Que modelo educativo para um futuro imprevisível?

Quando falo de trabalho com sentido, refiro-me a ambientes de trabalho onde o propósito individual consiga encontrar lugar no propósito colectivo da organização e que traga sentido para a vida, bem-estar e felicidade.

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"A pandemia forçou esta mudança para a grande maioria dos professores" Adriano Miranda/Arquivo

Novos modelos de aprendizagem são necessários para preparar o futuro. Não falo apenas do futuro da educação, mas o futuro do trabalho. O trabalho foi criado para servir e realizar o Homem e não o contrário. O trabalho dá sentido à vida, proporciona ou deve proporcionar a prática do propósito individual e colectivo, que realiza e dá bem-estar ao indivíduo. Por aqui percebemos o quão importante o trabalho é para a nossa sociedade e o valor que lhe damos. A felicidade e bem-estar no trabalho é um assunto importante e que deve merecer toda a atenção e cuidado dos líderes e dos principais stakeholders, mas não vou falar disso agora.

Tudo mudou nestes últimos dois anos. Para todos. Para aqueles que tinham já alguma ou muita literacia digital, a adaptação não foi difícil; mas muitos não tinham e a aprendizagem fooi dolorosa e, para alguns, não aconteceu de todo. Estes últimos tempos são a evidência que a era digital em todos os campos das nossas vidas é uma realidade. A educação e a aprendizagem não ficaram de fora.

Muitas questões na educação têm de ser equacionadas tendo em conta não só a educação em si mesma, mas também o que fazemos com a educação que recebemos e como estaremos preparados para o que inevitavelmente vai ser preciso e não conhecemos.

Do meu ponto de vista, os modelos educativos evoluíram muito pouco no século XX. Muita teoria, muita formação de professores cheia de informações à laia de conteúdos inovadores, muita discussão e formação sobre documentos estruturantes das escolas, como projectos educativos, projectos curriculares de escola, projectos de desenvolvimento do currículo, desenvolvimento curricular. Pouca coisa passou de inovador para a prática lectiva.

Quando falo de inovação, refiro-me a abordagens pedagógicas que desafiassem o pensamento crítico e construtivo dos alunos. Um sistema tipicamente conservador, fechado, tímido, cauteloso, que não foi conseguindo promover a sua actualização, algumas vezes com retrocessos para não abrir mão de sistemas que funcionam bem do ponto de vista da eficácia do método, como seja o acesso ao ensino superior; que não conseguiu atribuir ao conceito de sucesso outra concretização que não seja os números superiores numa determinada escala quantitativa ou os adjectivos no grau superlativo relativo de superioridade numa escala qualitativa.

Nas suas escolas, alguns professores corajosos iniciaram as salas de aula do futuro, com recurso a muita tecnologia, trazendo para dentro da sala de aula aquilo que eram já os recursos da vida de todos os dias dos jovens, possibilitando também debates e plenários em torno dos resultados conseguidos. Experiências boas, mas tímidas, vistas com desconfiança em termos de aprendizagem por muitos professores e líderes educativos. Lembro-me de discutirmos se queríamos uma sala de aula do futuro na escola ou se queríamos que cada sala de aula fosse uma sala de aula do futuro. A questão era como mudávamos o mindset dos professores para uma realidade emergente e para um novo paradigma educativo, onde a tecnologia já estava omnipresente. Neste ponto, um programa de coaching na escola tinha feito a diferença no discernimento, tomada de decisão e performance de toda a escola.

A pandemia forçou esta mudança para a grande maioria dos professores. E aceitando que a digitalização, como meio de comunicação e aprendizagem, veio para ficar em todas as áreas das nossas vidas, como estamos a equacionar modelos de aprendizagem que possam ir ao encontro do trabalho com sentido? Como estamos a ensinar para a criatividade, para a abordagem de situações críticas e resolução de problemas? Que lugar dar ao pensamento e conhecimento clássico? Que preocupação temos com o ensino de competências que possibilitarão o desenvolvimento de novas profissões?

Quando falo de trabalho com sentido, refiro-me a ambientes de trabalho onde o propósito individual consiga encontrar lugar no propósito colectivo da organização e que traga sentido para a vida, bem-estar e felicidade.

Assistimos hoje em dia, não assim com tão pouca frequência, a jovens adultos, alguns com elevados graus académicos e de experiência, a desempregarem-se por considerarem que não são bem tratados ou que naquele trabalho não se sentem realizados. Algumas empresas até lhes oferecem mais dinheiro para os reter, mas não é apenas o dinheiro que os move. É o sentido do trabalho.

E este é um dos grandes desafios da educação: como educar para a criação de trabalho com sentido, onde os desafios propostos contribuam para a estimulação do bem-estar e realização pessoal? Que modelo educativo conseguirá desenvolver a confiança e a colaboração entre os alunos de hoje para que repliquem essas competências amanhã, no mundo do trabalho?

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