CARTAS DE MÃE E FILHA EM TEMPOS DE QUARENTENA

Dia 24: Pais, esse porto seguro onde as crianças largam as suas angústias

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, separadas pela quarentena, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Filha,

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Fiquei a pensar na carta em que me falas de crianças que mostram um lado de si na escola, e outro em casa. Eu era dessas, em pequenina. Portava-me tão bem, tão bem, fora de casa, era tão prestável e bem-educada que a minha mãe não me reconhecia nos elogios rasgados que me faziam. Já dentro de portas, o meu humor oscilava como um pêndulo, do muito feliz ao terrivelmente infeliz, das gargalhadas às lágrimas desesperadas, e fazia imensas birras. Nos momentos bons, era incansável a ajudar em tudo, mas depois a frustração das minhas expectativas (sempre tão altas) transformava-me. Mas, sabes, custava-me imenso quando a minha mãe não me “reconhecia” na criança encantadora que os outros elogiavam, embora ela sempre dissesse que mais valia que fosse bem-educada lá fora — suponho que pelo menos a honra do convento ficava salva!

Agora que me deitei no divã do psicanalista, podes fazer-me um diagnóstico e dizer-me se os meus sintomas correspondem ao da chamada “criança explosiva”? Ou as crianças explosivas explodem em qualquer contexto? Fico ansiosamente à espera.


Querida Mãe,

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Tenho a certeza de que a avó a reconhecia nessa criança mais “fácil”, provavelmente só tinha pena de não a ver mais vezes!

Acho que os pais têm sempre o “azar” de ser o porto mais seguro dos filhos, onde as crianças largam todas as pequenas angústias, medos e vergonhas que sentiram durante o dia. Onde podem deixar cair a “face social”. Mas, o que me parece um erro é pensar que uma dessas faces é mais verdadeira do que a outra, ou, pior ainda, que uma é melhor do que outra (coisa que, já que se deitou no meu divã, é uma ideia com a qual a mãe pode ter ficado!). Por exemplo, a “diabolização” ou “culpabilização” da agressividade, da tristeza, do silêncio pode levar-nos a acreditar que temos de estar sempre queridos, bem-dispostos e alegres perante os outros e, às vezes, até em casa (pediu psicologia barata, não foi? Aqui a tem!).

A sério, mãe, repare, mesmo o “estar fora de casa” tem muitas variáveis: não é o mesmo estar com a avó ou estar na escola. Não é igual, passear com um tio ou com o outro. Todos os lugares/pessoas têm as suas especificidades, mas há miúdos que estão mais à vontade em qualquer situação e outros, pelo seu temperamento mais tímido, perfeccionista, ou por sentirem mais necessidade de agradar, acabam por, em público, disfarçar as suas vulnerabilidades. Esses, quando chegam a casa, têm de processar o que viveram, têm de descomprimir, e isso implica, muitas vezes, explodir!

Agora, se a mãe era/é explosiva? Bem, o Dr. Ross Greene, um terapeuta norte-americano de que gosto muito, diz que todos, crianças e adultos, o somos. Quando as circunstâncias ultrapassam a nossa capacidade para as gerir, explode-se. A diferença, diz ele, é na forma como se explode. Algumas têm “sorte” e choram. É fácil sentir empatia por uma criança que chora e é quase instintivo o nosso desejo de a consolar e ajudar a superar o problema, mas há muitas outras que não o conseguem fazer. Dessas, algumas gritam, outras guincham, dizem palavrões (que até aceitamos em adultos, mas não nas crianças), atiram coisas, e ainda existem aquelas que batem em si próprias ou nos outros, manifestações de desespero muito mais difíceis de aceitar. Mas que são igualmente uma forma de comunicar que não estão a aguentar!

Se percebermos essas explosões como sintoma desse desespero, teremos muito mais facilidade em lidar com elas. E em conseguir ir buscar paciência e empatia onde parece já não existir nenhuma; a empatia que teríamos se a víssemos a soluçar. Por experiência, já aprendi que sendo eficaz, é um exercício brutalmente difícil.

Love you, my explosive Mummy.


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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