Plácido Domingo deixa a Ópera de Nova Iorque na véspera da estreia de Macbeth

Tensão provocada pelas acusações de assédio sexual precipita decisão do cantor lírico, que já não consegue actuar nos EUA desde Agosto mas mantém as suas datas na Europa. Ensaio geral foi a sua “última actuação” com a Ópera Metropolitana.

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Plácido Domingo no palco do Festival de Peralada em Girona, em 2018 Robin Townsend/EPA

Na véspera da estreia de Macbeth, Plácido Domingo abandonou o elenco desta produção da Ópera Metropolitana de Nova Iorque, devido à tensão suscitada pelas acusações de assédio sexual que sobre ele pairam desde Agosto. Trabalhadores da conceituada companhia norte-americana questionaram a participação do cantor lírico espanhol no espectáculo, em que interpretava o papel principal, levando-o a desistir daquela que seria a sua primeira actuação nos EUA após as denúncias que 20 mulheres partilharam com a Associated PressSerá o barítono Zeljko Lucic, que já iria substituir Domingo em algumas das récitas, a ocupar o seu lugar esta quarta-feira.

A notícia foi avançada na terça-feira pelo New York Times, que cita um taxativo comunicado de Plácido Domingo: “Estou feliz por, aos 78 anos, ter podido cantar o maravilhoso papel de protagonista de Macbeth no ensaio geral, naquela que considero a minha última actuação no palco da Met [o diminutivo de Metropolitan Opera]”.

“Embora refute firmemente as alegações recentemente feitas sobre mim, e considere preocupante este clima em que as pessoas são condenadas sem o devido processo legal, reflecti e concluí que a minha participação nesta produção de Macbeth iria distrair [os espectadores] do trabalho árduo dos meus colegas, tanto em palco quanto nos bastidores. Por isso, pedi para me retirar e agradeço aos dirigentes do Met por terem aceitado o meu pedido de forma graciosa”, prossegue Domingo numa nota em que em recorda que cantou pela primeira vez com a Met aos 27 anos e teve com a instituição uma “colaboração de 51 anos consecutivos e gloriosos”. O cantor espanhol foi a estrela em 21 estreias na Metropolitana de Nova Iorque e chegou até a dirigir a sua orquestra.

Este é o mais recente desenvolvimento de um caso que rebentou a 12 de Agosto, quando a agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) noticiou que nove mulheres acusavam Placido Domingo, um dos mais reconhecidos nomes do canto lírico a nível mundial, de ter forçado contactos sexuais em contexto laboral e de ter exercido represálias perante a rejeição das alegadas vítimas. Duas semanas depois, em Salzburgo, na sua primeira actuação desde que a notícia se espalhou pelo mundo, integrando o elenco de uma versão de concerto de Luisa Miller, de Verdi, recebeu, emocionado, uma ovação de pé.

A posição do Festival de Salzburgo contrastou então vivamente com a reacção das instituições norte-americanas à investigação da AP. A presidente do festival, Helga Rabl-Stadler, considerou “factualmente errado e moralmente irresponsável fazer juízos irreversíveis (...), e basear quaisquer decisões em tais juízos”. Nos Estados Unidos, onde o clima é outro após dois anos de movimento #MeToo, a Orquestra Sinfónica de Filadélfia já tinha entretanto tomado medidas: logo após a divulgação das acusações, e invocando o seu compromisso com a criação de “um ambiente seguro, solidário, respeitoso e apropriado” para os seus trabalhadores e colaboradores, retirou o convite para que o cantor lírico de 78 anos actuasse na gala de abertura de temporada do passado dia 18 de Setembro. A seguir, as Óperas de São Francisco e de Filadélfia cancelaram as actuações que Plácido Domingo tinha agendadas para os meses seguintes; por sua vez, a Ópera de Los Angeles, onde terão tido lugar alguns dos alegados actos relatados numa segunda investigação da AP no início de Setembro, procurou “aconselhamento externo” para investigar os testemunhos de nove mulheres que envolvem Domingo e a instituição no caso de assédio sexual. Entretanto, também o sindicato de Ópera dos EUA está a investigar o caso.

Em Nova Iorque, tudo se manteve conforme o planeado até terça-feira. No último domingo, relata o New York Times, uma reunião do coro e da orquestra com o director da companhia transformou-se numa sessão de perguntas sobre a presença de Plácido Domingo no elenco e a atitude da companhia perante o assédio sexual. O ensaio geral estava feito, a produção de Macbeth pronta a estrear, mas a tensão era notória. “A Met e o sr. Domingo estão de acordo quanto à necessidade de ele se demitir”, resume uma nota da instituição.

