Uma novíssima geração de arquitectos do Porto

Com a encomenda de cinco pavilhões temporários a jovens escritórios do Porto, Serralves confronta-nos com uma novíssima geração nascida nos anos 1980 e que começou a trabalhar no auge da crise. Quem são e o que fazem estes novos protagonistas da arquitectura do Porto?

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Fala Atelier Adriano Miranda
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Ottotto Adriano Miranda
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Fahr 021.3 Adriano Miranda

Foram construídos cinco pavilhões temporários no Parque de Serralves com projecto de cinco jovens escritórios de arquitectura do Porto – Depa Architects, Diogo Aguiar Studio, Fala Atelier, Fahr 021.3 e Ottotto –, a pretexto da apresentação em Portugal de uma itinerância da Bienal Internacional de Arte de São Paulo. A partir desta selecção, apresentada pelo Museu de Arte Contemporânea de Serralves e visível até Outubro, é possível traçar o retrato de uma geração de arquitectos nascida entre os anos 1980 e 1990, com origens e experiências académicas diferentes e com posicionamentos arquitectónicos muito distintos. Quisemos perceber quem são estes arquitectos escolhidos por João Ribas, director-adjunto do museu – de onde vieram, o que fazem e para onde vão. Por isso, depois de assitirmos ao debate em Serralves com os cinco ateliers, visitámos ainda os respectivos espaço de trabalho destes arquitectos que representam uma novíssima geração que tem trabalhado e dado os primeiros passos num período de profunda crise e falta de encomenda.

Se o atelier Fala se aproxima de um neo-pós-modernismo, conforme podemos constatar nos comunicantes mármores verdes utilizados na Casa na Rua do Paraíso, os Depa dão continuidade a uma linguagem depurada, marcada pelo peso de um sentido construtivo que reconhecemos nos seus projectos. Se sentimos nos trabalhos de Diogo Aguiar uma preocupação com a materialidade e o desenho das soluções de articulação entre os vários elementos, apercebemo-nos também da vontade de experimentação nas formas livres e curvilíneas dos dispositivos desenvolvidos pelos Fahr ou nos materiais escolhidos para a composição das instalações concebidas por Teresa Otto.

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Adriana Miranda
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Este conjunto de arquitectos começou a trabalhar há pouco mais de sete anos. O trabalho de Diogo Aguiar, de Teresa Otto e dos Fahr tem sido maioritariamente na área da arquitectura efémera, na concepção de dispositivos arquitectónicos para festivais, feiras, exposições ou bienais, dando resposta a um tipo de encomenda muito específico, que alia a arquitectura ao design com uma forte componente artística. O trabalho dos Depa tem sido essencialmente no âmbito de uma encomenda de arquitectura mais convencional, na reabilitação de edifícios, moradias e apartamentos, com tempos de execução e acompanhamento de obra mais longos e complexos. Os Fala, para além da arquitectura convencional na renovação de habitações, exploram ainda a vertente da representação dos seus projectos segundo um modelo de ilustração digital muito próprio, tendo as suas imagens integrado várias exposições colectivas e publicações internacionais, como recentemente, na revista americana Metropolis (2017), num artigo do arquitecto britânico Sam Jacob intitulado Architecture Enters the Age of Post-Digital Drawing.

Os cinco têm em comum o facto de trabalharem a partir do Porto, num território com uma cultura arquitectónica muito própria. No entanto, apesar da força das referências incontornáveis da cidade, pressente-se um desprendimento natural relativamente à omnipresença de um legado considerado histórico, o que dá origem a um conjunto de projectos que se dissociam pacificamente da linguagem da arquitectura do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, projectado por Álvaro Siza entre 1991 e 1999. Para além do peso da influência da Escola do Porto, as referências são hoje outras, complementadas por outras preocupações e outras geografias. 

O imaginário lírico-erudito dos Fala

O atelier dos Fala, fundado em 2013, ocupa uma sala com 25 metros quadrados na Rua da Fábrica, na Baixa do Porto — um espaço pequeno para os oito arquitectos que trabalham à volta de uma mesma mesa. Filipe Magalhães (n.1987), um dos três sócios dos Fala, juntamente com Ana Luísa Soares (n.1988) e Ahmed Belkhodja (n.1990), confessa que adora trabalhar no caos produtivo que ali se gera.

