A técnica do golpe de Estado

O futuro das instituições norte-americanas está dependente da anulação de qualquer hipótese de nova tentativa de golpe, o que requer uma firme ação judicial contra o Presidente traidor à constituição que jurou defender, e contra os seus apoiantes de extrema-direita empenhados em ações armadas

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Assalto ao Capitólio, a 6 de Janeiro Reuters

O assalto ao Congresso pôs a nu a fragilidade das instituições norte-americanas. Não se trata de uma insurreição espontânea ou sem intenção, mas de uma tentativa falhada de golpe de Estado. As condições específicas da sociedade norte-americana e a impossibilidade de pronunciamento militar, de momento, levaram a outro modelo de golpe contra a constituição, promovido por milícias de extrema-direita armadas com o apoio do Presidente, baseado nos média sociais. Vejamos os principais passos desde as eleições de 2016, existe um fio condutor:

1. Trump faz campanha contra “o sistema”, arrasa as instituições tidas como inúteis, condena o “Estado profundo” que não serve os interesses da população. Apresenta-se como empresário de sucesso apesar das bancarrotas, rico mas interessado nos pobres, vítimas dos imigrantes e do investimento noutros países. Desenvolve um programa nacionalista, contrário ao cosmopolitanismo das elites globalizadas. Propõe uma política protecionista, de controlo das importações e apoio às indústrias tradicionais, com corte de impostos, rutura com o programa de saúde para todos, e bloqueio da imigração. Fala com palavrões para estabelecer a ponte com os meios menos educados, beneficia do sucesso no programa televisivo Apprentice, usa e abusa do Twitter para comentários escandalosos para atrair os média convencionais. Cultiva os meios evangélicos e projeta uma imagem de valores conservadores baseados na família tradicional. A mensagem atrai a classe operária branca em crise, trabalhadores independentes vulneráveis, classes média e alta interessadas nos cortes de impostos.   

2. A campanha eleitoral é um caminho estreito, Trump insulta, denigre e procura destruir a reputação do candidato rival de modo a desmobilizar o eleitorado democrático. O opositor é uma mulher, ideal, o machismo faz parte do arsenal que ele utiliza contra o politicamente correto. Mas há mais ruturas, por exemplo com a política internacional norte-americana, a aliança implícita com os russos pode trazer mais lama (e traz) contra a candidata Democrata. No final, Hilary ganha com três milhões de votos a mais, mas Trump ganha o colégio eleitoral criado na fundação dos Estados Unidos para satisfazer os estados esclavagistas do sul. Não é a primeira vez que tal discrepância antidemocrática ocorre, é o problema de fundo do sistema de representação americano.

3. O Presidente não se acomoda nem pode, perderia a base de apoio. Continua a bradar contra “o sistema”, mantém comícios regulares depois de eleito, toma como alvo principal de crítica os canais de televisão e imprensa liberais, vilipendiados como supostos produtores de noticias falsas, de esquerda. Trata-se de um eco da campanha de Hitler nos anos de 1930 contra o “Bolchevismo cultural”, destinada a identificar a imprensa liberal com a extrema-esquerda e suprimir a oposição do centro. A estratégia é sempre de bradar contra a falsidade dos outros para fazer passar as notícias falsas próprias.

4. A campanha de insulto aos Democratas é estendida aos Republicanos que mantêm uma distância crítica. As milícias de extrema-direita, desde o início envolvidas na campanha de Trump, passam a desempenhar um papel estrutural nos comícios e na intimidação do Partido Republicano, que se submete ao Presidente. Os episódios de confrontação política, devido ao assassinato de afro-americanos pela polícia, estimulam o elogio do presidente às milícias ligadas ao supremacismo branco.

