Quatro mortes após invasão do Capitólio. Biden diz ser “assalto sem precedentes” à democracia

Apoiantes de Trump entraram no Capitólio e o processo de certificação dos resultado das presidenciais foi suspenso. Biden fala em ataque à “cidadela da liberdade” e Trump insiste na tese de fraude eleitoral e pede aos seus apoiantes para irem para casa. Uma das quatro vítimas é uma mulher que morreu após ser baleada no interior do Capitólio.

Quatro pessoas morreram e 52 foram detidas em Washington, nos Estados Unidos, depois de centenas de apoiantes de Donald Trump terem invadido o Capitólio, levando à interrupção da certificação dos resultados das eleições presidenciais que decorria no Congresso. Há ainda 14 agentes da polícia que ficaram feridos. A informação foi avançada pelo departamento de polícia de Washington D.C., citada pela agência Reuters.

Numa conferência de imprensa feita durante a noite, o chefe da polícia, Robert J. Contee, explicou que 47 pessoas foram detidas por violarem o recolher obrigatório, com 26 pessoas a serem detidas no recinto do edifício do Capitólio dos EUA – muitas outras foram detidas por não terem licença de porte de arma ou por possuírem armas ilegais.

Para o Presidente eleito, Joe Biden, a democracia norte-americana estava a ser alvo de “um ataque sem precedentes”, exigindo a Trump que fosse à televisão “defender a Constituição e pôr fim a este cerco”.

Vídeo: Entre as palavras de Trump e as de Biden, uma invasão ao Capitólio

“As cenas de caos no Capitólio não reflectem a verdadeira América. Não representam aquilo que somos”, disse Joe Biden, a partir de Wilmington, Delaware, referindo-se à invasão do Capitólio como um “assalto à cidadela da liberdade”. 

“O que estamos a ver é um pequeno número de extremistas dedicados à ilegalidade. Isto não é dissidência. É desordem. É o caos. É quase sedição. E deve acabar agora”, reiterou Biden, acrescentando que o seu principal objectivo para os próximos quatro anos será “restaurar a democracia”. 

Após confrontos com a polícia, vários apoiantes de Trump entraram nas instalações do Capitólio, levando à evacuação do Congresso, tendo os senadores e congressistas sido acompanhados pela polícia, que recomendou que levassem máscaras antigás.

De acordo com a NBC, uma das pessoas que morreram era uma mulher, depois de ser baleada no interior do Capitólio. As autoridades usaram granadas de fumo para dispersar os invasores, que, segundo a mesma estação televisiva, tinham como objectivo passar a noite no interior do edifício. Horas depois, no entanto, as autoridades anunciaram que a situação estava sob controlo e que o Capitólio estava “em segurança”. 

O FBI disse que desactivou dois engenhos explosivos e que abriu uma investigação. 

A Guarda Nacional e outras forças federais foram activadas, anunciou a Casa Branca. A mayor de Washington, Muriel Bowser, decretou o recolher obrigatório na cidade a partir das 18h locais (23h em Portugal continental). 

Trump insiste na tese de fraude

Numa declaração publicada no Twitter, poucos minutos depois de Joe Biden falar, Donald Trump insistiu que as eleições foram “roubadas” e pediu aos seus apoiantes para irem para casa para que seja restaurada a “lei e ordem”.

“Estas eleições foram fraudulentas, mas não podemos deixar isto nas mãos destas pessoas. Precisamos de ter paz. Por isso, vão para casa. Adoramo-vos, vocês são muito especiais. Sei como se sentem, mas vão para casa”, disse Trump, referindo que não queria “ninguém ferido”.

Momentos mais tarde, no seguimento da situação “violenta e sem precedentes” em Washington, o Twitter exigiu que três publicações que Donald Trump fez nesta quarta-feira fossem apagadas devido a “violações repetidas e graves” da política de integridade cívica daquela rede social. Isto significa que a conta de Trump ficará bloqueada durante 12 horas após as publicações em causa serem retiradas. Caso os tweets não sejam apagados, a conta irá permanecer bloqueada, revelou o Twitter.

