O Brincapé quer dar “espaço, tempo e oportunidade” às crianças para brincarem

O projecto visa “aumentar as oportunidades que as crianças têm de brincar”, contrariando a noção de que são necessários brinquedos ou parques infantis para esse fim. É que, por vezes, uma caixa de cartão ou um lençol é o suficiente.

impar,
Fotogaleria
O projecto inclui várias iniciativas com o intuito de contribuir activamente para a revalorização da brincadeira DR
criancas,seguranca-rodoviaria,espaco-publico,educacao,lisboa,escolas,
Fotogaleria
DR
criancas,seguranca-rodoviaria,espaco-publico,educacao,lisboa,escolas,
Fotogaleria
DR
criancas,seguranca-rodoviaria,espaco-publico,educacao,lisboa,escolas,
Fotogaleria
DR
criancas,seguranca-rodoviaria,espaco-publico,educacao,lisboa,escolas,
Fotogaleria
DR

Brincapé é o nome do projecto que visa “aumentar as oportunidades que as crianças têm de brincar”, explica Sandra Nascimento, a presidente da direcção da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), ao PÚBLICO. Criado a partir da colaboração entre esta instituição e a 1,2,3 Macaquinho do Xinês — duas organizações que actuam sob o chapéu da Convenção dos Direitos da Criança , o projecto inclui várias iniciativas com o intuito de contribuir activamente para a revalorização da brincadeira entre os mais novos.

“As crianças brincam em todo o lado”, começa por observar Sandra Nascimento. “As pessoas têm um bocado a ideia de que é preciso criar parques infantis ou dar brinquedos [às crianças]. O que nós precisamos é de lhes dar o espaço, o tempo e a oportunidade”, avalia. Por isso, o Brincapé pretende contrariar a noção de risco, falta de espaço ou falta de tempo associada a esta actividade que tem vindo cada vez mais a retirar as crianças da rua e a confiná-las às quatro paredes da casa.

Assim, entre as várias acções praticadas, o projecto inclui actividades como as incubadoras de brincar, as ruas que brincam (playstreets), as rotas do brincar e os recreios transformados. A primeira diz respeito ao uso de materiais soltos como pneus, cordas, lençóis e caixas de cartão, designados por “tralha”, uma vez que “não têm um valor lúdico à partida associado e não são elementos muito valorizados pelos adultos”, como explica a presidente da APSI, “mas que, na verdade, têm imenso potencial lúdico”.

A segunda consiste em fechar as ruas ao trânsito para que as crianças possam delas usufruir — para andar de bicicleta, de patins, de trotinete... “Isto implica necessariamente criar algumas restrições aos veículos automóveis, em termos de velocidade, nalguns casos em termos de estacionamento, e porque não nalgumas zonas até dar a primazia ao peão para que ele possa ocupar de uma forma mais equitativa o espaço público”, diz Sandra Nascimento.

Já as rotas do brincar foram construídas com o apoio de 300 crianças e mapeiam espaços de brincadeira, incluindo propostas criadas pelos mais novos de actividades a realizar, no centro histórico de Lisboa, nomeadamente nas freguesias de Ajuda, Alcântara, ​Penha de França, Santa Maria Maior e São Vicente, onde decorre a maior parte da actividade do projecto. Por fim, os recreios transformados consistem na utilização dos materiais das incubadoras de brincar mas, desta vez, transferidos para as escolas, para usufruto no tempo de intervalo que as crianças possuem.

“Qualquer uma destas acções pode ser feita pela comunidade”, destaca Sandra Nascimento. “Nós não temos esse hábito, enquanto comunidade, e neste momento temos de ser nós ainda a organizar [as acções], mas o nosso objectivo é deixar algumas orientações para que depois a própria comunidade possa tomar essa iniciativa e fazer essa gestão”, explica. Aliás, a meta é que de futuro haja uma distribuição de kits com materiais em quiosques, cafés e outros espaços, para que depois as populações possam concretizar os seus próprios momentos de brincadeira.

Este mês, há já várias iniciativas previstas, a ocorrer em São Vicente (18, 19, 20, 25 e 27 de Junho), Penha de França (19 de Junho), e Ajuda (26 de Junho), estando também já várias preparadas para o mês seguinte. Nas escolas, as brincadeiras focam-se sobretudo no primeiro ciclo, não havendo qualquer restrição de idades para aquelas que ocorrem no espaço público — basta aparecer.

“As nossas organizações não têm apoios regulares”, explica Sandra Nascimento. Assim, o projecto está dependente de financiamento para se manter ou até alargar-se a outros territórios do país. Iniciado através do apoio da Câmara Municipal de Lisboa, nomeadamente do programa BIP/ZIB, que visa a melhoria das comunidades, o objectivo é que se estenda por mais espaços, através da colaboração com outras autarquias ou mesmo mecenas que estejam interessados em alavancar a iniciativa para a sua localidade.

Texto editado por Carla B. Ribeiro