Sánchez virou ao centro mas todos os caminhos apontam a novo bloqueio

No debate a cinco, socialista endureceu discurso sobre a Catalunha e ignorou apelos de Iglesias ao diálogo. Casado lutou ao centro e à direita, Rivera afundou-se, Abascal não foi desafiado e não se vislumbra solução para ultrapassar o impasse político espanhol.

Pablo Casado (PP), Pedro Sánchez (PSOE), Santiago Abascal (Vox), Pablo Iglesias (Unidas Podemos) e Albert Rivera (Cidadãos)
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Pablo Casado (PP), Pedro Sánchez (PSOE), Santiago Abascal (Vox), Pablo Iglesias (Unidas Podemos) e Albert Rivera (Cidadãos) EPA/Juan Carlos Hidalgo
Os cinco líderes dos principais partidos têm demonstrado pouca disposição para grandes acordos
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Os cinco líderes dos principais partidos têm demonstrado pouca disposição para grandes acordos Reuters/SUSANA VERA

Conquistar o centro. É este o mote de Pedro Sánchez para tentar romper o bloqueio político espanhol nas legislativas do próximo domingo e foi esse o guião que levou para a cimeira televisiva de segunda-feira, que juntou os líderes dos cinco partidos mais votados nas eleições de Abril. Com um discurso duro e propostas concretas para a crise catalã, o socialista piscou o olho ao eleitorado moderado e quis mostrar que, apesar do impasse, o seu Governo está a governar – só precisa que o deixem continuar a fazer, viabilizando a sua investidura.

O presidente do executivo em funções prometeu rever o Código Penal para reintroduzir o delito de convocatória de referendos ilegais, uma nova lei do audiovisual para “acabar com a utilização sectária de TV3 pelo independentismo” e a nomeação da centrista Nadia Calviño para vice-presidente económica. Pelo meio criticou a Partido Popular (PP) e Cidadãos por não se afastarem do Vox: “Vocês representam a direita cobarde, eles a extrema-direita agressiva”.

Num debate longo, confuso e pouco ou nada conduzido pelos dois moderadores – que optaram por ouvir os candidatos em vez de os questionarem – Pablo Iglesias insistiu no diálogo entre Unidas Podemos e Partido Socialista (PSOE) para se fazer frente à direita “ignorante e agressiva” e Santiago Abascal (Vox) sentiu-se cómodo a passar a sua mensagem disruptiva, sem grandes interpelações do restante painel. 

Pablo Casado (PP) foi o mais inconformado do centro-direita, mas ficou a meio caminho entre a oposição a Sánchez e as críticas a Albert Rivera. Já o líder do Cidadãos apontou baterias contra os vícios do bipartidarismo, mas mostrou-se incapaz de contrariar a perda de popularidade dos últimos meses, tendo-se destacado mais pelos cartazes e adereços que levou para a televisão e menos pelo discurso.

Cansaço eleitoral

Nunca é demais sublinhar o ponto de partida para as eleições do próximo domingo em Espanha: serão as quartas legislativas em quatro anos e as segundas em sete meses – e pelo meio houve ainda europeias, municipais e regionais. Por isso mesmo, todo o aparato da campanha, todo a discussão partidária e toda a cobertura jornalística sobre o evento encontram-se intrinsecamente imbuídas neste ambiente de fadiga eleitoral

“A atmosfera é muito diferente: mais áspera, mais cansada, mais desconfiada da política e dos políticos e mais hostil aos discursos de sempre”, descreveu no jornal Vanguardia o jornalista e cronista Enric Juliana.

Com as sondagens a apontarem nova vitória do PSOE, sem maioria, a tornarem difícil a supremacia de um ou outro bloco político e a sugerirem que a transferência de votos se verifica, sobretudo, entre os partidos da direita, Sánchez tentou lançar um isco à oposição: pediu um compromisso de todos os presentes para permitirem que o partido mais votado possa formar Governo, depois de domingo, mesmo em minoria.

Mas a jogada saiu-lhe furada. Nem os seus adversários responderam ao repto, nem o socialista conseguiu transferir-lhes o rótulo de partidos responsáveis pelo bloqueio trazido de Abril até às novas eleições, argumento chave para tentar convencer o eleitorado indeciso ao centro ou nas franjas do centro-direita.

Embora tivessem Sánchez como principal alvo, Rivera e Casado entraram várias vezes em confronto, com o liberal a colocar o PP no mesmo saco do PSOE, como partido do regime e, nesse sentido, co-responsável pelo alastrar da corrupção e pela estagnação económica em Espanha.

Vários bate-bocas, à direita, que Iglesias, líder do Unidas Podemos, procurou explorar, voltando a chamar a atenção a Sánchez, com quem não chegou a acordo para um Governo de coligação. “Está a ver, Sr. Sánchez? A direita discute muito entre si, mas não terá problemas em governar coligada. A ver se é desta que aprendemos”.

Catalunha ao centro

O principal choque entre os líderes teve como pano de fundo a crise catalã, tema central para Sánchez piscar o olho ao eleitorado à direita do PSOE. Insistindo que o problema catalão “é de convivência e não de independência” e prometendo a revisão do Código Penal, o socialista aceita uma proposta (do PP) que tinha rejeitado em Fevereiro e avança para a reintrodução de uma norma eliminada pelo também socialista José Luis Zapatero.

À direita, Casado e Rivera tentaram desestabilizar Sánchez, afirmando que a violência na Catalunha interessava ao presidente do Governo, perguntando-lhe repetidamente se existia uma nação catalã e acusando-o de querer ser investido com o apoio dos independentistas. 

E nenhum se empenhou a criticar um Abascal muito tranquilo, quando este propôs a suspensão da autonomia catalã, a ilegalização dos partidos independentistas e a prisão do presidente do governo catalão, Quim Torra.

“Estão a competir para ver quem apresenta a medida mais dura”, lamentou Iglesias, que não tem dúvidas sobre o caminho a seguir, mesmo que sem avançar com grandes concretizações: “A crise só se resolve com diálogo, sentido comum e calma. E todos teremos de fazer cedências”.

Também na questão catalã Sánchez deixou o líder do Podemos a falar sozinho, procurando distanciar-se da esquerda. “O Sr. Iglesias quer um referendo à autodeterminação (...), defende que há presos políticos em Espanha e eu não posso aceitar isso”, criticou. 

Com a imprensa espanhola a hesitar em apontar grandes derrotados ou grandes vencedores – Rivera foi o mais criticado e Abascal o mais eficaz –, o debate dificilmente terá servido para os eleitores tomarem decisões demasiado drásticas sobre o seu sentido de voto. 

Nos poucos dias que restam até à eleição não se prevêem, por isso, grandes novidades. Espanha avança a grande velocidade para novo bloqueio parlamentar e os seus líderes não dão sinais de poderem travar ou contrariar essa tendência.