Portugal escapa à crise europeia da produção de carros

Banco de Portugal recomenda um “enquadramento institucional favorável às empresas” e defende cuidado com “os custos de contexto” para combater riscos.

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Paulo Pimenta

A indústria automóvel portuguesa cresceu 85% na produção e 60% nas exportações de carros de passageiros (em termos nominais) em 2018, escapando ao cenário anémico do sector na Europa. Quem o diz é o Banco de Portugal, que hoje divulga números sobre o sector.

Embora destaque o “bom desempenho das exportações portuguesas”, que é “particularmente assinalável” quando há “algumas perturbações da oferta” a nível europeu – uma referência à mudança para a norma de emissões WLTP –, o Banco de Portugal salienta igualmente que há riscos.

“Há uma preocupação crescente no sector com factores de procura, quer conjunturais quer estruturais”, assinala a instituição, apontando a “redução da confiança mais acentuada do que para o total da indústria transformadora, na UE e em Portugal”. Em termos conjunturais, algum pessimismo virá da mudança de ciclo económico e o “esgotamento do efeito” de recuperação pós-crise mundial.

Em termos estruturais, diz o banco central, os factores de risco são o fraco crescimento populacional e a elevada densidade automóvel, a mudança nas preferências de consumidores (veículos eléctricos e mobilidade partilhada), o risco de uma guerra comercial de pendor proteccionista vir a redundar em taxas penalizadoras sobre importações e a entrada de novos fornecedores no mercado que criem pressão competitiva sobre os produtores tradicionais.

Estes desafios, conclui o Banco de Portugal, “assumem acentuada relevância” porque o sector português “depende fortemente do investimento directo estrangeiro e da procura externa”. O que é agravado pela “elevada concentração” da produção em apenas cinco empresas. Qualquer alteração estratégica numa delas pode ter “um impacto macroeconómico relevante”.

O cenário de mudança no panorama mundial não comporta apenas riscos. Pode também criar oportunidades: com a “reconcentração dos fornecimentos à indústria europeia dentro da UE”, caso se verifiquem “tensões proteccionistas”. E por isso convém “manter um enquadramento institucional favorável às empresas, incluindo no que diz respeito aos custos de contexto”, defende o banco central.

Em 2015, 70% do conteúdo da produção era importado, maioritariamente vindo da UE e do Reino Unido. Praticamente toda a produção nacional de automóveis é encaminhada para exportação. O peso do sector nas exportações nominais de bens coloca Portugal no quinto lugar numa lista dos países da zona euro (era sétimo em 2016).

E em termos de valor acrescentado bruto (isto é, o valor efectivamente criado pela transformação), o peso deste sector nas exportações totais coloca Portugal numa situação intermédia relativamente à zona euro e à UE no seu todo.