Opinião

Ninguém quer morrer, o que não se quer é viver assim!

Ninguém quer deixar de existir, de viver, de amar e ser amado, de sentir o sol, o vento, a vida à sua volta. Disso não duvidamos. Mas sabemos que, na vida, existem situações, doenças, acontecimentos, que nos fazem desejar morrer.

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Marcelo Leal/Unsplash

Voltamos a ter sobre os ombros o peso da discussão, em Assembleia da Republica, da despenalização da eutanásia, ou seja, da morte a pedido. Pretende-se aprovar uma alteração ao Código Penal que permita matar ou fornecer os meios para que alguém doente, em desespero, se suicide.

E digo desespero, porque ninguém quer morrer. Ninguém quer deixar de existir, de viver, de amar e ser amado, de sentir o sol, o vento, a vida à sua volta. Disso não duvidamos. Mas sabemos que, na vida, existem situações, doenças, acontecimentos, que nos fazem desejar morrer. Desejar morrer porque assim não conseguimos viver. 

“Assim não aguento a vida!”. Não por ser vida, mas por ser pesada e difícil de viver. Por isso, todo o pedido para morrer é um grito de socorro. De socorro porque preciso dos outros, porque sozinho não consigo mais, sozinho não faz sentido viver, e socorro porque tenho imensa dificuldade em aceitar que preciso dos outros.

Até há pouco tempo, o percurso de fim de vida estava ligado à dor e ao sofrimento intensos. Agora, felizmente, a capacidade de suavizar a dor e de cuidar do sofrimento é uma realidade. Dá trabalho? Sim, dá. Necessita de meios que custam dinheiro? Sim, necessita. Precisa de pessoal de saúde especializado? Sim, precisa. E então, vale a pena? Sim, vale sempre a pena. Porquê?

Porque quando confrontados com o fim de vida, nosso ou de alguém que nos é muito querido, percebemos como, ao longo da vida, andamos empurrados e agitados, de tal forma que o mais importante ainda está por fazer. Não tivemos tempo de amar o outro como gostaríamos, de dizer o que sabemos que gostaria de ouvir, de estar ao seu lado, de o conhecer melhor, de nos sentirmos necessários, úteis, insubstituíveis, de nos sentirmos presentes.

É perante a certeza da morte que passamos a ter espaço para nos humanizarmos.

A morte não é suave, é um percurso sério. Mas a morte deliberada, programada, essa sim não é nada suave. Não se morre em dois minutos sem sentir nada. Quando se antecipa a morte todo o nosso corpo luta, reage, defende-se, angustia-se e demora. Quando se respeita o momento de morrer todo o nosso corpo assume que não consegue mais viver e vai-se desligando aos poucos, de cada vez. Vai até ao fim da sua reserva de vida e descansa, por fim, em paz.

Perante a morte marcada, planeada irá ficar para sempre a dúvida de quem esteve perto: Foi melhor assim? Será que sofreu menos? Porque decidiu ou decidimos que assim fosse?

Não sejamos românticos! A morte é sempre forte e dura, mas a morte provocada é duma violência atroz.

Que sociedade seremos se nos for permitido matar? A eutanásia nunca será um bem.

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