Plácido Domingo ovacionado em Salzburgo e em dose dupla

Na sua primeira apresentação pública depois de ter sido acusado de assédio sexual por nove mulheres, o cantor lírico espanhol recebeu aplausos entusiásticos do público. “Foi verdadeiramente uma tarde inesquecível”, disse Domingo no final do espectáculo.

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Plácido Domingo com o tenor Piotr Beczala Marco Borelli/Cortesia: Festival de Salzburgo

Plácido Domingo está habituado a ovações nas maiores salas de concerto do mundo mas, desde que, a 13 de Agosto, a Associated Press (AP) noticiou que nove mulheres o acusam de assédio sexual (notícia a que se seguiram cancelamentos de várias das actuações que tinha agendadas para os próximos meses), é legítimo que se mostre especialmente tocado por uma recepção entusiástica. E foi a uma dessas recepções que teve direito este domingo no Festival de Salzburgo: no final do concerto, o público levantou-se e aplaudiu o cantor lírico e maestro, que agradeceu sem esconder a emoção, descreve o diário espanhol El Mundo

Um dos maiores cantores líricos das últimas décadas – primeiro como tenor e, desde 2009, como barítono —, maestro de qualidades reconhecidas, Domingo teve no festival de Salzburgo, na Áustria, a sua primeira aparição pública desde 13 de Agosto, integrando o naipe de intérpretes de uma versão de concerto de Luisa Miller, de Verdi. Nesta ópera, lembra o jornal ABC, o pai da protagonista, interpretado pelo espanhol, canta “não sou um tirano” e defende que, no amor, a escolha livre do par é “sagrada”. A reacção da plateia funcionou, argumenta por seu lado o diário El Mundo, como uma espécie de “indulto” a Domingo. E em dose dupla.

Logo que o espanhol entrou em palco, não lhe faltaram aplausos, tornando-se claro que a sala não estava disposta a penalizá-lo pelas acusações de assédio sexual que oito cantoras e uma bailarina partilharam com a AP. Fora da sala também não houve qualquer manifestação de desagrado em relação à presença de Domingo neste prestigiado festival de música, que renasceu oficialmente em 1920 (foi criado ainda no século XIX, mas sofreu várias interrupções até 1920).

“Houve muito carinho da parte do público, havia uma ópera extraordinária com um elenco fantástico e foi verdadeiramente uma tarde inesquecível”, disse Plácido Domingo à EFE, a agência de notícias espanhola, depois de abandonar o palco em que, à beira das lágrimas, descreve ainda o El Mundo, agradeceu a ovação e os muitos ramos de flores que lhe fizeram chegar a partir das primeiras filas.

Para os jornais espanhóis, o “público elitista” de Salzburgo, mais interessado no espectáculo que se repete no próximo dia 31 do que no escândalo mediático, reflecte bem a diferença de atitude entre os Estados Unidos e a Europa face às revelações feitas pela agência de notícias. A Ópera de Los Angeles abriu uma investigação aos alegados abusos do artista e a de São Francisco, assim como a Orquestra de Filadélfia, cancelaram as apresentações de Domingo que estavam há muito previstas nas suas temporadas. Os prestigiados teatros de ópera de Milão, Londres e Berlim, assim como o Teatro Real de Madrid, mantêm os espectáculos já agendados.

Mais cautelosa do que as instituições norte-americanas já citadas, a Ópera de Nova Iorque está à espera dos resultados da investigação encomendada pela sua congénere em Los Angeles a uma advogada externa, Debra Wong Yan, para tomar uma decisão em relação ao cantor.

De acordo com a AP, as acusações reportam-se a um extenso período compreendido entre a década de 1980 e 2002 e partem de nove mulheres que acusam o cantor de ter forçado beijos em camarins, quartos de hotel e almoços de trabalho. Plácido Domingo ocupava, na altura, cargos em que poderia influenciar as suas carreiras. Sete das nove mulheres citadas pela agência de notícias norte-americana dizem que o também maestro acabou por prejudicá-las por terem rejeitado os seus avanços.

“Estas acusações, de anónimas, que remontam a situações com mais de 30 anos, são muito graves e, tal como foram apresentadas, imprecisas”, reagiu o cantor lírico num comunicado. “Ainda assim, é doloroso ouvir que posso ter incomodado alguém ou tê-la deixado desconfortável — mesmo que tenha sido há muito tempo e apesar das minhas melhores intenções. Sempre achei que todas as minhas interacções e relações foram bem-vindas e consensuais.”

Plácido Domingo parece ter-se esquecido de que uma das mulheres que alegou à AP ter sido assediada não optou pelo anonimato: Patricia Wulf, uma meio-soprano que com ele trabalhou na Ópera de Washington, de que o cantor e maestro era, à data, director artístico.

Verão difícil para o cantor lírico, escreve esta segunda-feira o diário El País, dando conta de que, antes das acusações de assédio sexual, Plácido Domingo teve de lidar com outras incómodas revelações familiares: a sua antiga nora, Samantha, divorciada de Plácido Jr., disse à imprensa britânica que a Igreja da Cientologia extorquiu dinheiro ao tenor durante anos.