Acreditem que tudo fazemos para os salvar

Nesta fase triste, é bonito que se veja que todas as pessoas são iguais perante o acesso à saúde e, orgulhosamente, tomamos as decisões baseadas apenas e só no valor da vida humana.

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Enfermeira nos cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa LUSA/MÁRIO CRUZ

Há um momento de pânico. O momento de ajuste à velocidade estonteante com que tudo muda à nossa volta. Ler e responder a 150 e-mails por dia, reaprender os circuitos dos doentes, fazer protocolos, ler os novos protocolos que saem ao minuto, estudar e preparar formações nas horas que sobram entre as toneladas de horas a trabalhar no hospital.

Permito-me não atender o telefone a quase ninguém que não seja sobre trabalho. Por vezes acordo a meio da noite com ansiedade, a pensar sobre as diferentes estratégias de como ventilar estes doentes e vêm-me as lágrimas aos olhos pelos doentes que não conseguimos salvar e por aqueles cuja vida está por um fio. Acreditem que tudo fazemos para os salvar.

Vejo no meu hospital e nos que conheço à minha volta, equipas altamente treinadas, organizadas, competentes e muito humanas, a suar literalmente litros de trabalho para que os números que vemos no telejornal parem de aumentar.

A doença é muito traiçoeira. É imprevisível, confunde as mentes brilhantes da medicina, quando chega à gravidade dos doentes que vemos nos Cuidados Intensivos. Mas o que já é uma certeza é a solidariedade das equipas de profissionais de saúde. É aqui que encontramos a calma.

Mais do que nunca percebemos que todos os papéis são cruciais e insubstituíveis. Cada vez mais se torna evidente que estamos todos em pé de igualdade no que à importância do exercício do seu papel para que a máquina funcione. É este o foco. Cada um é uma peça neste motor gigante, que se chama Serviço Nacional de Saúde, que zela por todos nós. Todos nós.

Nesta fase triste, é bonito que se veja que todas as pessoas são iguais perante o acesso à saúde e, orgulhosamente, tomamos as decisões baseadas apenas e só no valor da vida humana, e não no dinheiro no bolso ou no estrato social.

Não há nada mais bonito e mais importante para a coesão de uma sociedade do que a igualdade e equidade no acesso à saúde, ao ensino e à justiça. E se queremos bater no peito quando cantamos o hino, é altura de mostrar o nosso carácter.

Este é o maior desafio das nossas vidas, e só vamos superar se transportarmos esta igualdade e equidade para fora dos hospitais de norte a sul, este a oeste do nosso país, com olhos num mundo global onde só haverá sustentabilidade se houver igualdade! Do pânico passemos ao foco. Cada um no seu papel.

Abram os vossos corações. Mostremos carácter!