Morreu Teresa Otto, uma voz jovem e inovadora na arquitectura portuguesa

Pertenceu à novíssima geração da Escola do Porto, tendo explorado o tema da arquitectura efémera. Teve a sua obra representada em duas edições da Bienal de Veneza.

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Teresa Otto Adriano Miranda

A arquitecta e designer Teresa Otto, pertencente a uma nova geração a trabalhar estas disciplinas na cidade do Porto, morreu este domingo, aos 38 anos, vítima de cancro.

Teresa Otto licenciou-se na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), tendo aprofundado estudos na Faculdade de Valle Giulia, em Roma, e depois também trabalhado em Espanha, no atelier dos vencedores do prémio Pritzker em 2017, os RCR Arquitectos, na Catalunha.

No Porto, Teresa Otto co-fundou, com Diogo Aguiar, em 2012, o escritório LIKEarchitects. Fizeram-no algum tempo depois de terem surpreendido o parque da Queima das Fitas de 2008 com a “barraquinha” da FAUP, um bar efémero feito com caixas de plástico do IKEA, marcado pela inovação e por um design sofisticado — que lhes valeria o prémio de “Edifício do Ano” do ArchDaily (2010).

Com o LIKEarchitects (2012-14), Teresa Otto explorou o tema da arquitectura efémera de uma forma experimental, inovadora e provocadora, que lhes valeria distinções como o Lighting Design – Larus Prize (Portugal, 2012), o Art and Sculpture in Architecture, na Bienal de Jovens Arquitectos de Minsk, na Bielorrússia (2013), ou o Best Design: Offices (China, 2014).

Neste mesmo ano, os LIKEarchitects, com Mariana Pestana, ocuparam a agência devoluta de um banco na Avenida dos Aliados, no Porto, transformando-o num fórum de discussão sobre o tema do “temporário”. A experiência foi incluída no projecto Homeland – Less Housing More Home, comissariado pelo arquitecto Pedro Campos Costa, que representou o país na Bienal de Arquitectura de Veneza de 2014.

O arquitecto e curador evoca o carácter inovador dessa experiência. “Foi muito interessante. Os LIKE e a Mariana Pestana fizeram a ocupação de um rés-do-chão abandonado, transformando-o numa espécie de casa temporária, onde viveram durante um mês”. Tratava-se de “alertar, e questionar a existência de muitos edifícios devolutos num país que vive com graves problemas de habitação”, refere Pedro Campos Costa. Ao PÚBLICO, o curador releva “o carácter inovador” desse atelier de Teresa Otto no panorama português. “Até então, não havia esse tipo de intervenções — que agora são mais comuns, já com vários colectivos a fazer instalações arquitectónicas e ocupações de espaços desse género”, acrescenta Campos Costa, lembrando até que o trabalho dos LIKE “foi então bastante polémico, e alvo de muitas críticas”.

Mesmo não tendo acompanhado o trabalho posterior de Teresa Otto, o arquitecto lamenta a sua morte. “Quando desaparece assim uma pessoa tão nova, e com uma carreira tão promissora, é realmente pena; torna-se mais doloroso.”

Imagem romântica em Serralves

Já com o escritório em nome próprio — o Ottotto, fundado em 2015, no Carvalhido —, o trabalho da arquitecta haveria de regressar à Bienal de Veneza em 2018, desta vez incluído na exposição Público sem Retórica, comissariada por Nuno Brandão Costa e Sérgio Mah.

Teresa Otto foi autora de um dos cinco pavilhões temporários com que, no ano anterior, jovens escritórios de arquitectura da cidade do Porto — entre os quais se encontrava o depA, actualmente a representar também Portugal na Bienal de Veneza — foram desafiados a “ocupar” o Parque de Serralves, numa iniciativa associada à itinerância da Bienal Internacional de Arte de São Paulo.

Sobre essa intervenção de Teresa Otto, escreveu então no PÚBLICO o arquitecto, editor e crítico Pedro Baía: “Para o pavilhão temporário de Serralves, [Teresa Otto] pensou em recriar um volume que evocasse os armazéns agrícolas revestidos a chapa metálica ondulada, já corroída pelo tempo. Em busca desta imagem romântica, implantada no cenário campestre do Parque de Serralves, encontrou em Penafiel um fornecedor de chapa ondulada. Não sendo possível comprar chapa enferrujada, optou por pulverizar a chapa com uma tinta rosa-escura que simulasse a sua oxidação pelo tempo. O efeito final ficou assim mais próximo da estética trash dos graffiti e dos bairros de lata do que do ambiente campestre inicialmente previsto. Esta circunstância, decorrente do processo, fez com que o revestimento exterior do pavilhão se relacionasse mais com o espírito do ritmo vibrante da dancehall jamaicana do vídeo que acolhe do que com a envolvente bucólica do parque.”

Em 2020, Teresa Otto criou, para o centro do Porto, a Greenhouse, uma casa “estreita, longa e apenas com duas frentes”. Tratou-se de um projecto de reabilitação com o qual se preocupou em trabalhar a luz. A solução foi rasgar um anel quadrado na cobertura que permitisse que a luz atravessasse os três pisos da casa, trazendo o reflexo do sol para o jardim interior, um projecto que a arquitecta disse ter desenhado “para um cliente imaginário”.

O corpo de Teresa Otto está em câmara-ardente, esta segunda-feira, até às 22h30, na Igreja dos Capuchinhos, no Amial, Porto, onde terça-feira se realiza o funeral, às 10h00, seguido de cremação.