A Ópera Metropolitana teve o seu próprio caso MeToo em 2018, quando despediu o seu director musical, o histórico James Levine, após acusações de assédio. O seu actual director, Peter Gelb, tinha decidido deixar que as investigações sobre Plácido Domingo noutras instituições seguissem o seu curso, mas a pressão interna – apesar dos apoios manifestados pela sua co-protagonista em Macbeth, Anna Netrebko, e por um coralista –, também noticiada pela rádio NPR, e externa (um senador telefonou a Gelb pedindo que Domingo fosse afastado) ditou outro desfecho. Muitos dos trabalhadores defendiam que, enquanto se aguardam conclusões sobre as investigações em curso noutras instituições, a prudência deveria ditar um afastamento temporário de Plácido Domingo.

Quais são as acusações contra Plácido Domingo?

Em Agosto, a AP relatava denúncias contra Plácido Domingo por parte de oito cantoras líricas e uma bailarina. Oito das nove mulheres falaram sob anonimato, apenas a meio-soprano Patricia Wulf aceitou dar a cara.

Domingo era o director artístico da Ópera de Washington, Wulf uma profissional de 40 anos recém-chegada à instituição. Segundo a intérprete, durante uma produção de Fedora, o seu superior hierárquico perguntava-lhe todas as noites: “Tens mesmo de ir para casa esta noite?”. Wulf diz que após a surpresa se instalava o medo: “Assim que consegues fugir, pensas: ‘Acabei de arruinar a minha carreira?’.” As outras mulheres relataram beijos forçados, mãos por baixo das saias e encontros pós-laborais em que Domingo tentava relações sexuais.

Há dois anos, com as primeiras investigações em torno de Harvey Weinstein, tornaram-se públicos os métodos usados pelos órgãos de informação para apurar e verificar factos que muitas vezes se resumem a interacções entre duas pessoas ou a testemunhos de terceiros, sendo rara a existência de documentos, imagens ou processos policiais que possam comprovar as denúncias. O estabelecimento de padrões comportamentais, a existência de processos nos serviços de recursos humanos das empresas, ou até de páginas nos diários pessoais das alegadas vítimas, e o alargamento das entrevistas a dezenas de pessoas de um dado sector e das relações pessoais dos acusadores foram procedimentos a que também a AP recorreu. Um mês depois, a agência dava conta de mais 11 acusações, envolvendo, tal como na primeira leva, mulheres que falam sob anonimato por medo de represálias nas carreiras ainda em curso.

Não foi o caso de Angela Turner Wilson, hoje cantora e professora de canto em Dallas. A intérprete contou à AP que, durante uma produção de Le Cid na mesma Ópera de Washington de que Domingo era director, o tenor lhe baixou as alças do soutien no camarim e lhe agarrou violentamente o peito. “Doeu”, disse à AP. “Não foi meigo. Agarrou-me com força.”

Coordenadora de produção da Ópera de Los Angeles entre 1986 e 1987, Melinda McLain contou à AP que havia um modus operandi para lidar com Plácido Domingo – evitar deixá-lo sozinho nos camarins com jovens cantoras, não enviar trabalhadoras fora do elenco ao camarim do tenor, tentar que a sua mulher Marta estivesse presente nos momentos sociais da companhia. “Criávamos esquemas elaborados para o afastar de dadas cantoras”, disse McLain. “Nunca lhe mandei nenhuma mulher ao camarim.”

Espanha e Europa apoiam Domingo

O ministro da Cultura espanhol, José Girao, foi rápido a reagir às acusações publicadas pela AP com uma frase emblemática: “Não gosto de denúncias anónimas”, disse, lamentando que a par do processo jurídico haja também “a pena do telejornal”, referindo-se aos julgamentos da opinião pública a que muitos casos de assédio estão reduzidos — por prescrição de crimes, questões culturais e efeito #MeToo. Invocou também a imagem pública sobre Domingo, um cantor “muito conhecido e reputado enquanto pessoa”, disse à agência de notícias espanhola Efe.

Plácido Domingo enumera na sua página pessoal, patrocinada por uma marca de relógios de luxo, as actuações que terá na Europa nos próximos meses – e que incluem passagens pelo La Scala de Milão e pela Ópera de Viena. O Teatro Real de Madrid e o Palau de les Arts de Valência anunciaram logo em Agosto o seu apoio a Plácido Domingo e a manutenção em cartaz das actuações do cantor.