Trump tem as mãos no pescoço do Irão e os olhos na mudança de regime

Com o regresso da sanções norte-americanas contra o Irão, o agravamento da crise económica no país pode endurecer os protestos. Mas a mudança de regime defendida por muitos na Casa Branca pode continuar a ser uma ilusão.

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Mural em Teerão ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

De todas as palavras que podem ser usadas pelos responsáveis da Casa Branca, nos jornais e nas televisões, para explicarem o verdadeiro objectivo da saída dos Estados Unidos do acordo sobre o programa nuclear iraniano e o regresso das sanções económicas contra o país, há três que estão proibidas: mudança de regime. Na segunda-feira, horas antes da entrada em vigor dessas novas sanções, até o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, um homem conhecido por defender há anos uma mudança de regime no Irão e uma solução militar para a Coreia do Norte, fez uma afirmação que parece não deixar margem para dúvidas: "A nossa política [para o Irão] não é a mudança de regime."

Mas para muitos analistas só há uma explicação para que a Casa Branca não queira falar abertamente de uma política de mudança de regime para o Irão, numa altura em que as manifestações contra a subida dos preços e o aumento do desemprego voltaram às ruas de algumas cidades iranianas, e em que o regresso das sanções norte-americanas poderá servir de rastilho para protestos ainda maiores: "Se os EUA apelassem de forma explícita a uma mudança de regime no Irão – se dissessem que essa é a finalidade da sua política –, podíamos ver cidadãos iranianos que não gostam do seu Governo a apoiarem o regime, simplesmente para mostrarem o seu apoio perante uma ameaça externa", disse Gerald F. Seib, responsável pela delegação do Wall Street Journal em Washington, num comentário publicado segunda-feira.

Se, nos jornais e nas televisões, responsáveis como John Bolton e o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, andam às voltas com as palavras para passarem ao lado da expressão proibida ("mudança de regime"), outras figuras do Partido Republicano foram directas ao assunto nas redes sociais.

Na segunda-feira, o senador Lindsey Graham, também ele um fervoroso adepto de planos que envolvam ataques à bomba contra a Coreia do Norte e o Irão, pegou na frase mais conhecida da campanha de Donald Trump e torceu-lhe o braço até ela dizer o que lhe vai nos sonhos: "Make Iran Great Again. Dump the Ayatollah!" (Voltem a engrandecer o Irão. Vejam-se livres do Ayatollah!)

Uma mudança indesejada?

Se o verdadeiro objectivo da Administração Trump for acelerar uma mudança de regime no Irão – e não apenas uma "mudança de comportamento do regime", como dizem Donald Trump, Mike Pompeo e John Bolton –, há quem aconselhe cautela: se a pressão for muita, a mudança no Irão pode não ser aquela que a Casa Branca deseja.

"As forças de segurança iranianas são brutais, eficazes e leais. É provável que os esforços norte-americanos para fomentar divergências internas venham a ser contraproducentes, se olharmos para a histórica rejeição de interferências externas por parte dos iranianos", disse esta terça-feira o investigador Henry Rome, da empresa de gestão de risco Eurasia Group, citado pelo canal norte-americano CNBC.

A ideia de que o actual descontentamento dos iranianos com a economia pode vir a transformar-se em apoio ao regime perante uma ameaça externa, ou pelo menos numa tolerância face à possibilidade de um vazio de poder, foi desenvolvida no mês passado na revista Foreign Policy por Mahsa Rouhi, investigadora no International Institute for Strategic Studies, com sede em Londres.

"Os iranianos já passaram por uma revolução, seguida de oito anos de guerra, e essa experiência ainda está muito fresca na cabeça de muitas pessoas. As dificuldades económicas por que eles estão a passar são difíceis, mas se a alternativa for o caos da Síria ou do Iraque, então os iranianos vão escolher a segurança e a ordem", disse a investigadora.

Outros especialistas salientam também que os protestos nas ruas do Irão são mais frequentes do que se pensa – e na maioria dos casos são motivados por queixas sobre aumento do desemprego e acusações de corrupção, como acontece em outros países, e não por causa de uma oposição forte e organizada contra o regime no poder, ao contrário do que aconteceu nas décadas anteriores à queda do xá Reza Pahlavi, em 1979.

"É provável que os protestos se acalmem e que não se transformem no início de uma revolução. Quando toca à sobrevivência do regime, o Líder Supremo Khamenei está no controlo, e tem à sua disposição um amplo leque de indivíduos e grupos leais, o que faz com que as conversas sobre uma mudança de regime sejam prematuras", disse à CNBC  Ehsan Khoman, director do departamento de investigação sobre Médio Oriente e África no maior banco japonês, o MUFG Bank.

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Quando toca à sobrevivência do regime, o Líder Supremo Ali Khamenei está no controlo", disse o analista Ehsan Khoman REUTERS

E antes de se pensar num hipotético caos provocado por violentas manifestações contra o regime, é preciso olhar para figuras como o general Qassem Suleimani, cérebro das operações militares iranianas contra o Daesh no Iraque e na Síria, e considerado um herói por 65% da população, segundo uma sondagem recente. Antes de o Irão mergulhar no caos, Suleimani poderá usar os seus poderes de protector do regime revolucionário para pôr fim aos protestos.

Os analistas que duvidam da possibilidade de uma mudança de regime no Irão, espicaçada pelo regresso das sanções norte-americanas, apoiam-se também no facto de que o país está hoje menos isolado em termos internacionais do que antes do acordo sobre o programa nuclear, assinado em 2015. Se é verdade que o Irão vai ser muito afectado com o corte de transacções com as empresas americanas – e que as grandes empresas europeias também querem afastar-se do Irão com receio das ameaças de vingança de Washington –, também é verdade que a União Europeia, a Rússia e a China podem atenuar um pouco os efeitos desses golpes.

"Vale a pena recordar que o Irão não abandonou o seu programa de enriquecimento de urânio nem mesmo no auge das sanções, antes do acordo de 2015", lembra Mahsa Rouhi na Foreign Policy. "As sanções de 2012 afectaram as exportações de petróleo e a indústria automóvel do Irão e, mais importante do que isso, afastou o país do sistema financeiro global, provocando danos económicos muito sérios. Ainda assim, não fizeram com que Teerão abandonasse o seu programa nuclear."