Na visita ao atelier percebemos que os Fala andam a trabalhar em dois extremos radicalmente opostos. Ao mesmo tempo que desenvolvem projectos de remodelação de edifícios de habitação, transformando-os em estúdios para promotores imobiliários da Baixa do Porto ou em reabilitações de pequenas moradias e apartamentos, estão também presentes no meio restrito das bienais, exposições e publicações internacionais, como na primeira Bienal de Arquitectura de Chicago (2015).

Em 2013, foram um dos dez finalistas do Prémio Début da Trienal de Arquitectura de Lisboa — um prémio que reconhece e apoia a produção de jovens arquitectos, com menos de 35 anos, no território expandido da arquitectura — pelo trabalho de pesquisa desenvolvido em Tóquio, na mítica Nakagin Capsule Tower, uma torre de habitação construída segundo os princípios do metabolismo japonês. No ano seguinte, em 2014, quase em simultâneo, os Fala são publicados e entrevistados em três contextos muito diferentes, mas com igual exigência disciplinar, alcançando assim a unanimidade do reconhecimento institucional, comercial e académico: no Jornal Arquitectos, da Ordem dos Arquitectos; na revista Arq.a, de âmbito crítico mas comercial; e na independente revista Nu, dos estudantes de arquitectura da Universidade de Coimbra.

Os Fala afirmam praticar uma arquitectura naïf com base num optimismo metódico, que se propõe misturar linguagens formais e referências, numa arquitectura simultaneamente hedonista e pós-moderna, intuitiva e retórica. E, de facto, as ilustrações que produzem para apresentar os projectos são o reflexo perfeito do seu imaginário lírico-erudito. O pavilhão de Serralves dos Fala, muito próximo do seu projecto da Gaiola para um pássaro (2015), deve ser entendido neste contexto, enquanto exercício retórico de citações e alusões, numa narrativa que vem sendo construída, de forma consciente e persistente, ao longo de um percurso ainda em aberto, que só agora, no próximo ano, começará a sair do papel e das imagens para ser efectivamente construída.

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Da esq. para a dir., Diogo Aguiar (sócio) e Daniel Mudràk (colaborador) em frente ao pavilhão, um volume circular, em madeira, que explora o espaço intersticial do corredor Adriano Miranda

Os dispositivos arquitectónicos de Diogo Aguiar

Apesar de começar por dizer que lhe interessa olhar mais para o futuro do que para o passado, é importante referir que Diogo Aguiar (n.1983) fez parte dos Like Architects, um dos primeiros escritórios em Portugal a desenvolver um trabalho consistente e consequente no campo da arquitectura efémera e performativa. Fundado em 2010 com Teresa Otto, e após vários projectos experimentais construídos ao longo de cinco anos, os Like separaram-se em 2015.

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Encontrámo-nos no edifício da UPTEC - Pólo das Indústrias Criativas do Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, na sala de 25 metros quadrados que Diogo Aguiar partilha com Andreia Garcia, arquitecta e curadora, com quem organiza desde o ano passado a programação da Galeria de Arquitectura do Porto, um espaço na Rua do Rosário, com nove metros quadrados, dedicados à arquitectura emergente. É também em 2016 que é fundado o Diogo Aguiar Studio.

Actualmente com dois colaboradores, o escritório tem apresentado vários trabalhos em festivais de arte e design, centros comerciais ou eventos culturais. No ano passado, por exemplo, integrado no projecto Alumia promovido pela Porto Lazer, Diogo Aguiar apresentou a peça Start, uma instalação efémera de luz implantada no Largo dos Lóios, com a forma de uma estrela gigante. Nesse mesmo ano, em conjunto com o colectivo Friendly Fire, concebeu a cenografia do Fórum do Futuro, ciclo de conferências promovido pelo pelouro da cultura da Câmara Municipal do Porto, e apresentou uma instalação efémera no espaço público de Ovar, no âmbito do Festa — Festival Internacional de Artes de Rua.

Em 2017, Diogo Aguiar desenvolveu dois projectos expositivos em espaços comerciais: no átrio do Vale Sul Shopping, em São Paulo, no Brasil, para a apresentação de um conjunto de gravuras originais de Salvador Dalí, e na praça central do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, num projecto em conjunto com João Jesus, antigo colega nos Like, para a apresentação de um conjunto de quadros de Paula Rego. Estes projectos expositivos em espaços comerciais representam uma outra vertente da arquitectura efémera, através da concepção de estruturas temporárias que permitem expor trabalhos num espaço desenhado, com um sentido performativo capaz de atrair e entreter os clientes distraídos pelas compras.

