Num 4 de Julho assombrado pela covid-19, Donald Trump instigou a divisão dos americanos

Num discurso em que ignorou a covid-19, Presidente atacou o que considera ser a “nova extrema-esquerda fascista”. “Trump, obviamente, não faz ideia do que palavras como fascismo ou totalitarismo significam”, respondeu o ex-embaixador Michael McFaul.

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Donald Trump e Melania Trump durante a cerimónio no Monte Rushmore Reuters/TOM BRENNER

Com centenas de celebrações canceladas devido à pandemia de covid-19 que alastra nos Estados Unidos, os norte-americanos celebraram o seu Dia de Independência com menos entusiasmo do que o normal, com as palavras inflamadas de Donald Trump na noite anterior a fazerem eco.

“A nossa nação está a testemunhar uma campanha implacável para apagar a nossa história, difamar os nossos heróis, apagar os nossos valores e doutrinar os nossos filhos”, afirmou na sexta-feira à noite o Presidente norte-americano, que, contrariando as recomendações das autoridades da saúde e os apelos da comunidade indígena, foi até ao Monte Rushmore, no Dacota do Sul, dar início às celebrações do Dia da Independência.

Numa altura em que o número de casos de coronavírus sobe a pique no país – um aumento de 90% nas últimas semanas, com vários estados a baterem recordes diários no número de infecções –, Trump fugiu ao tema, focando-se antes nos seus adversários políticos, debitando palavras de divisão e agitando a bandeira do medo.

“Multidões furiosas estão a tentar derrubar as estátuas dos nossos fundadores, desfigurar os nossos monumentos mais sagrados e desencadear uma onda de crimes violentos nas nossas cidades”, afirmou Trump, referindo-se à remoção de estátuas e de símbolos confederados e aos protestos anti-racismo do movimento Black Lives Matter que se espalharam pelo país após a morte de George Floyd, sufocado até à morte por um polícia branco.

Para Trump, os manifestantes que, sobretudo desde a morte do afro-americano, têm protestado contra o racismo no país e questionado os símbolos coloniais dos Estados Unidos, fazem parte de uma “revolução cultural” da “nova extrema-esquerda fascista”, que quer apagar a história da América.

Por isso mesmo, o Presidente, que este sábado participou numa celebração nos jardins da Casa Branca, anunciou que será criado um jardim para homenagear os “heróis americanos” até 2026, num local a definir, onde serão erigidas estátuas.

Críticas ao discurso

Michael McFaul, embaixador norte-americano na Rússia durante o mandato de Barack Obama, classificou as palavras de Trump como o “discurso mais anti-americano alguma fez feito por um Presidente americano”. “Trump, obviamente, não faz ideia do que palavras como fascismo ou totalitarismo significam”, escreveu o ex-embaixador no Twitter.  

Na imprensa americana, o discurso de Trump foi recebido com críticas. A colunista Robin Givhan, vencedora do prémio Pulitzer, escreveu no Washington Post que Trump “vendeu a sua ficção” com palavras de “ignorância intencional e medo deliberado”. “O Monte Rushmore é dolorosamente complexo, mas o Presidente não é um homem de complexidade”, afirmou a jornalista.

Construído em terras indígenas, o monumento, que homenageia quatro ex-presidentes, é visto por algumas tribos que habitam aquele estado norte-americano como um símbolo do colonialismo, daí que muitos indígenas não celebrem a data. Os apelos para que Trump cancelasse a visita ao Dacota do Sul foram em vão e, no final do discurso, onde estiveram presentes 7500 pessoas, a maioria sem máscara e sem respeitar o distanciamento social, houve fogo-de-artifício, a primeira vez nos últimos 11 anos.

Numa referência à cerimónia da noite anterior, o candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de Novembro, Joe Biden escreveu no Twitter que “neste 4 de Julho, um dos actos mais patrióticos que se pode ter é utilizar uma máscara”.

O ex-vice de Obama escreveu ainda um artigo de opinião para a NBC News com fortes críticas ao Presidente norte-americano. “Todos os dias, ele [Trump] encontra novas formas de manchar e desmantelar a nossa democracia – desde ataques infundados aos nossos direitos de voto ao uso de força militar contra americanos que protestam pacificamente por justiça racial”, afirmou Biden.

No mesmo texto, Biden, que lidera as sondagens com uma vantagem superior a dez pontos, apresentou-se como o candidato que poderá mudar o rumo do país nas eleições presidenciais que se realizam daqui a quatro meses. “As eleições de Novembro decidirão se deixamos a casa da democracia em decomposição ou se nos juntamos como nação para reconstruí-la, mais forte e alta do que nunca”, rematou.

Trump desvaloriza covid-19

Depois de ter ignorado a covid-19 no discurso no Monte Rushmore, o Chefe de Estado americano gravou um vídeo em que voltou a culpar a China pela disseminação do vírus e gabou-se do trabalho que tem feito na recuperação económica do país.

“Estávamos melhor do que qualquer outro país na história, mas depois fomos atingidos por essa terrível praga da China, da qual estamos quase a sair”, afirmou Trump, apesar de o número de infecções continuar a subir em 37 estados norte-americanos e de, na sexta-feira, só a Florida ter registado 11.458 novos casos.

Apesar das provas em contrário, Trump garantiu que o país “está a recuperar e que os números do emprego são espectaculares”. “Estamos no caminho para uma tremenda vitória. O nosso país será maior do que alguma foi”, afirmou.

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