A casa da minha mãe e a casa do meu pai

Como muitos, há um casal que se separa. Um do outro, mas não da filha. Entre a casa da mãe e a do pai, a menina aprende a viver com duas famílias. E dois cães.

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Anabela Dias
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Imaginar do Gigante
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Capa do livro “Duas Casas”, que é também um espectáculo de teatro da Imaginar do Gigante Anabela Dias

Um livro que começou por ser escrito para um espectáculo da Imaginar do Gigante: Duas Casas – Teatro com Coisas lá Dentro. Esteve em cena em Outubro do ano passado, no Porto, no Auditório Eugénio de Andrade. Ia estrear-se em Abril de 2020, mas não foi possível. Todos sabemos porquê.

Ele e ela desarrumaram todas as gavetas que estavam juntas. Colocaram tudo à pressa em malas separadas. Depois, foram à procura de uma nova casa para morar. Mas as casas que procuramos nem sempre nos encontram. E procurar uma casa no mundo é muita distância a percorrer”, conta o autor e director de produção, Pedro Saraiva. Para depois assim resumir o que a narrativa explora: “Nesta história dinâmica, cheia de afectos, uma criança coloca questões do nosso tempo sobre a distância das casas onde habitamos. Um tema nem sempre fácil de digerir, mas cada vez mais comum nas sociedades contemporâneas.”

O autor quis, no entanto, desdramatizar (sem menosprezar) esse momento crítico e doloroso para os casais que se separam e também para os filhos. “O divórcio ou a mudança de casa é muitas das vezes, infelizmente, o foco de conflito. Mas não tem de ser. É desse ponto de vista em que os conflitos são uma nova casa apenas. Neste livro, o mundo é visto pelos olhos do amor e pela grandeza de ter mais do que uma casa, ou mais do que uma família. Afinal, a família pode ser aquilo que nós quisermos. E ter uma família separada ou diferente da que conhecemos não tem de ser uma tristeza.”

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Redescobrir o amor

A mesma linha seguiu a ilustradora do livro, Anabela Dias, que disse ao PÚBLICO, via email: “A separação de um casal (que nesta história tem uma filha), para além de trazer muitos dissabores, também pode dar uma vida nova e/ou renovada às famílias. Acima de tudo, quis valorizar o lado positivo e diria até bonito da separação, que os pais podem redescobrir o amor com outras pessoas e o quanto é importante perceber que as ligações se devem manter o mais tranquilas possível, apesar das turbulências emocionais.”

A ilustradora contou-nos ainda o percurso para este livro: “O processo criativo passou essencialmente por duas fases: o antes e o depois de ter assistido aos ensaios da peça Duas Casas que acompanha o livro. Inicialmente, tive acesso apenas ao texto, que me motivou imediatamente.”

O acompanhamento dos ensaios foram, diz, “determinantes para criar as minhas metáforas visuais do texto e outras narrativas, dando mais ênfase à construção de novas famílias e novas casas, reforçando a importância da ligação entre elas”.

Informações sobre a parte técnica e plástica também nos ajudaram a ler as imagens: “As ilustrações originais foram todas executadas a aguarela e lápis de cor, resultando de muitas experimentações dos movimentos soltos do pincel.”

Anabela Dias agradece à Biblioteca Municipal de Sever do Vouga, que “possibilitou a exposição das ilustrações originais”, e a quem ali esteve presente a 24 de Outubro. Apesar do número limitado de pessoas que a situação actual obriga, foi muito bom falar ao público e ouvi-lo também. Por ser tão essencial às nossas vidas, nunca como hoje a cultura fez tanto sentido.

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Pedro Saraiva, que dirige a Imaginar do Gigante, não consegue despedir-se de nós sem acrescentar ao depoimento inicial a sua opinião sobre as separações: “O suposto problema é visto como uma nova e ampliada solução. Porque, afinal, podemos ter dois cães, duas avós, dois pais, duas mães e duas casas… O importante é sermos felizes na casa onde habitam os nossos corações.” E conclui: “Um livro sem medo e sem preconceitos.”

Diz a menina: “Quando a montanha da noite sobe muito alto/ adormeço sozinha./ Abraço a minha mamã e abraço o meu papá./ Mesmo quando não estão aqui comigo./ Não tenhas medo mamã./ Não tenhas medo papá./ Eu estou aqui na nossa casa.”

Sobre a versão em inglês, não podemos deixar de referir que há passagens bastante eficazes, mas outras menos felizes. Na tradução “à letra”, ainda que não se adultere o significado das palavras e das frases, perde-se aqui e ali o sentido poético da língua de partida.

Para terminar, Pedro Saraiva diz-nos ainda: “Esta história é também um projecto de teatro que vai andar por vários lugares de Portugal. É só procurar entre as casas e encontram-nos.” Combinado.

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