Autoeuropa pára uma semana devido à falta de semicondutores

Grupo Volkswagen suspende produção em Palmela entre 22 e 28 de Março. É a primeira fábrica nacional do sector automóvel a ser afectada pela escassez global que afecta outras indústrias.

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Miguel Manso

As fábricas portuguesas de automóveis tinham até agora passado pelos pingos da chuva, mas era uma questão de tempo até a escassez mundial de semicondutores se repercutir na produção nacional. A Autoeuropa, em Palmela, é a primeira unidade em Portugal que vai ter de parar devido à falta de chips.

A paragem vai decorrer entre 22 e 28 de Março e vai levar à perda de 5700 carros face à produção normal. Essa semana será contabilizada como “downdays colectivos”, informou João Delgado, responsável de comunicação de relações governamentais da fábrica da Volkswagen no distrito de Setúbal. Isso significa que não tem impacto na remuneração dos trabalhadores.

“Desde o último trimestre de 2020 que o Grupo Volkswagen criou uma task force com o objectivo de minimizar o impacto da escassez global de semicondutores nas suas fábricas”, diz a empresa portuguesa num comunicado emitido nesta quarta-feira à tarde.

Trata-se, no entanto, da segunda paragem forçada em 2021. “A Volkswagen Autoeuropa iniciou o ano a operar na sua máxima capacidade, tendo apenas ajustado os turnos de produção durante duas semanas em função do anúncio do encerramento dos estabelecimentos de ensino”, recorda, no comunicado, aludindo à paragem de três dias para os trabalhadores se reorganizarem quando o Governo antecipou férias escolares antes do início do segundo confinamento.

Agora, a causa é um problema mundial que afecta particularmente a indústria automóvel, mas que também já se faz sentir noutras indústrias, como a electrónica de consumo.

“A distribuição condicionada de semicondutores na indústria automóvel, que não tinha até ao momento provocado qualquer interrupção na actividade da fábrica de Palmela, obriga agora a cancelar todos os turnos de produção entre 22 e 28 de Março”, lê-se no comunicado desta quarta-feira à tarde. “A produção deverá ser retomada no turno da noite do dia 29 de Março, às 00h00. Esta paragem traduz-se na perda de cerca de 5700 unidades.”

O sector automóvel usa chips para controlo de diferentes funcionalidades, desde a direcção assistida ao sistema de entretenimento a bordo. A título de exemplo, um Audi Q7 tem quase 40 chips diferentes a bordo, explica ao PÚBLICO Marcelino Santos, professor e coordenador científico da área de electrónica no Departamento de Engenharia e Electrotécnica e Computadores do IST, em Lisboa.

Setenta por cento das necessidades mundiais do sector dos carros são satisfeitas por uma única fábrica de circuitos integrados, a TSMC, que é a maior produtora mundial, com uma quota de mercado acima dos 50%. Não há muitas empresas produtoras de circuitos integrados (foundries, em inglês, ou fab, segundo a gíria inglesa adoptada pelo mercado). A TSMC, em Taiwan, e a Samsung, na Coreia do Sul, são as principais produtoras, sobretudo em nós tecnológicos mais avançados, mas a indústria automóvel requer também chips mais antigos.

O problema é que não há muitas foundries no mundo. Oitenta por cento da produção mundial está centrada na Ásia, e quem fabrica carros dependia sobretudo de intermediários – no caso da Volkswagen, são empresas como a Bosch ou a Continental. 

Esta crise global no fornecimento de chips começou a fazer-se sentir depois do primeiro confinamento, que teve alcance global, entre Março e Maio de 2020. A indústria automóvel cancelou as encomendas de chips porque trabalha segundo um método que não lhe permite acumular stocks, mas viu a electrónica de consumo, cuja procura disparou, ocupar as linhas de produção de circuitos. O teletrabalho e a enorme procura por equipamentos como computadores, consolas de jogos, tablets, associado ao crescimento dos centros de computação que sustentam a cada vez maior digitalização dos negócios e da própria vida laboral durante a actual pandemia, elevaram ainda mais a procura mundial por chips, que estará uns 30% acima da actual capacidade produtiva existente, segundo estimativas de analistas do mercado.

Há cerca de um mês, responsáveis da fábrica da Renault em Portugal, no distrito de Aveiro, diziam que o pico da crise de chips na indústria automóvel deveria chegar no segundo trimestre deste ano, ou seja, entre Abril e Junho.

No grupo VW, já foram afectadas linhas de produção na China e nos EUA, bem como noutras unidades na Europa. “Modelos baseados na plataforma MQB, tanto da VW como da Skoda, da Seat e, numa extensão menor, da Audi, estão a ser afectados”, dizia Murat Aksel, responsável pelas compras do grupo, numa declaração de Dezembro de 2020. 

A plataforma MQB é partilhada por diferentes modelos, incluindo o T-Roc, que a Auteuropa produz em exclusivo mundial (com excepção do mercado da China). É aliás o principal modelo feito em Palmela e aquele que ajudou a Auoeuropa a atingir recordes de produção desde 2018, quando começou ali a ser montado o T-Roc.

A Autoeuropa tinha 5800 trabalhadores em 2018 e produziu nesse ano 223.200 veículos. Em 2019, fabricou 256.878, um recorde absoluto de produção. Em 2020, houve uma quebra, fechando um ciclo de crescimento por causa da pandemia. Num ano em que passou pelo layoff simplificado, fez cerca de 195 mil carros.

Além do T-Roc, Palmela tem linhas de produção para o Seat Alhambra e o VW Sharan.