Um Natal inesperado

É natural ficarmos zangados por não podermos ir a casa dos tios ou estar com os primos que habitualmente passam connosco esta quadra.

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PETER CALHEIROS

Aproxima-se o Natal, uma época que apela ao melhor de cada um de nós e que para muitos é sinónimo de família, de calor humano e do cheiro a canela. 2020 foi um ano inegavelmente difícil, com vivências psicológicas geradoras de stresse e marcadas por momentos de incerteza e até de desespero. Nesta época tão esperada por adultos e crianças, a verdade é que o facto de o Natal não poder acontecer à volta de uma mesa cheia de gente comilona e bem-disposta, que só os verdadeiros encontros familiares têm, deixa um sabor amargo. Neste ano tudo foi e será diferente, até o fim, porque ainda estamos numa fase agravada da pandemia.

O Governo anunciou exceções para o Natal e deixou que fossem as famílias a escolherem com quem e onde passar a noite da consoada e o dia de natal. Neste momento, a maior parte das famílias já decidiu com quem vai reunir nesta época festiva. Nem todas as pessoas pensam e agem da mesma forma, havendo famílias que optaram por adotar cuidados máximos e manter apenas o núcleo familiar habitual, outras optaram pelos cuidados que consideram suficientes, correndo mais riscos porque há sempre um tio, primo ou irmão que também vai aparecer, sendo que uma terceira fasquia irá ignorar totalmente as medidas de proteção negando a realidade e a gravidade da situação.

As pessoas são totalmente livres para fazerem escolhas e acatarem com as consequências. Celebrar o Natal é importante, sem dúvida, mas será que nos últimos dias deste ano tão intenso e verdadeiramente difícil para muitas famílias não vale a pena ponderar o que representa risco e o que representa proteção? Será que não conseguimos só por um ano fazer algo mais intimista e tentar reduzir o número de mortes? Pensemos nos velhos que se encontram em lares e que além de não verem os seus familiares há meses, este ano foram excluídos desta quadra. Será que o que se aproxima é mesmo o Natal de 2020, ou poderá ser quando nós quisermos?

Para muitos, a distância das pessoas com quem habitualmente se encontravam nesta época significa um aumento de sentimentos negativos. Sim, isto é válido e vai acontecer. Tristeza, ansiedade, exaustão, raiva, desânimo, tudo isto deve ser encarado como resultado do momento excecional que vivemos. Há pessoas que não têm sequer ânimo para se preocupar com as festividades do Natal porque perderam o emprego, um familiar ou amigo ou porque viram os seus rendimentos reduzidos. Podemos e devemos aceitar os sentimentos negativos, em nós e nos outros. Se este é o tempo de solidariedade, deixe quem está ao seu lado expressar o seu desalento por tudo ser diferente do que desejava, ouça as suas necessidades. Envie mensagens de ânimo e de consolo a quem percebe que está mais frágil, mas nada de ilusões de que o pensamento positivo tudo resolve, é preciso sim reconhecer a gravidade da situação em que ainda estamos e fomentar a proatividade.

É natural ficarmos zangados por não podermos ir a casa dos tios ou estar com os primos que habitualmente passam connosco esta quadra, mas podemos tentar uma aproximação através das possibilidades que as tecnologias nos dão. Há sempre as chamadas e os vídeos em direto onde podemos estar com quem gostamos e até abrir as prendas ao mesmo tempo. Não é a mesma coisa, claro que não! Mas se, mesmo por um instante, conseguirmos olhar aquelas pessoas que estão do outro lado do ecrã como parte da nossa celebração então será mais fácil encarar este momento como o espírito de união próprio do Natal.

Para mantermos uma boa saúde mental neste momento em que nos sentimos frustrados por não podermos estar com quem queremos, é preciso flexibilizar pensamentos e atitudes e criar uma espécie de bolha protetora. As famílias que passaram pelo desgosto de perder um ente querido antes ou no decorrer deste ano podem relembrar essa pessoa com uma homenagem, ele ou ela estarão sempre presentes. As crises também representam oportunidades. A ceia de Natal será mais reduzida em número de pessoas, mas não precisa deixar de ter magia. Nós é que fazemos a noite, por isso, ofereçam o bem mais valioso que os seus familiares podem receber de si: o seu tempo e a sua atenção. Mesmo sendo poucos, podemos fazer toda a diferença para quem está ao nosso lado!


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990