Chumbar ou não até ao 9.º ano: a escola no país das maravilhas

Sustentar esta medida – não se reprovar até ao 9.º ano – é dar azo ao laxismo. Nada disto tem que ver com políticas de esquerda ou de direita. Tem que ver com bom senso.

Em inícios de Novembro anunciava-se mais uma medida extraordinária da tutela da Educação, ancorada nas decisões do Conselho Nacional de Educação. Não mais a retenção de alunos até ao 9.º ano. Como? Com a velha e sempre nova solução das “estratégias pedagógicas” que, a bem da escola e das famílias, pode fazer o milagre educativo: quem não estuda nada, quem jamais se esforça por aprender, pode agora seguir – como se tivesse via verde – incólume até ao 9.º ano.

Ao discurso de um sistema educativo feito para “o rigor e a excelência” sucede agora o discurso bem-comportado, socialista (dirão alguns), humanista (dirão outros) do “passe agora e aprenda depois”. A meu ver, a questão da reprovação até ao 9.º ano é importante, uma vez que se trata de legitimar (ou não) as aprendizagens e os programas em curso. Há uma incongruência básica: não se pode falar em “rigor e excelência” na escola portuguesa quando, no limite, os nossos alunos, sejam eles esforçados ou não, têm garantida a aprovação em todos os ciclos até ao 9.º ano. Por outro lado, como considera Jorge Ascenção, da Confap (Confederação Nacional das Associações de Pais), este problema – chumbar ou não chumbar – merece ser debatido a partir de outros ângulos. 

Nas escolas – e só não sabe isto quem não lecciona nos 2.º e 3.º ciclos e secundário, seja no privado ou no ensino público –, o quotidiano dos professores é infernal e próximo da indigência. Alunos asneirentos, salas de professores onde reina a banalidade, excitação permanente dos instintos, gritaria, algazarra... A liberdade! Os senhores ministros, os especialistas do CNE, os decisores políticos e, não raro, os fazedores de pareceres que leccionam no Superior, não têm noção nenhuma do que se vive nas escolas, hoje. Os casos de violência multiplicam-se, normalmente com os alunos a instaurarem um verdadeiro clima de terror em muitas salas de aula.

A questão é económica, de facto, uma vez que, sendo a classe docente tão mal paga, os efeitos culturais dessa situação agravam o dia-a-dia escolar. Como? Professores deslocados da sua área de residência, tendo de pagar alojamentos caríssimos ou a humilharem-se com o aluguer de quartos onde depositam o pouco que trazem consigo (um resto de ideal, uns poucos euros para nada... talvez para despesas de transportes); professores com progressões congeladas e que, face a vários gastos, não podem comprar livros, frequentar museus ou ir ao cinema (como se pode dar aulas vivas e interessantes se a cultura letrada não faz parte da existência docente?); professores esmagados por um sem-número de reuniões muitas vezes inúteis em torno de decretos-lei, de decisões emanadas dos gabinetes do ministério e que nada têm que ver com as necessidades de docentes e discentes; professores esmagados pela extensão dos programas, necessariamente dados à pressa, mascarando com fichas superficiais o que, em teoria, nasce da vontade de “rigor e excelência” – tudo isto dá vontade de desistir.

Acresce a este ambiente a sensação de que, actualmente, as escolas estão transformadas em depósitos de crianças e adolescentes sem quaisquer limites e valores, reservando-se para os professores o papel ingrato de educadores – algo que cabe aos pais. Mas esses mesmos pais, com ordenados também de miséria, já formados num sistema de ensino que visa apenas certificar para uma abstracção chamada “mercado de trabalho"; esses mesmos pais para quem os seus filhos são os melhores do mundo (o ego insuflado e a aversão às adversidades, a dificuldade em lidar com as frustrações) não compreendem que a escola não pode cumprir seja o que for se se insistir nesta mirífica ideia de nada sancionar?

Testes cada vez mais fáceis, exames muitas vezes absurdos, que avaliam competências mal-amanhadas (lê-se mal, escreve-se pior, quase nenhum estudante entre os 14 e os 25 anos tem noções seguras de História, de Geografia, de Língua Portuguesa – a sintaxe é deplorável, o vocabulário é rasteiro, as associações e inferências não existem, a faculdade da imaginação vê-se comprometida), a que se soma, em muitos estabelecimentos de ensino, a ausência, em número real, de auxiliares educativos sem os quais as escolas não funcionam, esta é uma das faces do problema.

A outra é recorrente: fala-se de estratégias, mas não se quer compreender que sem um aumento dos salários a profissão docente não chamará os melhores para o ensino. Não se quer entender que sem os melhores a ensinar este país não resistirá. Esta é, na minha perspectiva, a questão axial. Dignificar o trabalho dos professores com salários que se vejam e, por essa via, chamar os melhores. Depois sim, exigir que, em função de um salário que nos permita comprar livros, aceder ao mundo da cultura, as aulas sejam espaços onde o conhecimento não é palavra vã. Eis o que os políticos deveriam fazer: proteger a escola das várias cabeças da hidra – a precariedade no trabalho.

Sustentar esta medida – não se reprovar até ao 9.º ano é dar azo ao laxismo. Nada disto tem que ver com políticas de esquerda ou de direita. Tem que ver com bom senso. Implementada, esta “estratégia” será mais uma prova de que o único programa político para a educação em Portugal é descredibilizar a profissão de professor. Chegará o dia em que, a reboque do aluimento do sistema escolar, teremos aulas online, com tutores a fingir que há exigência, em rede, ensinando o nada-tudo em plataformas digitais… Admirável mundo novo! E mais barato!

Crescer na escola deveria ser possível, conjugando-se paciência e exigência no acto de ensinar. Para tal, quem ensina deveria ser bem pago e ter tempo para essa palavra fora de moda: a ilustração. Na lógica depredatória em que vivemos, os 250 milhões de euros que o Governo quer poupar hoje são um hipotecar do nosso futuro. À corrupção financeira, à destruição do SNS, à maior taxa contributiva da Europa, acrescente-se a falência do Sistema de Ensino e ver-se-á que o embrutecimento civil é fruto das decisões de curto prazo. Quem olhe para os jovens nas ruas da cidade já intui isso... E se a violência doméstica também nada tem que ver com a educação, então está tudo dito sobre a sensibilidade de quem dirige os destinos do país. Ou não?