Investigação confirma que a BBC falhou em 1995 na entrevista com Diana

John Anthony Dyson, o juiz reformado que conduziu o inquérito, disse que a BBC “ficou aquém dos elevados padrões de integridade e transparência que são a sua marca registada”.

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O divórcio entre Carlos e Diana foi oficializado em 1996 Reuters/STR New

A BBC informou que o relatório da investigação ao processo da entrevista à princesa Diana pelo jornalista Martin Bashir, em 1995, concluiu que houve “falhas claras”, lamentando o sucedido.

O documento, elaborado por o juiz jubilado John Anthony Dyson, pormenoriza que “Bashir enganou [Charles Spencer] e induziu-o a marcar um encontro com a princesa Diana”, considerando que o jornalista “agiu de forma inadequada”. Já sobre a BBC, o relatório conclui que Bashir mentiu repetidamente aos seus chefes sobre a forma como a entrevista foi obtida, acusando os gestores da BBC de não terem examinado devidamente a situação e de terem ocultado factos sobre a forma como Bashir tinha conseguido a entrevista.

O director-geral da BBC, Tim Davie, explicou que “o processo para garantir a entrevista ficou muito aquém do que as audiências têm o direito de esperar”, acrescentando que o juiz tinha identificado falhas por parte da instituição, não obstante o facto de o relatório também afirmar que a princesa de Gales tinha manifestado interesse numa conversa com a BBC.

“Embora a BBC de hoje tenha processos e procedimentos significativamente melhores, aqueles que existiam na altura deveriam ter impedido que a entrevista fosse assegurada desta forma. A BBC deveria ter feito um maior esforço para chegar ao fundo do que aconteceu na altura e ter sido mais transparente sobre o que sabia”, considerou Davie.

Entretanto, o presidente da corporação, Richard Sharp, disse que a BBC “aceitou sem reservas” as conclusões do relatório. “A direcção da BBC congratula-se com a publicação do relatório de lorde Dyson, que aceita sem reservas. Houve fracassos inaceitáveis. Não nos confortamos com o facto de estes serem históricos.”

A entrevista, transmitida em 1995 e vista por cerca de 20 milhões de pessoas, fez história por ter sido a primeira vez que um membro do núcleo mais restrito da família real desabafou sobre a vida pessoal: Diana confessou um caso extraconjugal (com o instrutor de equitação, James Hewitt), falou das infidelidades de Carlos — “Havia três neste casamento, era gente a mais”, numa alusão a Camilla Parker-Bowles, que viria a casar com o herdeiro da coroa —, descreveu as depressões que sofreu e revelou que sofria de bulimia. No ano seguinte, o divórcio entre Carlos e Diana era formalizado, tendo a princesa morrido um ano depois, a 31 de Agosto de 1997, na sequência de um acidente de viação.

Martin Bashir, de 58 anos, é actualmente um dos jornalistas mais conhecidos no Reino Unido. No entanto, na altura, não passava de um recém-chegado à profissão, sem contactos com a família real, o que provocou alguma surpresa entre os seus pares. A fama viria como directa consequência desse exclusivo, e mais tarde pela conversa que teve com o músico Michael Jackson, que fez manchetes em todo o mundo.

Em Novembro do ano passado, o irmão de Diana, Charles Spencer, acusou Bashir de ter conseguido que a sua irmã concordasse dar a entrevista depois de ter afirmado que ela estava a ser alvo de escutas por parte dos Serviços Secretos britânicos e que dois dos seus assistentes estavam a ser pagos para fornecer informações sobre si. Mais: para suportar as suas afirmações, o jornalista terá apresentado extractos bancários falsos.

Dias antes da conclusão do inquérito, a BBC informou que Bashir, que desempenhava funções de editor, se retirou por motivos de saúde.


Artigo alterado às 15h20 de 21/05/2021 com pormenores sobre o conteúdo do relatório