As 29 palavras do Banco do Japão que reanimam as bolsas mundiais

Londres subia quase 3% após a abertura e mercados asiáticos regressaram aos ganhos, depois de promessas de dinheiro fresco para lidar com as consequências do coronavírus .

Haruhiko Kuroda
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Haruhiko Kuroda, governador do banco central do Japão LUSA/NOUFAL IBRAHIM

Numa rara intervenção “de emergência”, o Banco do Japão emitiu nesta segunda-feira um comunicado em que promete fazer o que for preciso para ajudar os mercados financeiros a recuperar confiança e estabilidade e a lidar com as consequências do coronavírus. O petróleo continua com preços a níveis de 2018, cenário que pressiona produtores como a Rússia, onde o efeito dos preços baixos pode comprometer metas orçamentais e a estabilidade económica. 

Num comunicado que, na versão inglesa, tem apenas dois parágrafos, seis linhas, 55 palavras ou 375 caracteres, o governador do banco central do Japão forneceu uma espécie de bálsamo às praças financeiras que, neste início de semana, inverteram a tendência negativa dos principais índices bolsistas.

No primeiro parágrafo, os responsáveis nipónicos constatam que os “mercados financeiros globais têm vivido em instabilidade por causa das incertezas sobre o impacto na actividade económica do contágio do novo coronavírus”. Depois, segue-se o mais importante. São apenas 29 palavras: “O Banco do Japão vai acompanhar com atenção a evolução futura, e fará o que for preciso para providenciar ampla liquidez e assegurar estabilidade nos mercados financeiros através de operações de mercado adequadas e compra de activos.” Segundo analistas, terão sido suficientes para sossegar muitos investidores com esta promessa de dinheiro fresco.

Visto a partir da Europa, e descontadas todas as diferenças de contexto, a declaração do governador do Banco do Japão faz lembrar a crucial intervenção do ex-líder do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que com uma frase salvou o euro. Porque tal como Draghi travou, em 2012, o vendaval que agitava os mercados na gravosa crise das dívidas soberanas, desta vez é o governador Haruhiko Kuroda quem parece ter acertado na frase que travou por agora a tempestade que, na semana passada, afundou as bolsas mundiais na maior desvalorização desde a crise financeira global de 2008.

As praças asiáticas foram as primeiras a reagir ao comunicado emitido a partir de Tóquio. Xangai e Hong Kong fecharam a recuperar quase 3% e 1%, respectivamente, e o índice Nikkei, no Japão, também fechou a ganhar 0,95% face à cotação de fecho na sexta-feira. 

Na Europa, a semana também começa com sinais positivos. Londres abriu a ganhar quase 3% (avançava 1,84% às 10h); Frankfurt acompanhava a mesma tendência, tal como Lisboa, onde o PSI subia 1,24% à mesma hora. Apenas Paris destoava do panorama geral, segundo em perda (-2,61%). O Eurogrupo, presidido pelo ministro português Mário Centeno, reúne-se na quarta-feira, 4 de Março, por teleconferência para “coordenar as respostas nacionais” à epidemia do novo coronavírus.

As declarações do Japão e também da Reserva Federal dos EUA, que já na sexta-feira tinha assumido publicamente um compromisso semelhante ao que agora foi feito pelo regulador japonês, injectou nos investidores a esperança de que os bancos centrais vão ajudar a limitar os prejuízos económicos e financeiros decorrentes da epidemia do novo coronavírus, cujos impactos se estendem a praticamente todos os sectores.

Na China, considerada a “fábrica do mundo”, o Purchasing Managers’ Index (PMI), que se baseia na resposta de cerca de 3000 empresas sobre encomendas, produção e emprego, caiu para o nível mais baixo desde que há registo. O cenário mais temido é o de uma recessão económica mundial.

 Nos transportes, a aviação parece estar a ser duramente atingida. Grupos como a KLM-AirFrance e empresas como Ryanair e easyJet mudaram as perspectivas de evolução do negócio e alertaram investidores para eventuais perdas.

O mercado dos produtos petrolíferos está a braços com uma quebra de preços que pode arrastar países como a Rússia. O barril de Brent fechou sexta-feira a valer 50,52 dólares, fixando-se no valor mais baixo desde 2018. Nesta segunda-feira, estava a recuperar ligeiramente, custando 50,85 dólares (às 9h45).