EUA de regresso às negociações sobre o nuclear iraniano, ainda sem o Irão

Representantes da UE vão servir de mediadores entre a delegação iraniana a os norte-americanos, três anos depois de Washington ter abandonado o pacto que permitiu limitar e vigiar as actividades nucleares de Teerão.

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A bandeira do Irão diante da sede da Agência Internacional da Energia Atómica, em Viena LISI NIESNER/Reuters

Os Estados Unidos vão participar esta terça-feira nas negociações em Viena que visam recuperar o acordo internacional sobre o programa nuclear do Irão, o pacto que a Administração de Donald Trump abandonou unilateralmente em 2018.

Joe Biden, que enquanto vice-presidente participou nas negociações originais, quer regressar ao acordo histórico, mas falta agora encontrar um equilíbrio entre levantar as sanções impostas nos últimos anos a Teerão e o recuo iraniano nas actividades que violam o pacto, iniciadas em retaliação.

Desde o anúncio destas reuniões em Viena, a semana passada, o Irão repetiu várias vezes que os seus representantes não estarão em nenhum encontro com enviados norte-americanos. Serão assim indirectos estes primeiros contactos, com os responsáveis da União Europeia a servir de mediadores.

Quando Trump rasgou o acordo, foi Bruxelas que tentou preservar o que a então alta representante para a Política Externa e vice-presidente da UE, Federica Mogherini, descreveu como “um dos maiores êxitos diplomáticos jamais alcançados". Os esforços europeus tiveram algum sucesso mas só numa primeira 

Os enviados dos EUA vão sentar-se num sítio diferente da delegação iraniana e dos restantes membros do chamado P5+1 – os membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (para além dos EUA, China, França, Rússia e Reino Unido) mais a Alemanha – e da UE.

Rob Malley, veterano das administrações de Bill Clinton e de Barack Obama, vai liderar a delegação norte-americana no que se antecipa como o início de um longo processo para salvar o pacto que permitiu limitar e monitorizar as actividades nucleares iranianas, em troca do levantamento de sanções económicas.

As partes envolvidas sublinham que a diplomacia precisa de tempo, ao mesmo tempo que admitem saber que o prazo para progressos é curto: os mediadores europeus esperam conseguir avanços significativos até Maio, um mês antes das eleições presidenciais no Irão. Com o fim da presidência de Hassan Rohani, um conservador pragmático que prometeu aberturas, é possível que em Junho seja eleito um candidato dos Guardas da Revolução, um cenário que não encerraria o processo mas acrescentaria dificuldades.

O Irão vê esta nova fase de negociações como destinadas a “debater o caminho para o levantamento das sanções”, que tanto contribuíram para o afundar da economia do país. “Saber se a agenda da comissão conjunta produz resultados depende dos europeus e dos 4-1 lembrarem aos EUA as suas obrigações, e dos americanos cumprirem os seus compromissos”, afirmou em Teerão o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Saeed Khatibzadeh.

Trump trocou o acordo, que disse basear-se numa “ficção gigantesca de que um regime assassino só deseja um programa de energia nuclear pacífico” pela sua estratégia de “pressão máxima”, mas saiu da Casa Branca sem que a sua tentativa para dobrar o regime iraniano com sanções duríssimas tenha produzido frutos.

Já em Janeiro, no que foi interpretado como uma tentativa para aumentar a pressão sobre Biden, o Irão começou a enriquecer urânio a uma pureza de 20% (o acordo estipula o limite de 3,67%), produzindo, no mês seguinte, uma pequena quantidade de urânio que pode ser usado para fabricar uma bomba.