5. Trump vela pela implementação da política de bloqueio à imigração, de protecionismo económico contra a China, de abertura à Rússia como paga pelo apoio eleitoral, de destruição do programa de saúde para todos, de apoio às indústrias tradicionais, de corte com os compromissos ecológicos. Os resultados são mistos, Trump desdenha o trabalho de rigor, conhecimento dos dossiers, e negociação com a oposição. Os quatro anos de exercício do poder são passados em campanha eleitoral, onde as teorias conspirativas desempenham um papel fundamental. Essas teorias são desenvolvidas com a ajuda de organizações como a QAnon especializadas em lavagem ao cérebro com acusações alucinantes de satanização do “sistema”. As mentiras sistemáticas de manipulação da opinião por Trump contam-se por dezenas de milhares; inspiram a nova indústria da verificação de factos nos media. Nada disto é novo: veja-se o recente livro de Richard J. Evans, Hitler Conspiracies: The Third Reich and the Paranoid Imagination (Allen Lane, 2020) no qual se analisa a ideia segundo a qual nada acontece por acaso, tudo é resultado de teorias malignas de grupos manipulativos.

6. A falta de resposta à covid-19 resulta do isolamento deliberado de Trump numa realidade virtual com os seus apoiantes inamovíveis: más notícias são rejeitadas como falsas, ele está habituado a fabricar as notícias. A deterioração económica e o fracasso espetacular da resposta norte-americana ao vírus devido à ausência de ação concertada desempenham um papel importante na viragem da opinião pública, mas não decisivo como veremos, dada a intoxicação gerada. Trump faz campanha contra o voto legítimo por correspondência para contestar a legalidade dos votos. Na contagem dos votos desenvolve todos os esforços para anular votos Democratas e obter votos suplementares a seu favor, como a conversa gravada com o governador republicano da Geórgia documenta. Faz dezenas de telefonemas onde procura intimidar representantes de governos estaduais e responsáveis pelo sistema eleitorado. Enquanto procura impor a sua própria fraude eleitoral, vocifera contra a suposta fraude dos outros, que nunca consegue provar e é sistematicamente repudiada pelos tribunais. Desesperado, mobiliza as milícias de extrema-direita para intimidar o Congresso no dia da certificação do voto e confirmação de Joe Biden como Presidente. A ideia é criar um impasse e prolongar a presidência, possivelmente para forçar novas eleições.

7. O assalto ao Congresso é um exercício, a meu ver, premeditado, que envolve a ausência da Guarda Nacional, sob controlo do Presidente, e a complacência da polícia do Congresso, que parece infiltrada pela extrema-direita. Trata-se de um balão de ensaio para iniciativas futuras. Falta a mobilização do exército, tarefa difícil, até o vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney (ao que chegámos!), vê o perigo e reúne dez antigos secretários de Estado da Defesa para criticar a recusa dos republicanos em conceder derrota (por sete milhões de votos!) e conter a escalada de corrupção anti-institucional entre os militares.

8. Trump usa o seu estatuto de Presidente para multiplicar as teorias conspirativas e a descrença nas instituições, agora alargada à recusa da validade do voto, último passo para um projeto de ditadura. A abjeção das milícias de extrema-direita que ele adora está estampada nas camisas dos assaltantes do Congresso com o elogio do campo de concentração nazi de Auschwitz ou com a sigla repugnante 6MWNE, que significa, em tradução, seis milhões não foram suficientes, numa clara referência ao genocídio dos judeus pelos nazis.

9. Mais preocupante é a sondagem feita imediatamente a seguir ao assalto e publicada pela Newsweek, segundo a qual 21% dos norte-americanos e 45% dos eleitores republicanos aprovam o assalto ao Congresso, enquanto 32% dos eleitores não o consideram uma ameaça para a democracia. Existe uma clara base social de negação da validade das instituições e de recusa dos resultados eleitorais.

10. Para terminar com uma nota positiva, a derrota de Trump deve-se sobretudo à mobilização eleitoral provocada pelo movimento Black Lives Matter. É o preço a pagar pelo apoio à extrema-direita racista e pela desvalorização do voto. Foi esse movimento que garantiu a vitória dos Democratas na Geórgia; os dois senadores agora eleitos, no mesmo dia da insurreição, acabam com a maioria republicana. Nos últimos dias ampliou-se a informação sobre o projeto de golpe de Estado das milícias e o envolvimento da polícia. A própria inauguração da presidência de Joe Biden está em risco. O futuro das instituições norte-americanas está agora dependente da anulação de qualquer hipótese de nova tentativa de golpe, o que requer uma firme ação judicial contra o Presidente traidor à constituição que jurou defender, e contra os seus apoiantes de extrema-direita empenhados em ações armadas.