De bicicleta ou a pé, os justos não têm de pagar pelos pecadores

A cidade, admitamo-lo, é, como a sociedade, um sítio de pessoas imperfeitas. Não fosse assim, e nem precisaríamos de sistema judicial, ou de ministros da Justiça.

Foto
Nuno Ferreira Santos

Qualquer português interessado nas questões do urbanismo sustentável, concordará com Paula Teixeira da Cruz. As nossas cidades não dão o espaço devido aos peões. Também eu considero, como ela escreveu aqui no PÚBLICO, que o parco espaço que lhes é dedicado não devia ser disputado por bicicletas em velocidade – que seriam para mim, um caso de polícia. Mas ao contrário dela não vejo problema que esporadicamente esta possa ser uma zona de convívio (um pai que leva um filho a pedalar, porque não?), desde que o diferencial de velocidade entre estes e quem segue a pé seja mínimo. Não é isso que muitas vezes acontece, ambos sabemos. Eu aqui no Norte, ela em Lisboa onde, pelas suas palavras, parece que se vive em cicloditadura

O problema no artigo de Paula Teixeira da Cruz é que aborda um confito que urge, de facto, resolver, ao mesmo tempo que ataca parte da solução possível para esse problema: aquilo que ela verbera como a “ciclovização” da cidade, que, no limite, dará a Lisboa ou a outras urbes portuguesas que lhe queiram seguir os passos uns 10% de espaço público dedicado para bicicletas, é internacionalmente reconhecido como a forma mais eficaz de segregar tráfegos (desde logo a de peões e utilizadores de velocípedes), embora nunca consiga impedir que um qualquer irresponsável ou criminoso em duas rodas vá fazer corridas para os passeios. 

Citando Paula Teixeira da Cruz, “o problema, em suma, é mesmo a nossa cultura cívica ou a falta dela”. É verdade. Se nem os passeios, as passadeiras, os semáforos e outros obstáculos impedem distraídos ou trogloditas em quatro rodas de atropelarem peões, vamos atacar os ciclistas, pondo-os, a todos, no mesmo saco, mesmo que admitindo, de fugida, lá no fundo de um artigo de opinião, que a maioria é respeitadora?

Nas cidades que, na Europa, ganharam espaço para os peões, não consta que o tenham conseguido com qualquer ofensiva contra as bicicletas. Fizeram-no, sempre, resgatando o espaço público aos automóveis, dentro dos quais seguem condutores excelentes, normais e outros tão inconscientes e perigosos como essa parte dos ciclistas, trotinetistas e skaters que levaram Paula Teixeira da Cruz a manifestar-se, e muito bem, contra eles. A diferença é que estes carregam o peso do seu próprio corpo, da sua velocidade, e de uma máquina que, vá lá, pode pesar 16 quilos, o que é muitas vezes menos do que os 1600 kg a 50, 60, 70 km/h, a velocidade de muitos automóveis que andam na cidade e que mataram ou estiveram envolvidos na morte de 1397 pessoas que circulavam a pé, 80% delas dentro de localidades, entre 2010 e 2018, como escrevemos, neste mesmo jornal, a propósito do atropelamento bárbaro de uma jovem em Lisboa, em Julho. 

Podemos sempre escrever artigos sobre os peões irresponsáveis que se atiram para a estrada – há quem o faça! – ou, em alternativa, poderíamos seguir o exemplo da Holanda e da Espanha e acelerar para a redução da velocidade no espaço urbano, minimizando as consequências da irresponsabilidade de uns e de outros. Porque a cidade, admitamo-lo, é, como a sociedade, um sítio de pessoas imperfeitas. Não fosse assim, e nem precisaríamos de sistema judicial, ou de ministros da Justiça.

Portugal ainda continua a ser um dos piores países da Europa em sinistralidade no espaço urbano, mas, apesar de já começarem a surgir nas estatísticas algumas consequências, a maioria ligeiras, desta recente conflitualidade de peões/ciclistas, ela ainda é, felizmente, incipiente. Tenderá, contudo, a aumentar, se não fizermos nada. E como chegamos atrasados a este debate sobre a justiça na distribuição do espaço público – onde o mais frágil nunca foi beneficiado, infelizmente! – vamos bem a tempo de evitar algumas dores que o crescimento do modo ciclável, comum a centenas de cidades por esse mundo fora, sempre trará.

Não deveríamos é, como faz Paula Teixeira da Cruz, cair na contradição de elogiar a maioria dos ciclistas civilizados “por contribuírem para uma menor pegada carbónica e um mundo mais sustentável”, e, no mesmo artigo, atacar a alegada ciclovização de Lisboa como uma ameaça do politicamente correcto e tratar as reivindicações de mais espaço para velocípedes como um “ecologismo radical”. E se estamos de facto preocupados pelo quanto as bicicletas afectam a mobilidade dos velhinhos, das ambulâncias e afins – um argumento comum a todos os que não querem ciclovias – vamos lá parar de lançar anátemas sobre todo um grupo e lançar uma campanha para que a polícia e a sociedade deixem de fechar os olhos a isso e a quem estaciona dez metros quadrados de metal em cima do passeio ou em segunda fila. 

Como me dizia há dias um dinamarquês especialista nestas questões da mobilidade suave, neste debate, o melhor é não pôr a bicicleta contra o peão, porque aí quem ganha sempre é o carro. Será isto que queremos?