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Antivacina, antiaborto, anti-Biden: as visões de Kanye West, candidato à Casa Branca

O músico diz que se candidata porque Deus lhe deu “a clareza para perceber que este é o momento certo”. Da remodelação da Casa Branca inspirada na cidade fictícia de Wakanda ao regresso das orações às escolas, passando pelo fim da brutalidade policial e de “todas as leis que não fazem sentido”, a lista de promessas do rapper é extensa.

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West, que quererá concorrer como independente apesar de já ter perdido o prazo para formalizar a candidatura em alguns estados, diz que faria a campanha como Republicano se Trump não estivesse na corrida pela reeleição MICHAEL REYNOLDS/lusa

No dia 4 de Julho, enquanto Donald Trump criticava a “nova extrema-esquerda fascista” que, diz, quer apagar a História da América, Kanye West incendiava as redes sociais anunciando a sua candidatura à Casa Branca nas eleições presidenciais deste ano. Muitos perguntaram até que ponto não haveria uma ironia escondida nos comentários do imprevisível rapper – que, avançou o site Politico pouco depois do anúncio, já perdeu o prazo para formalizar a candidatura em seis estados (Carolina do Norte, Indiana, Maine, Novo México, Nova Iorque e Texas) –, mas esta terça-feira, em conversas telefónicas de quatro horas com a Forbes, West deixou bem claro que tem os olhos firmemente postos na Presidência dos Estados Unidos.

Nessa extensa entrevista, o músico explica por que razão deixou de lado o seu plano inicial de concorrer apenas em 2024: “Deus deu-me a clareza para perceber que este é o momento certo.” A religião é, de resto, um tópico recorrente ao longo da conversa. West explica que, se for eleito, Michelle Tidball, uma pastora evangélica relativamente desconhecida do Wyoming que se descreve como uma “life coach bíblica”, será a sua vice-presidente. Frisa também que a cura para o novo coronavírus não chegará com a vacina que a comunidade científica está tão empenhada em desenvolver. “Tem tudo que ver com Deus. Temos de rezar pela nossa liberdade e de parar de fazer coisas que deixam Deus chateado.”

Quanto à pandemia, aliás, o artista também se desdobra em revelações. Confessa que esteve infectado com covid-19 em Fevereiro, explicando que, entre os “tremores na cama” com que se confrontou e os muitos “duches quentes” que tomou para tentar melhorar o seu quadro de saúde, a recuperação concretizou-se gradualmente, assistindo a vídeos que lhe “explicavam o que precisava de fazer” para recuperar. West não é fã de vacinas, descrevendo-as como “a marca da besta”: “Tantas das nossas crianças estão a ser vacinadas e paralisadas… Por isso, quando as pessoas dizem que vamos superar o coronavírus com uma vacina, tenho muitas reservas. Eles querem pôr chips dentro de nós, querem fazer todo o tipo de coisas connosco para que não consigamos atravessar os portões do paraíso. Peço desculpa quando digo ‘eles’, quero dizer ‘os humanos que têm o demónio dentro deles’.”

Kanye pretende que o seu slogan de campanha seja uma pequena adaptação da frase com que Barack Obama se candidatou à Casa Branca em 2008. Em vez de “Yes, we can”, West avançará com um simples “YES”. Não que se reveja no Partido Democrata, no entanto. O rapper sublinha que, se Trump não estivesse na corrida de Novembro, concorreria como republicano e não como independente (“Trump é o Presidente mais próximo que tivemos de deixar que Deus ainda faça parte da conversa”, argumenta). “Dizer que todos os negros têm de apoiar o Partido Democrata é uma forma de racismo e supremacia branca”, defende. “Este é o primeiro dia em que me registei para votar, porque eu tinha medo. As pessoas diziam-me que, se votasse no Trump, a minha carreira musical acabava.”

No que diz respeito às suas propostas políticas, West confessa que ainda não tem “todas as peças dentro do puzzle”. Adianta, por exemplo, que ainda não definiu uma posição concreta quanto à imigração, porque, primeiro, quer “proteger a América” com o seu “excelente” exército. Não se alonga em demasia sobre o tema do aborto, dizendo apenas que é pró-vida, porque está a “seguir a palavra da Bíblia”. Sabe que quer ter Elon Musk a coordenar o seu “programa espacial”, apesar de não desvendar aquilo que este contemplará, e sabe quem não quer ser: Joe Biden.

“O Obama é especial. O Trump é especial. Nós dizemos que o Kanye West é especial. A América precisa de pessoas especiais com qualidades de liderança. Clinton? Especial. O Joe Biden não é especial”, atira o rapper. “Isto vai ao encontro daquela discussão sobre todos os negros terem de ser do Partido Democrata. O Joe Biden disse que, se não votarmos nele, não somos negros. Vamos agir como se não tivéssemos ouvido aquilo? A todos os candidatos só tenho a dizer: saiam de cena graciosamente. Trump, Biden, saiam de cena graciosamente. Este país é o país de Deus, tudo o que estamos a fazer é em serviço de Deus.”

A lista de promessas de Kanye é extensa. Uma das prioridades é fazer com que as escolas do país voltem a incorporar a prática das orações religiosas no começo das aulas. Outra passa por operar uma pequena revolução na Liga Norte-americana de Basquetebol profissional (NBA) – que, depois da longa paragem motivada pela pandemia, deverá regressar a 31 de Julho, num formato especialmente confinado no complexo desportivo da Disneyworld –, alargando-a “da Nigéria a Nanchang [cidade chinesa]” para que “o mundo inteiro possa ver os melhores atletas ao vivo”. West quer também pôr um fim à brutalidade policial, asseverando que “os polícias também são pessoas” e que vai “acabar com todas as leis que não fazem sentido”.

O rapper explica ainda que tem pensado num modelo organizacional para a Casa Branca com base na nação fictícia de Wakanda, do filme Black Panther. “É uma ideia positiva: tens o Kanye West, um dos seres humanos mais poderosos – não digo o mais poderoso porque há muitos superpoderes alienígenas que só colectivamente podemos libertar. Vamos voltar a Wakanda… Quando o rei vai visitar aquele cientista e os sapatos se embrulham uns à volta dos outros… Só a quantidade de inovação que pode acontecer, os avanços na medicina que podemos conseguir… Vamos trabalhar e inovar juntos.”

Apesar de já ter perdido o prazo para formalizar a candidatura à Casa Branca em alguns estados, West espera que os constrangimentos levantados pela pandemia lhe permitam ter direito a uma excepção. O músico, que já foi um confesso admirador de Trump, rejeita veementemente a teoria de que está a querer infiltrar-se na campanha para desviar votos do Partido Democrata e facilitar a reeleição do actual Presidente. “Como em tudo o que já fiz na minha vida”, remata com confiança, “estou a entrar nisto para ganhar.”

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