“O poder pertence ao povo”, grita um milhão de pessoas nas ruas de Argel

Polícia usa gás lacrimogéneo e canhões de água contra os manifestantes que exigem o fim do regime construído por Bouteflika. Não há solução à vista para a crise política na Argélia.

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Bouteflika e Ahmed Gaed Salah Ramzi Boudina/Reuters

A polícia argelina está a usar gás lacrimogéneo e canhões de água contra os manifestantes que, em Argel, exigem a mudança do regime. Estão nas ruas um milhão de pessoas, que exigem a aplicação do artigo 7 da Constituição, que diz que “o povo é a única fonte de todo o poder”.

Os manifestantes gritam também palavras de ordem contra o artigo 102, que o chefe do Estado-Maior do Exército, Ahmed Gaed Salah, invocou para apresentar, na terça-feira, um pedido para que o Presidente, Abdelaziz Bouteflika, seja afastado do cargo por incapacidade.

Se isso acontecer, é catapultado para a chefia de Estado o presidente do Conselho da Nação (câmara alta do parlamento), Abdelkader Bensalah, uma figura rejeitada pelos manifestantes. “Número 102 fora de serviço”, “O chefe do estado-maior não é o chefe do Governo” e “Nem Bensalah nem Salah” são algumas das palavras de ordem.

Esta é a maior manifestação desde que começaram, há seis semanas, protestos pacíficos em todo o país, mas sobretudo na capital, às sextas-feiras. A polícia tem-se limitado a erguer barreiras para evitar que as marchas sigam por determinadas ruas. Hoje, e depois da intervenção de Salah, mudou de táctica usando meios repressivos para tentar dispersar os manifestantes.

Oficialmente, o mandato do Presidente Abdelaziz Bouteflika terminou na quarta-feira. A insurreição popular começou quando os cidadãos saíram à rua para protestar contra o anúncio da sua quinta candidatura – o chefe de Estado, de 82 anos, está incapacitado desde que sofreu um AVC e há muito que se suspeita que não é ele quem governa. 

Perante a revolta, as eleições que deviam realizar-se em Abril foram adiadas. Mas sem um sucessor óbvio ou consensual, a cúpula militar que sustentou o Presidente e assumiu a resolução da crise não sabe o que fazer.

A manifestação desta sexta-feira mostra o que já se sabia: os cidadãos rejeitam também esta tutela dos militares (não aceitam a ingerência de Salah nos assuntos políticos) e exigem eleições e o fim do regime, com a partido de todos os que a ele estão associados.

“Este é o nosso país e cabe-nos decidir”, cantam os manifestantes, que, segundo o jornal argelino Al Watan, são cada vez mais nas ruas de Argel, de onde prometem não sair “até que o regime caia”.

Muitas forças já se juntaram à população. Os sindicatos rejeitaram o diálogo com o Governo, e elementos da polícia e das Forças Armadas, assim como antigos aliados de Bouteflika como Ahmed Ouyahia (ex-primeiro-ministro) participam nas manifestações.

As duas câmaras do parlamento, onde os partidos no poder, a Frente de Libertação Nacional e o Partido Democrático Nacional, são maioritários, vão debater a Constituição e analisar o artigo 7. Mas os analistas ouvidos pelo Al Watan dizem que pouco se deve esperar, ainda que se fale num referendo – e enquanto o impasse se mantém, Ahmed Gaed Salah “parece assumir cada vez mais as rédeas do poder”. 

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