Por seu turno, o vice-presidente cessante, Mike Pence, apelou aos apoiantes de Trump para abandonarem o Capitólio e garantiu que os responsáveis pela invasão serão punidos. Assim que começou a invasão, o vice-presidente e também presidente do Senado foi retirado do edifício, assim como a vice-presidente eleita e senadora, Kamala Harris. 

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, emitiram um comunicado conjunto a instar Donald Trump a que pedisse aos seus apoiantes para saírem “imediatamente” do Capitólio. 

O secretário de Estado, Mike Pompeo, disse que a invasão do Capitólio é “intolerável”. “América é melhor do que o que vimos hoje”, declarou. Já o secretário da Segurança Interna interino, Chad Wolf, disse que a “violência é inaceitável”. Várias congressistas e senadores do Partido Republicano, incluindo Ted Cruz, condenaram a invasão, e o senador republicano Mitt Romney responsabilizou Trump pela “insurreição”. 

Condenação internacional 

O acto de “insurreição” foi condenado internacionalmente, com apelos a que os resultados eleitorais sejam respeitados. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, falou em “cenas chocantes” em Washington, enquanto o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrel, disse que “aos olhos do mundo a democracia norte-americana surge sob cerco”.

“Cenas vergonhosas no Congresso. Os Estados Unidos representam a democracia por todo o mundo e agora é vital que haja uma transição pacífica e ordeira de poder”, disse, por seu turno, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

O primeiro-ministro português, António Costa, denunciou as “imagens inquietantes” que chegaram de Washington e pediu que os resultados fossem respeitados. 

“Acompanho com preocupação os desenvolvimentos em Washington. São imagens inquietantes. O resultado das eleições deve ser respeitado, com uma transição pacífica e ordeira do poder. Confio na solidez das instituições democráticas dos Estados Unidos”, escreveu Costa no Twitter. 

Extrema-direita nas ruas

Durante o dia, milhares de pessoas juntaram-se em Washington, palco de várias manifestações de apoio a Donald Trump, enquanto o Congresso começava o processo de certificação da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais de 3 de Novembro.

O Presidente cessante marcou presença numa marcha intitulada “Salvar a América” e voltou a insistir nas teses – rejeitadas em dezenas de tribunais – de fraude eleitoral e garantiu que “nunca [vai] desistir ou reconhecer” a derrota, incentivando os seus apoiantes a contestar o resultado eleitoral. 

“Não se cede quando há roubo envolvido”, disse Trump a uma multidão de apoiantes. “Nós ganhámos estas eleições e ganhámos com uma grande vantagem”, acrescentou.

As autoridades de Washington esperavam a participação de cerca de 30 mil pessoas nos protestos desta quarta-feira e pediram aos manifestantes para não levarem armas de fogo, o que teria tolerância zero.

Para as ruas foram destacados 3750 polícias e mais de 300 soldados da Guarda Nacional, um pedido feito pela polícia local e pela mayor de Washington, Muriel Bowser, devido à presença de grupos de extrema-direita e supremacistas brancos, como os Proud Boys, nas manifestações.

Enrique Tarrio, líder dos Proud Boys, que tinha sido detido na segunda-feira devido a possíveis crimes de ódio relacionados com uma manifestação em Dezembro, onde queimou uma bandeira do movimento Black Lives Matter, foi libertado na terça-feira e recebeu ordens para não entrar em Washington até comparecer perante um juiz, em Junho, segundo o USA Today.

Durante a tarde, segundo o Washington Post, centenas de apoiantes de Donald Trump já tinham tentado saltar as barreiras de metal para chegarem ao Capitólio, mas acabariam por ser travados pela polícia. 

Nas ruas da capital, ouviram-se gritos de “Parem o roubo”, com milhares de pessoas munidas de bandeiras, cartazes e bonés de apoio a Donald Trump a contestarem a vitória de Joe Biden. 

As manifestações começaram na terça-feira, dia em que houve registo de confrontos entre manifestantes e a polícia, que utilizou gás lacrimogéneo e bastões para afastar os manifestantes que tentavam chegar à “praça Black Lives Matter”.