Irmão de Bouteflika condenado a 15 anos de prisão por conspiração

Saïd Bouteflika era visto como o verdadeiro detentor do poder na Argélia depois de o Presidente ter sofrido um AVC em 2013. Foi acusado de conspirar para depor o chefe das forças armadas para manter o irmão no poder.

Desde 2013, quando o Presidente argelino sofreu um AVC, que Saïd Bouteflika era visto como o verdadeiro detentor do poder no país
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Desde 2013, quando o Presidente argelino sofreu um AVC, que Saïd Bouteflika era visto como o verdadeiro detentor do poder no país Reuters/Zohra Bensemra

O irmão mais novo do antigo Presidente argelino Abdelaziz Bouteflika, Saïd Bouteflika, foi condenado por um tribunal militar a uma pena de 15 anos de prisão por conspirar contra o Estado e enfraquecer as Forças Armadas argelinas. Said Bouteflika era visto como o verdadeiro detentor do poder depois de o seu irmão ter sofrido um AVC em 2013.

Saïd Bouteflika foi detido pelas autoridades argelinas em Maio. Foi acusado de ter participado numa reunião, a 27 de Março, com dois altos dirigentes das secretas e um líder político em que se discutiu a imposição do estado de emergência e a demissão do chefe do Estado Maior-General das Forças Armadas, o tenente-general Ahmed Gaid Salah, para manter o irmão no poder. Os outros três arguidos são Mohamed Mediene, respondável pela agência de segurança argelina de 1990 até 2015, Bachir Tartag, o sucessor de Mediene no cargo, e a líder do Partido dos Trabalhadores, Louisa Hanoune. 

Os procuradores pediram a pena máxima de 20 anos para os quatro arguidos, disse o advogado de defesa Miloud Ibrahimi, referido pela Al-Jazira. As audiências do julgamento foram limitadas aos arguidos e seus familiares, procuradores e advogados de defesa. 

Poucos dias depois da reunião ter tido lugar, e baseando-se na Constituição, Galah afastou Abelaziz Bouteflika, no poder desde 1999, a 2 de Abril alegando que o chefe de Estado estava incapaz de governar por razões de saúde – sofreu um AVC em 2013 e raramente era visto e, quando o era, estava numa cadeira de rodas e pouco falava. O chefe dos militares fê-lo depois de milhares de argelinos saírem às ruas para protestar contra o regime e por o Presidente ter violado a promessa de não se recandidatar a um quinto mandato nas eleições que se aproximavam.

A pressão das ruas deu origem à maior crise política desde a década de 1990, quando uma guerra civil eclodiu entre o regime e os islamitas, e abalou o regime em que as forças armadas são a espinha dorsal desde a independência do país do colonialismo francês, em 1962.

O presidente do Senado, Abdelkader Bensalah, foi nomeado Presidente interino e marcou eleições presidenciais para 4 de Julho, mas o Tribunal Constitucional acabou por adiá-las por falta de candidatos – os dois que se apresentaram foram recusados pelas autoridades. As presidenciais já foram adiadas por duas vezes e a Constituição dita que o Presidente interino tem 90 dias para convocar eleições antecipadas assim que ocupa o cargo – prazo já ultrapassado. 

Para acalmar os protestos e mostrar iniciativa no combate à corrupção, uma das críticas dos manifestantes, Galah tem ordenado uma série de investigações e detenções de antigos elementos próximos de Bouteflika – antigos ministros, líderes políticos e empresários. Porém, as suas acções são encaradas como meio para consolidar o seu poder afastando quem pode representar uma ameaça ou é crítico da sua liderança durante a crise política. 

O país é na prática governado pelos militares, encabeçados por Galah, visto como o homem mais poderoso no país, e os manifestantes rejeitam que assim continue a ser. Há sete meses, desde Fevereiro, que saem todas as semanas à rua para exigir que todos os elementos do antigo regime de Bouteflika sejam afastados do poder e sejam feitas reformas constitucionais e das instituições do Estado antes de serem convocadas eleições livres e democráticas. Preferem uma transição democrática mais lenta do que a desejada pelos militares: eleições presidenciais o mais rapidamente possível para se ultrapassar a crise política e se manter o regime tal como está. 

Neste sentido, o líder dos militares argelinos prometeu anunciar em meados de Setembro a data das próximas presidenciais e assim o fez. Serão a 12 de Dezembro e Galah prometeu a criação de um órgão independente para “organizar e vigiar as eleições”, o que levantou sérias dúvidas entre os manifestantes: temem que os militares condicionem as eleições, à semelhança do que fizeram nas últimas décadas. O sistema eleitoral argelino é assombrado por acusações de opacidade e por ser favorável às formações políticas alinhadas com os militares. As suspeitas de fraude são comuns. 

Galah tem responsabilizado a “ingerência externa” pelos protestos, uma acusação que os manifestantes rejeitam, e detido os seus líderes antes de cada sexta-feira de manifestações. Mas não tem conseguido travar os protestos. 

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