Manifesto-me sobre as bicicletas, trotinetas e afins

Qualquer espaço em que o peão supostamente teria os seus direitos garantidos é hoje sistematicamente devassado por novos hunos feitos déspotas do espaço urbano.

Já me não calo quando as bicicletas, trotinetas e afins atravessam impunemente as passadeiras de peões, saltam passeios, provocando receio e necessidade do próprio peão se pôr a salvo, isto quando consegue. Nada importa, os seus condutores sentem-se acima da lei, em plena zona de impunidade.

Qualquer espaço em que o peão supostamente teria os seus direitos garantidos – os passeios, as passadeiras... – é hoje sistematicamente devassado por novos hunos feitos déspotas do espaço urbano.

E se algum de nós, pobres mortais, nos atrevermos a chamar a atenção, a resposta mais simpática que podemos receber é se “somos polícias”, ou uma violenta “rosnadela”, quando não uma adjetivação vernácula que só pode indignar, isto quando a “condução” não se torna mais agressiva, em jeito de desafio ou mesmo confronto direto entre a máquina e o peão que ousou censurar o seu condutor.

Como é notório para quem circule a pé pela cidade, bicicletas e trotinetas caídas e espalhadas pelos passeios sem qualquer cuidado impedem os peões de se movimentarem adequadamente, como é seu direito. Basta olhar em redor.

Lá as dificuldades de mobilidade de doentes, idosos, invisuais, de carrinhos de crianças ou de qualquer um de nós, só para citar alguns exemplos, isso não interessa para nada. Os velocípedes contribuem para a melhoria climática e quem não souber isso é visto como um imbecil arrogante e um negacionista da ecologia radical.

Mesmo existindo ciclovias, pode crer, caro leitor, que o passeio ou a passadeira têm um encanto deveras especial para muitos condutores, perdão, para estes novos cavaleiros da economia verde.

Já tive a má oportunidade de presenciar encontrões que levam as pessoas a um suave e terno beijo no asfalto – pois claro – ante a passividade de tantos em socorrer quem foi alvo de agressões e que em regra são os mais frágeis. Aí, o valoroso cidadão, que tão especial e valente se sente, montado no seu cavalo branco ou em pé no mesmo, na posse da sua arma de agressão, sabe o que faz? Pois... foge.

Para os cidadãos agredidos ou não que assistem sem uma palavra aos atropelos que tenho descrito, vai o meu lamento, embora perceba o receio. Mas se nos calarmos todos... enfim, é a mobilidade “suave/agressiva” instalada.

Agora o que também não percebo é a atitude passiva e tantas vezes conivente das forças de segurança. Já me sucedeu solicitar a intervenção de autoridades, perante uma infração que decorria literalmente debaixo dos seus olhos e, apesar de o ciclista ter parado, mandaram-no seguir e interpelaram-me… a mim, uma vez que lhes competia a eles assegurar a ordem e não à minha humilde pessoa! Não vale a pena aborrecer ninguém sobre o diálogo que se seguiu, sobre ações, omissões e direitos dos cidadãos quando presenciam um delito, até à chegada das autoridades, que no caso estavam exatamente ali, mas que devem ter optado por um acto de mercê do alto da sua autoridade, porventura preocupadas em não perturbarem a marcha dos novos cavaleiros cobertos pelo que foi decretado como politicamente correto.

Tudo isto para não falar dos automobilistas – em especial ambulâncias e táxis –, que se deparam tantas vezes com os novos reis do espaço urbano que lhes levam os retrovisores ou lhes amachucam os carros.

E seguros de acidentes? Que coisa é essa? Código da Estrada? Ora essa... Identificação dos velocípedes? Não vale a pena.

A extrema “ciclovização” da cidade não prejudica só os peões, mas o conjunto do trânsito, de que nos permitimos destacar ambulâncias e transportes públicos.

Que fique bem claro: com os que vão descritos não se comparam os que usam bicicletas, trotinetas e afins – sim, que agora também vieram os patins – de forma serena e cívica. Esses sim, fazem parte da mobilidade suave, merecem a nossa simpatia e até admiração por contribuírem para uma menor pegada carbónica e um mundo mais sustentável.

O problema, em suma, é mesmo a nossa cultura cívica ou a falta dela.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico