Editorial

O pesadelo de uma TAP nacionalizada

Na TAP, o Governo esticou a corda, as suas exigências revelaram mais um carácter de imposição do que uma abertura negocial e, como prémio, vai obter uma vitória de Pirro.

A solução para a TAP continua a desenrolar-se na turbulência, mas o destino da companhia e as negociações entre o Estado e os privados hão-de decidir-se, como já aqui escrevemos, pela aplicação da lei do mais forte. Mais milhão, menos milhão, David Neeleman acabará fora da estrutura accionista; com mais ou menos jogos de cintura, Humberto Pedrosa continuará para provar ao mundo que a TAP não é uma empresa pública; com mais dez ou menos dez por cento do capital, o Estado acabará por mandar na companhia. E é aqui que a situação se vai complicar. No meio de uma crise terrível como a que vivemos, o Governo ficar no comando de uma empresa falida e sujeita a uma reestruturação dolorosa é meio caminho andado para o desastre.

Não está agora em discussão a estratégia que o Governo deve seguir depois de os privados, leia-se David Neeleman, terem recusado o seu caderno de encargos. Como disse, e bem, o ministro Pedro Nuno Santos, o Estado não podia ceder às pressões dos privados em matérias como a transformação de créditos em capital caso a TAP não pagasse o empréstimo, no reforço do seu poder no conselho executivo ou na exigência de que os empréstimos feitos pelos accionistas privados fossem transformados em capital. Mas se estes pomos da discórdia tornaram a saída de Neeleman inevitável, não é claro que o desfecho tivesse de ser este. O Governo esticou a corda, as suas exigências revelaram mais um carácter de imposição do que uma abertura negocial e, como prémio, vai obter uma vitória de Pirro.

Mesmo que Humberto Pedrosa sirva como peninha no chapéu para mostrar a natureza privada da TAP, o dono da companhia será o Estado – mesmo que por interposto gestor privado, como no tempo de Fernando Pinto. Por imposição europeia, o Governo vai ter de dar a cara por despedimentos, venda de aviões, renúncia a slots, desistência de rotas e outras medidas dolorosas. Vai ter de o fazer perante a pressão de sindicatos, o desconforto dos cidadãos e a pressão dos partidos da esquerda que apoiam o Governo. E mesmo que a gestão nomeada pelo Estado seja um primor de competência, nada garante que 1200 milhões sejam suficientes para acudir aos problemas.

Não vai ser bonito de se ver. A TAP, que é há décadas uma ferida aberta na vida do país, está a caminho de se transformar numa pústula. Estamos de acordo que, do ponto de vista estratégico, nos faz falta. Saberemos um dia se essa necessidade justificou o sacrifício político e económico que vamos ter de pagar por essa visão.  

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