Análise

A Espanha entre dois nacionalismos

A radicalização do nacionalismo catalão está a provocar um regresso do nacionalismo espanhol, um tema com o qual a esquerda deixou de saber lidar.

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Manifestação independentista em Barcelona este sábado RAFAEL MARCHANTE/Reuters

Não é arriscado profetizar que Catalunha vai continuar no centro da política espanhola. As eleições de hoje ameaçam produzir uma nefasta conjugação entre o risco de ingovernabilidade e o choque de dois nacionalismos. Teme-se um Congresso bloqueado e incapaz de responder aos desafios políticos. A sentença do Supremo Tribunal converteu a Catalunha no eixo da campanha eleitoral. Nos últimos dias, as atenções foram desviadas para a ascensão do Vox, que as sondagens apontam como terceiro partido espanhol. Todos estes efeitos estão encadeados. As “chamas de Barcelona” ofereceram uma coluna de ar quente para que [o Vox] começasse a subir nas sondagens”, escreveu o diário La Vanguardia.

Ao forçar a repetição das eleições, Pedro Sánchez terá agido como se o incómodo “conflito catalão” não existisse ou pudesse ser colocado entre parênteses. Foi uma forma de repetir a passividade do seu antecessor, Mariano Rajoy. Tendo optado por dispensar os votos independentistas na sua investidura, subestimou o risco de fazer coincidir a campanha eleitoral com a publicação da sentença. A obsessão com a manobra táctica continua a impedir os políticos espanhóis de pensar no horizonte do longo prazo. Terá provocado um desastre. Saberemos hoje à noite a sua dimensão.

A radicalização do nacionalismo catalão está a provocar um regresso do nacionalismo espanhol, um tema com o qual a esquerda deixou de saber lidar. Escreveu há dias o politólogo Fernando Vallespín que as “chamas de Barcelona” eram um presente para o Vox. “Um nacionalismo exacerbado estimula o seu contrário. (…) Uma campanha travada em termos de choque de identidades só pode beneficiar a direita.”

Reféns do Vox

Mais grave do que isto: se, até agora, era politicamente inconveniente discutir os caminhos de saída para o conflito catalão, muito mais difícil será daqui em diante. Entre a radicalização independentista e a reacção nacionalista espanhola, a questão catalã arrisca-se apodrecer indefinidamente. O PP, o Cidadãos e o próprio PSOE estão reféns do discurso do Vox. O PP reflecte a pressão da extrema-direita sobre o seu eleitorado e modela o seu discurso. Num clima de insegurança, Pedro Sánchez sentiu-se forçado, nas últimas semanas, a apresentar-se como garante da “ordem”.

Vallespín insurge-se contra o vazio do debate sobre o tema da Catalunha na campanha. “Talvez porque ninguém se atreve a exercer a liderança, a apontar um objectivo e convencer-nos a alcançá-lo. Em vez disso opta-se pela via fácil, continuarmos submetidos aos ditados das emoções primárias. O avesso da liderança.”

Mas a situação está igualmente bloqueada na Catalunha. Os sectores radicais viram na sentença do Supremo uma segunda oportunidade para relançar o “processo”. Os “anticapitalistas” da CUP e dos CDR tomaram conta da rua. Os partidos perderam o controlo dos acontecimentos. Houve inclusivamente a ameaça de boicote das eleições, entretanto substituído por uma vaga de manifestações a partir de amanhã. Permanece a palavra de ordem da CUP: assegurar a ingovernabilidade da Catalunha e da Espanha.

A rivalidade entre os “dois independentismos”, as correntes ligadas a Puigdemont ou ao presidente Quim Torras e a Esquerda Republicana, de Oriol Junqueras, tornou-se mais acesa. Têm fundas divergências estratégicas. Partilham o “objectivo final” da independência mas divergem em quase tudo. A sentença do processo tornou as suas posições mais rígidas, em nome da “unidade nacional”, ao mesmo tempo que abriu caminho à afirmação da CUP e dos CDR, que tomaram conta da rua. Nada mudará até às eleições autonómicas catalãs, que deverão clarificar a liderança da Catalunha.

Depois de ter sido marginalizado nas eleições europeias, com seis por cento dos votos, o partido de Santiago Abascal cresce nas sondagens e ascende ao estatuto de terceiro partido espanhol.

O politólogo José Pablo Ferrándiz pensa que o bipartidarismo deu lugar a um bibloquismo:“O sistema passou de dois partidos hegemónicos para dois blocos hegemónicos”, em que custa muito mudar de bloco, esquerda e direita, mas é fácil mudar de partido dentro do mesmo bloco. “Os líderes de hoje cresceram e socializaram-se no bipartidarismo. E agora que ele não existe reproduzem-no através do bibloquismo, que bloqueia precisamente os acordos transversais que proporcionam estabilidade noutros países.”

O novo sistema facilita “o transvase da direita tradicional para a extrema-direita de uma forma até agora impensável. Na Espanha estamos a ver como o centro desaparece e está a ser substituído pela extrema-direita.” O PP e o Cidadãos ajudaram, argumenta Ferrándiz: “Ao verem que o Vox crescia nas sondagens, tentaram competir com ele e o resultado é que o eleitor de direita pensa que se o Cidadães e o PP dizem o mesmo que a ultra-direita, será o Vox quem tem razão. O Cidadãos começou por ocupar o espaço do centro, funcionando como partido-charneira, indispensável ao PSOE ou ao PP para formar maiorias. Mas Albert Rivera escolheu entrar num dos blocos, o da direita, para assumir a sua liderança. A experiência deu mau resultado.

O sistema em risco

A conjugação destes fenómenos constitui uma pesada ameaça, agora dobrada pela iminência de um parlamento “ingovernável”, incapaz de produzir uma maioria de governo. Neste quadro de dois blocos fechados, há duas soluções tradicionais. A primeira seria uma “grande coligação” entre o PSOE e o PP. A segunda seria a chamada “abstenção patriótica” do PP para investir Sánchez como primeiro-ministro. Esta segunda solução significaria um governo débil, que não teria o controlo da agenda legislativa e dificilmente conseguiria aprovar o orçamento. A ascensão do Vox torna improvável qualquer destes cenários. Entregar a oposição a Santiago Abascal é o último dos desejos de Pablo Casado.

Neste quadro, é normal que surjam cenários catastróficos. Alertava ontem, no diário El Confidencial, o analista José Antonio Zarzalejos que a hipótese de terceiras eleições levaria a um “sinistro político espanhol”, pois significaria a sentença de morte do “sistema constitucional de 1978”, tal como aconteceu em França à IV República, em 1958.

O sistema constitucional está sob pressões contraditórias. Por um lado, “o independentismo e o nacionalismo propõem fórmulas de dissolução dos fundamentos constitucionais (o regime baseia-se na ‘indissolúvel unidade da Nação Espanhola’)”. Por outro, “a nova extrema-direita advoga a supressão do Estado autonómico previsto na Carta Magna.”

Aguardemos a contagem dos votos.