Professora de Filosofia premiada por conseguir pôr os alunos a pensar na vida

Elsa Cerqueira é professora de Filosofia em Amarante e o seu trunfo é o cinema. Venceu o Global Teacher Prize Portugal.

Foto
Para Elsa Cerqueira, é “fundamental” que as interrogações desencadeadas pela película levem à acção Paulo Pimenta

Querer criar “pequenas utopias” através dos filmes é o que motiva Elsa Cerqueira, professora de Filosofia na Escola Secundária de Amarante e vencedora do Global Teacher Prize, o “Nobel da Educação”, por ter criado o projecto “Filosofia com Cinema” que tem como objectivo desenvolver o pensamento filosófico de cada aluno. “Um projecto plural com vista a elevar a literacia fílmica e filosófica de todos os envolvidos”, explica Elsa Cerqueira ao PÚBLICO.

Através do visionamento de um filme, os alunos são estimulados a pensar “dentro e fora do filme”. Através dos sons, das cores, dos planos, dos personagens, deve haver “um trabalho de interrogação que leva à clarificação de conceitos”. É “uma actividade de argumentação e de exercício lógico de pensamento em que cada um vai exercitando de uma forma democrática a cidadania e apresenta o seu ponto de vista”, diz a docente. 

Mas a professora pretende que o filme seja mais do que um pretexto para o diálogo e para o desenvolvimento do pensamento filosófico. Para Elsa Cerqueira, é “fundamental” que as interrogações desencadeadas pela película levem à acção e, eventualmente, se estendam à comunidade civil.

“O que é que nós podemos fazer com o filme? O que é que o filme nos dá? O que é que nós damos também a partir do filme à comunidade?” Questões que devem ser levantadas e as respostas devem servir a comunidade. A professora dá o exemplo de um conjunto de filmes sobre avós que depois de visionados foram trabalhados em várias disciplinas e resultaram numa “aproximação notável” entre aqueles e os respectivos netos. 

Apesar de o projecto “Filosofia com Cinema” ser para os alunos do ensino secundário, Elsa Cerqueira “desdobra-se” e estende este projecto ao primeiro ciclo. A docente explica também que o projecto já dá frutos, uma vez que após as crianças terem visto um filme de animação sobre um sapateiro foram conhecer um homem com esta profissão nas imediações da escola, entrevistaram-no e fizeram actividades de reconstrução de calçado velho. “Sem se aperceberem, estiveram a trabalhar as profissões da disciplina de Estudo do Meio e de certeza que agora vão olhar para os sapatos de outra forma”, comenta a professora realçando a dimensão multidisciplinar do projecto. Tudo isto tem uma “missão maior”: “levar-nos a pensar e a olhar de outra forma”, remata a professora. 

Bruno Gomes e os alunos personal trainers

Consciente de que “não podia dizer aos alunos para fazerem uma bolinha com uma folha de papel e encestarem no balde de lixo”, Bruno Gomes, professor de Educação Física, que lecciona no Agrupamento de Escolas João de Deus, decidiu inverter os papéis e convidar os alunos a serem eles a preparem as aulas. E isto fez com que fosse distinguido com uma menção honrosa do Global Teacher Prize por adaptação no ensino à distância

Foto
Bruno Gomes DR

Apercebendo-se de que os jovens “estão ligados ao fitness”, este professor decidiu inverter os papéis: em cada aula, os alunos preparavam os exercícios físicos que a turma deveria fazer e o docente apenas corrigia a parte técnica. Para além disso, Bruno Gomes criou dinâmicas de grupo, em que “uma partilha de momentos de desporto que os tinham marcado” era o pretexto para se criar um “ambiente descontraído”, abrindo caminho à existência de “partilhas pessoais”, explica o professor ao PÚBLICO, ao mesmo tempo que refere que houve um aluno que neste contexto partilhou que foi vítima de bullying.

Para além deste projecto, Bruno Gomes é também autor de um outro, “Licíadas”, que tem como objectivo estimular a criatividade e a multidisciplinaridade. Fascinado com um projecto transdisciplinar em que participou quando estava no secundário, decidiu implementar este “conceito ecléctico” quando se tornou professor.

Na prática, o professor criou uma espécie de olimpíadas de várias áreas (canto, teatro, solidariedade, leitura...). Os alunos têm de prestar quatro provas obrigatórias e duas opcionais. O projecto é desenvolvido ao longo do ano e, no final, a turma vencedora apresenta um número final à comunidade. Este projecto contribuiu para que os alunos experimentem várias áreas e deixem de ter a ideia de a escola “hoje em dia estar virada para os exames”. 

Texto editado por Carla B. Ribeiro