Joana perdeu o irmão e o marido: “Queria despedir-me, mas não podia”

Os familiares morreram vítimas de covid-19 e o luto está a ser muito difícil para a farmacêutica.

Foto
LUSA/MIGUEL A. LOPES

Em poucos dias, Joana (nome fictício) perdeu o irmão e o marido, vítimas de covid-19. “Queria despedir-me deles, mas não podia”, desabafa a farmacêutica, ao telefone com o PÚBLICO. O irmão estava no Algarve e o marido acabou por morrer depois de ter sido internado, na região do Porto. “Sei que fiz tudo o que estava ao meu alcance para o ver, abraçar e acarinhar”, lamenta.

Quando Joana, de 55 anos, atende o telefone, começa por dizer, voz pausada: “É horrível fazer o luto sem me ter despedido do meu marido e do meu irmão. Não tenho culpa de não o ter feito, mas vou ficar com esse vazio e mágoa para sempre, além de revoltada com essa coisa chamada covid-19 que nos está a condicionar a vida.” É esta doença que a obriga a estar só: “Estou a sofrer sozinha. Sinto falta de um abraço.” Para enganar a solidão telefona ou faz videochamadas. “Cada um tem de chorar sozinho, no seu canto, mas eu gostava de abraçar a minha cunhada que está a passar pelo mesmo que eu, porque também perdeu o marido, de nos consolarmos e apoiarmos uma à outra”, prossegue, a chorar a partir da casa de familiares para onde foi fazer o luto sozinha, porque não consegue voltar à sua casa onde estão as recordações de 12 anos de casamento. 

Do outro lado da linha faz-se silêncio. É difícil para Joana descrever a forma como está a viver o luto. “O meu irmão, de 58 anos, foi a segunda vítima mortal do Algarve que tanto se noticiava”, a 27 de Março, explica. Era professor e teve uma reunião, na escola, com uma colega que veio de Itália e não sabia que tinha contraído a doença. O irmão e mulher fizeram a quarentena. Ele acusou covid-19, ela não. “Só que, no último dia de quarentena, teve picos de febre alta, foi internado de urgência e teve uma paragem cardíaca”, não resistindo, conta Joana, acrescentando que “a cunhada ainda o viu através do vidro quando ele estava internado nos cuidados intensivos”. Foi depois cremado e as cinzas enterradas na sepultura da família, no norte do país.

Já o marido de Joana, 58 anos, foi internado, no norte do país, não com covid-19, mas por doença hepática, acabando por morrer vítima da primeira, no hospital. “No segundo dia de internamento, já não me deixaram vê-lo, não eram permitidas visitas por causa do coronovírus.” Mais; desabafa: “Estive nove dias sem o abraçar, sem estar com ele”, mas os médicos foram de um “conforto extremo” pois telefonavam, diariamente, a dar notícias do estado do marido e chegaram a pô-los em contacto através de videochamada.

O marido foi transferido para os cuidados intermédios, mas sofreu uma queda e teve de fazer um exame. “Deve ter sido, nessa altura, que foi infectado com coronovírus, porque depois já tinha febres altas, pneumonia e o exame à covid-19 acusou positivo”, conta. A farmacêutica lamenta não ter estado com o marido na hora da morte. “Morreu sozinho, no quarto do hospital, não me despedi, nem sequer o pude beijar quando foi a cremar porque o caixão estava fechado”, desabafa a chorar. O que a conforta é saber, através de uma médica, que o marido não sofreu. “Mas faz-me tanta falta tê-lo visto ao vivo”, soluça.

Ainda acompanhou a urna até ao crematório de Matosinhos e conseguiu colocar umas flores no caixão fechado. “Levei depois o pote de cinzas que foi a sepultar na campa do pai dele”, conta, sublinhando que não houve qualquer cerimónia fúnebre. “Só o tempo vai atenuar a dor deste pesadelo que estamos a viver, mas vai marcar-nos para sempre”, resume. O que a sossegou um pouco foi, há dias, ter assistido, através de YouTube, à celebração da missa de sétimo dia dos dois familiares. Joana despede-se, ao telefone, com o desejo de um abraço forte, já que o físico, de que “tanto precisa”, não é possível dá-lo, volta a lamentar.