão surgindo no Ponto d’Orvalho, que não estavam programadas, mas são desencadeadas ali. Há troca entre os locais e os estrangeiros que foram para aquela zona e se fixaram. Sente-se que há pessoas à procura de alternativas, e as artes podem ser esse lugar de experimentação ambiental onde todos têm a aprender.”

E não se trata apenas de seres humanos aprenderem com outros seres humanos. É possível aprender com a forma como as árvores ou as plantas se organizam. O desafio é aprender a viver de forma não predatória, entendendo que somos parte da Terra e não os seus amos. “As técnicas agro-florestais passam muito por essa ideia colaborativa entre as plantas. Acaba por ser um espelho, ou uma representação, de uma sociedade menos competitiva, que fomenta a diversidade, a comunicação e a distribuição de água, por exemplo, sem gerar desperdícios.” Sim, os seres humanos têm muito ainda para aprender.

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