Ao governar sozinhos taliban arriscam guerra civil, avisa chefe do Governo do Paquistão

Numa entrevista à BBC, Imran Khan apelou à liderança taliban para ser inclusiva e respeitar os direitos humanos. Taliban anunciaram novos ministros, confirmando que no novo governo afegão só há lugar para homens.

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Khan num encontro da Organização de Cooperação de Xangai, a semana passada Reuters/DIDOR SADULLOEV

Se os taliban não formarem um governo que “inclua todas as facções” afegãs, “mais cedo ou mais tarde terão uma guerra civil”, defendeu numa entrevista ao enviado da BBC o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan. “Isso significaria um Afeganistão instável, caótico e um sítio ideal para terroristas. É uma preocupação.”

Enquanto Khan conversava com John Simpson em Islamabad, em Cabul, o movimento fundamentalista islâmico anunciava os membros do governo que ainda não eram conhecidos: entre os novos nomes conta-se um membro da comunidade hazara (xiita) e figuras do Panshir, região onde se concentra a resistência militar ao grupo, assim como um médico como novo ministro da Saúde. Mas para além da total ausência de mulheres – o porta-voz Zabihullah Mujahid afirmou que “podem” ser incluídas mais tarde –, o governo é formado acima de tudo por homens leais à liderança taliban.

A semana passada, os taliban confirmaram a exclusão das raparigas do ensino secundário (a maioria das meninas e raparigas tinha deixado de ir à escola assim que o grupo tomou Cabul, a 15 de Agosto). Mas o primeiro-ministro paquistanês diz acreditar que em breve as meninas poderão voltar a frequentar a escola. “As declarações que têm feito desde que chegaram ao poder têm sido encorajadoras”, afirmou.

“A ideia de que as mulheres não podem educar-se simplesmente não é islâmica”, sublinhou. “Não tem nada a ver com o islão.”

Para as afegãs, as declarações dos taliban sobre o futuro contam pouco face ao que parece ser a prática das novas autoridades – e às memórias da primeira vez que estiveram no poder, nos anos 1990, quando as meninas estavam proibidas de estudar a partir dos oito, nove anos, e nenhuma mulher podia trabalhar ou sequer sair à rua sem burqa (véu integral, com uma fina rede na zona dos olhos) e sem estar acompanhada por um homem da sua família.

Simpson insistiu com Khan para que este clarificasse os seus critérios para reconhecer formalmente um governo taliban (e se acredita realisticamente que estes os poderão cumprir); em resposta, o dirigente paquistanês repetiu que a comunidade internacional tem de dar mais tempo aos radicais afegãos. “É muito cedo para dizer seja o que for”, afirmou. Os afegãos, defende, acabarão por “fazer valer os seus direitos”.

Quanto à decisão de reconhecer a legitimidade dos taliban, Khan disse que será tomada em conjunto com outros países da região. “Todos os vizinhos se vão juntar e vamos ver como estão a progredir”, explicou. “A decisão de os reconhecer ou não será colectiva.”

Apesar de enfrentar essa ameaça dentro de fronteiras, o Paquistão é visto como um aliado pouco confiável na batalha contra os jihadistas, sendo frequentemente acusado por muitos nos Estados Unidos e na Europa de continuar a apoiar os taliban, um grupo que se formou nas madrassas (escolas corânicas) paquistanesas.

Depois dos atentados do 11 de Setembro, Islamabad afirmou-se como um aliado na chamada “guerra ao terrorismo” lançada pelos EUA, ao mesmo tempo que alguns chefes dos seus serviços secretos e chefias militares mantinham laços com os taliban.

Actualmente, muitos afegãos descrevem a tomada de poder dos taliban como uma invasão paquistanesa do seu país, defendendo que o Paquistão controla os radicais afegãos ou que as suas acções são, pelo menos, coordenadas com altos dirigentes paquistaneses.