Porto

Manna: Cuidar do corpo, da mente e do ambiente

Sara e Hélder mudaram de vida – porque o consumo e o imediatismo estavam a corroê-los. Pensaram um espaço de restauração cujo pilar é o ioga. “É aquilo que nutre.”

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Acaba de chegar uma cesta de legumes biológicos e alguém nos serve uma infusão de kukicha. Nas traseiras, na estufa envidraçada, Hui Xiang conduz a aula de Cosmic Flow quase ao ritmo dos pingos grossos de chuva que se fundem com asanas. Já pairam os aromas do almoço na cozinha aberta liderada pela chef Adriana Andrade — do puré de batata-doce, do grão-de-bico e dos cogumelos salteados, das couves verdes marinadas, do pickle de lima e molho verde. Não existe um dilema de causalidade. “O ioga apareceu antes da restauração”, diz Sara. “Nasce primeiro. É o pilar”, reforça Hélder.

O espaço híbrido está exactamente onde até há pouco tempo um dos últimos alfaiates da Baixa do Porto contornava moldes de cartão com a tesoura e calculava tecidos com o metro de madeira. Mantém-se de alguma forma a serenidade e a moderação, o valor das matérias-primas, os cálculos para evitar desperdícios, o tento e refreio. Chama-se Manna. “É aquilo que nutre. Corpo, mente e ambiente”. Na base da comida que se pratica na cozinha (e na sala que dá para a Rua da Conceição) estão os princípios do ioga, que se pratica nos fundos.

“Parte da definição da carta começa naquilo que a natureza está a dar”, explica Hélder, que pede especificamente aos diferentes fornecedores que digam o que há em excedente. “Ficamos todos a ganhar. Queremos respeitar o ciclo natural das coisas”, junta Sara. Parceiros locais, orgânicos e responsáveis, que trabalham no e com o tempo certo, dizem. Só há um ingrediente indispensável, o ioga, “popularmente conhecido mais pelas posturas físicas (asanas), mas com oito pilares que vão muito para além disso”.

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É esta filosofia, aliás, a grande responsável pela mudança de vida de Sara Sá e de Hélder Miranda, até há relativamente pouco tempo respectivamente coordenadora de departamento numa agência de comunicação e director de marketing de uma empresa de informática. Às tantas, puseram em causa as vidas profissionais “de estímulo ao consumo puro e duro”, admite Hélder, ansioso por retomar outra missão, a de bombeiro voluntário. “Como profissionais éramos assim. Como pessoas acontecia precisamente o contrário”, diz. “Sentíamos que vivíamos de uma forma que não era a que queríamos para nós”, lembra Sara.

“Sentíamos dois caminhos opostos. Nós queríamos ir num caminho e como profissionais havia um outro que nos puxava. Começámos a ganhar alguma consciência de que há, entre aspas, um excesso de tudo (de consumo, de desperdício) e de que cada um de nós tem uma pegada enorme”, continua Sara. Muitas coisas começaram a não fazer sentido, completa Hélder. “Começava a não fazer sentido não haver tempo para saborear uma refeição e depois estarmos duas e três horas nas redes sociais. Ou ver televisão. Há muito que já não existia televisão na nossa casa. A questão do tempo, que é algo tão importante, estava a ser descurada. Estava a ser colocado tempo onde não devia. E onde devia, não estava a ser colocado tempo. Sentíamos o imediatismo. Os resultados tinham que ser imediatos. Tudo tinha que ser imediato. O imediatismo estava a corroer-nos por dentro.”

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Terão sentido “o chamamento” na primeira vez que foram a Bali, onde, dizem, “se cultiva o bem-estar de uma forma integral”. Desenvolveram “a consciência como um todo” – aquilo a que se refere Sara quando fala do “princípio da não violência: a ti próprio, ao próximo e ao mundo”. E voltaram à ilha da Indonésia pouco antes da conversa definitiva com os respectivos superiores hierárquicos. “Estivemos para ir viver para lá”. Deram “uma hipótese” ao Porto.

O menu do Manna – por curiosidade, maná era também o alimento bíblico produzido milagrosamente distribuído por Deus ao povo israelita para atravessar o deserto rumo à terra prometida – é curto “para minimizar desperdícios”, local, sazonal, orgânico e naturalmente vegetariano (sensivelmente metade da ementa é vegan). A cozinha não faz jantares e não funciona à quarta-feira. O estúdio de ioga sim. Cozinha-se “da forma mais natural possível” e “sem utilizar processados”. “Dentro dos possíveis” aqui se cozinha o que aqui se consome (como o grão-de-bico, demolhado e cozido com kombu), privilegiando-se uma série de técnicas ancestrais de preservação dos alimentos que deixaram de se usar e que mantêm a sua integridade nutricional. Usa-se muito a fermentação ("não só do pão” de fermentação lenta, uma técnica aperfeiçoada pela letã Aija Repsa no Época). Kimchi, chucrute, kombucha... “Temos um minilaboratório de fermentação”, aponta Hélder, com uma secção específica na biblioteca, que qualquer pessoa pode usar.

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“Um alimento que só dá entre Outubro e Janeiro pode ser um bom apontamento em Junho. Então como é que o temos sem agredir a natureza mandando-o vir do outro lado do mundo? Conservando-o. Conservando o de cá.” Por essas e por outras é que “muito dificilmente” vão ver no Manna uma tosta de abacate. “Porque o abacate em Portugal tem uma produção residual e mandar vir do outro lado do mundo não faz sentido nenhum. Causa um impacto enorme para satisfazer uma moda.”

Quem pensa o Manna, que é amigos dos animais – por isso, eles são bem-vindos –, quer um espaço “que não ceda nem a modas nem à pressão económica de ter que ter uma elevada rotação de pessoas”. “Queremos um espaço que vá ao encontro do que faltava na nossa vida”, define Sara, rodeada de pequenas partes que fazem o todo. As peças de mobiliário da Boa Safra (madeira de acácia, espécie invasora), as loiças artesanais do ceramista João Abreu Valente, os talheres da vimaranense Herdmar, os guardanapos da Bicla, projecto de Cláudia Alemão, uma biblioteca espiritual, uma sala de meditação, um espaço em aberto que será uma horta de aromáticas, compostagem e vermicompostagem e até o design das letras “Manna” (da responsabilidade de Miguel Moreira, da Ofício) pintadas à espátula na montra. “O nome do espaço esteve para ser Ahimsa” [um princípio ético-religioso que consiste em não cometer violência contra outros seres], revelam.

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Cássia na estufa, que é um estúdio de ioga

Gradualmente, o Manna vai aumentando o número de aulas de ioga do seu calendário até que o estúdio funcione em simultâneo com o espaço de gastronomia. Cássia Rodrigues, 33 anos, dois deles passados na Índia, é professora e curadora de um grupo que conta com Hui Xiang (Cosmic Flow e Power Yoga), Filipe Garcia (Atma Yoga) e Mariana Curia (Yoga Flow) – espera-se para breve a integração de Vanessa José Vanniyama e Sérgio Ramos. “O ioga não é uma hora de prática, é um estilo de vida”, resume Cássia. “É a união entre o corpo e o espírito, um alinhamento de energias. Adapta-se à nossa vida com benefícios incríveis.”

Quando decidiram mudar de vida, Hélder e Sara venderam tudo. Venderam mais de 400 livros de marketing. A “última fornada”, conta Hélder, foi trocada por um banco de madeira artesanal que está dentro do balcão “a estorvar”. “Soube bem. Aquele banco significa outra etapa. Esta nossa vida vai ficar para trás.”

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