Não nos podemos queixar? Claro que podemos, até devemos

Actualmente, não se pode dizer que se está triste, desanimado, desiludido ou cansado. Dizem que não nos podemos queixar. Não nos podemos queixar?

Foto
Expressarmos o que sentimos permite-nos, também, identificar a necessidade de procura de ajuda Stefano Pollio/Unsplash

Existe uma crescente fadiga da pandemia, que atravessa continentes e que afecta, progressivamente, a população mundial. Vivemos tempos excepcionais. Existem pessoas, profissionais, que estão na linha da frente, a trabalhar ininterruptamente há muitos meses. Exaustos e a darem o melhor de si. Assistimos, diariamente, a situações de desespero, pessoas a perderem familiares sem poderem deles despedir-se (ou a fazerem-no de uma forma muito difícil de vir a ser integrada), a perderem os seus empregos, sem nada poderem fazer. São perdas tangíveis, observáveis.

Além das anteriores, ou a acrescentar às anteriores, existem sonhos que não se concretizam, existem expectativas frustradas, pessoas a fazer “lutos” de fases da vida – vistas por muitos como únicas e que não voltarão – de rotinas perdidas ou de vidas antigas. São perdas intangíveis, mais difíceis de concretizar.

A explicitação das perdas intangíveis e do seu impacto é, muitas vezes, evitada por quem delas sofre por, na perspectiva de muitos, não terem “valor”, comparativamente com outras.

Actualmente, não se pode dizer que se está triste, desanimado, desiludido ou cansado. Dizem que não nos podemos queixar. Não nos podemos queixar? Claro que podemos, até devemos.

São perdas que têm, isto é, devem, ser validadas e expressas. Não devemos mascarar o que estamos a sentir, numa procura incessante do “lado positivo” que, a certa altura, nos intoxica, pois não nos deixa vivenciar de forma honesta e profunda para, assim, podermos evoluir positivamente.

Expressarmos o que sentimos permite-nos, também, identificar a necessidade de procura de ajuda. Ao não serem validadas as nossas perdas, é-nos transmitido que não temos o direito de as sentir, ou que não faz sentido o que estamos a sentir e, portanto, deixa de ser necessária a ajuda profissional (refiro-me, neste caso, à psicológica).

De facto, nas últimas décadas e, especialmente, nos últimos anos, assistiu-se a um discurso muito enraizado em determinado tipo de pessoas, em pseudoprofissionais e em algum tipo de media que advogam quase a obrigatoriedade de se viver numa perspectiva positiva, neste constante vivenciar de emoções positivas, como se as negativas fossem algo “negativo”. É importante reter-se que viver-se nesta superficialidade conduz a uma certa toxicidade e, mesmo, perigo. Perigo, pois as emoções negativas são fundamentais para o nosso desenvolvimento, para se viver, assumindo estas, neste contexto, ainda maior relevância.

Sugerir correcção
Comentar