Olhando para o futuro, e para os trabalhos que se seguem, Diogo Aguiar elege o projecto de um edifício de habitação colectiva que está a desenvolver para o centro do Porto e um projecto de reabilitação na Quinta da Aveleda, em Penafiel. Em simultâneo, pretende continuar a trabalhar com dispositivos arquitectónicos que conjuguem a vertente mais artística com um trabalho mais sensível aos temas da arquitectura, tal como teve oportunidade de ensaiar no pavilhão temporário para Serralves — um volume circular, em madeira, que explora o espaço intersticial do corredor criado entre a sala central da projecção e a parede que envolve o pavilhão, num trabalho atento à materialidade, à construção, ao desenho do espaço, à composição dos vãos e à manipulação da luz.

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Teresa Otto em frente à chapa ondulada do pavilhão de Serralves Adriano Miranda

A hesitação de Teresa Otto

O escritório Ottotto, fundado em 2015 por Teresa Otto (n.1983), ocupa uma sala com 50 metros quadrados num prédio da Rua de António Enes, no Carvalhido, num espaço partilhado com um colaborador, o engenheiro Manuel Otto e o economista Pedro Pardinhas. Ao contrário da vontade de futuro do antigo sócio, as paredes do escritório, com alguns dos projectos dos extintos Like Architects, revelam ainda uma ligação forte ao passado.

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Em 2016, Teresa Otto realizou também um projecto expositivo para a praça central do Colombo, através de uma estrutura metálica amarela que envolvia e enquadrava um conjunto de fotografias de Terry O’Neill. Mais recentemente, em 2017, apresentou a instalação Parallel Path no Festival da Paisagem de Plzen, na República Checa, a partir de uma estrutura que forma um corredor delimitado por cortinas de banho e aspersores de água.

Admitindo não gostar muito de teorizar, Teresa Otto diz preferir agir por instinto e deixar-se guiar pelas ideias que despertam em cada projecto. Para o pavilhão temporário de Serralves, pensou em recriar um volume que evocasse os armazéns agrícolas revestidos a chapa metálica ondulada, já corroída pelo tempo. Em busca desta imagem romântica, implantada no cenário campestre do Parque de Serralves, encontrou em Penafiel um fornecedor de chapa ondulada. Não sendo possível comprar chapa enferrujada, optou por pulverizar a chapa com uma tinta rosa escura que simulasse a sua oxidação pelo tempo. O efeito final ficou assim mais próximo da estética trash dos graffitis e dos bairros de lata do que do ambiente campestre inicialmente previsto. Esta circunstância, decorrente do processo, fez com que o revestimento exterior do pavilhão se relacionasse mais com o espírito do ritmo vibrante da dancehall jamaicana do vídeo que acolhe, do que com a envolvente bucólica do parque.

Actualmente, Teresa Otto tem em curso um projecto de habitação colectiva na zona norte do Porto, que a confronta pela primeira vez com uma outra escala, muito diferente dos projectos e instalações que tem vindo a construir. Perante este novo desafio, confessa sentir uma maior responsabilidade na arquitectura mais perene do que na temporária, porque esta arquitectura vai perdurar e fazer cidade.

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Da esq. para a dir., Carlos Azevedo, João Crisóstomo e Luís Sobral no Parque de Serralves. O volume poliédrico altera a nossa percepção do jardim em frente ao pavilhão ADRIANO MIRANDA

A vontade de construção dos Depa

Se nos casos anteriores os arquitectos são maioritariamente formados na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, neste caso é diferente. Os arquitectos responsáveis pelos Depa têm em comum a mesma formação no Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra.

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jOSÉ CAMPOS

No Porto, em 2009, sete arquitectos oriundos de Coimbra formaram o colectivo Depa. Em paralelo com os estágios, alugaram um espaço para se encontrarem e começarem a fazer concursos. Nesta fase, em 2011, chegaram a vencer o concurso para a concepção do Museu de Arte Contemporânea Santiago Ydañez, em Espanha, embora o projecto não tenha depois avançado devido a alterações no programa. Há seis anos, este grupo assumia a vontade de trabalhar em várias frentes na área da arquitectura, desde a curadoria, passando pela crítica, até à fotografia. Com a constituição da empresa em 2013, o grupo foi diminuindo, o foco foi-se estreitando e a vontade de construção acabou por se impor.

O escritório dos Depa é actualmente composto pelos três sócios — Carlos Azevedo, João Crisóstomo e Luís Sobral (n.1985) — e mais quatro colaboradores. Recentemente, inauguraram na Rua de Santa Catarina o seu novo espaço de trabalho, de 180 metros quadrados, com jardim, sala de maquetes, show room e sala comum que partilham com o fotógrafo José Campos. Na visita ao escritório, conversámos sobre os vários projectos já construídos: desde os mais antigos, como o Bloco do Avenal, em Condeixa-a-Nova, de 2012, e a Casa da Cultura de Pinhel, de 2014, até aos mais recentes, como o projecto da Casa do Rosário, no Porto, ou um hotel em Coimbra e um restaurante em Pinhel, ambos inaugurados este ano. Há poucos dias, receberam a notícia do primeiro prémio no concurso promovido pela Câmara Municipal do Porto para as Ligações Pedonais Mecanizadas nas encostas do Palácio de Cristal, Miragaia e Virtudes, com um projecto realizado em parceria com os Pablo Pita Arquitectos.

No grupo dos cinco pavilhões temporários de Serralves, os Depa são os que têm menos experiência no campo das instalações artísticas. No entanto, acabam por surpreender com um pavilhão que faz lembrar a capacidade de diálogo ensaiada pela peça Double Exposure de Dan Graham, instalada no Parque de Serralves desde 2003. O volume poliédrico dos Depa, colocado no meio do lago, explora bem a relação sugerida por Serralves, quando as suas faces espelhadas reflectem as árvores envolventes com diferentes perspectivas e luminosidades, numa dinâmica de reflexões que altera a nossa percepção do jardim.

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Hugo Reis e Filipa Fróis Almeida em frente ao pavilhão de Serralves Adriano Miranda
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O lado performativo dos Fahr

Os Fahr 021.3 foram fundados em 2012 por Filipa Fróis Almeida (n.1981) e Hugo Reis (n.1986), uma dupla de arquitectos com formação pela Escola Superior Artística do Porto. Encontrámo-nos no escritório, uma sala de 35 metros quadrados no edifício da UPTEC, no dia do debate em Serralves entre os autores dos cinco pavilhões, o arquitecto Nuno Grande, o curador João Ribas e a jornalista Anabela Mota Ribeiro. Marcámos o encontro a seguir ao almoço, devido ao facto de Hugo Reis estar a regressar de uma viagem de trabalho à China e de ter de seguir para Lisboa logo após o debate para acompanhar o projecto cénico do palco do festival Super Bock, Super Rock.

Durante a conversa, em jeito de reflexão, recordámos a “hipótese em aberto” colocada por um texto de 2013, da autoria do arquitecto Pedro Bismarck, no Jornal Arquitectos, a propósito de um projecto dos Like para a praça central do Colombo, onde se sugeria que as arquitecturas temporárias deveriam assumir “modos operativos de participação na cidade”.

As intervenções efémeras dos Fahr situam-se num campo muito próximo da instalação artística. A dupla caracteriza as suas peças como dispositivos de activação, com potencial para alterar as dinâmicas dos lugares onde são implantadas. Reivindicam por isso a possibilidade do temporário poder ser ainda mais potenciado. Como no caso das intervenções nos festivais, onde consideram que uma visão mais arquitectónica poderia resultar numa estratégia mais eficaz para a organização e potenciação dos espaços. Ou como no caso do projecto Alumia, onde a peça que apresentaram no ano passado — uma enorme esfera roxa, realizada a partir de condutas de ventilação, com seis metros de diâmetro, pousada no granito em frente à antiga Cadeia da Relação — poderia ter ganho um carácter mais permanente naquele local ou num outro, onde pudesse fazer sentido activar novas dinâmicas de interacção.

Com dois colaboradores, e com a perspectiva de novos trabalhos, os Fahr pretendem continuar a investir na prática especializada da arquitectura efémera, à semelhança do seu pavilhão para Serralves, a partir de uma forte componente artística e arquitectónica que explore ainda mais o seu lado performativo.