Editorial

O cenário de guerra está de volta ao Golfo

Trump travou o ataque ao Irão dez minutos antes de acontecer, mas o cenário de tensão que se acumula há meses no Golfo Pérsico não tolera grande optimismo quanto ao futuro

A acreditar na conta do Twitter do Presidente dos Estados Unidos, o mundo salvou-se esta sexta-feira de um conflito militar dez minutos antes de estar programado para acontecer. Donald Trump cancelou o ataque a três alvos militares no Irão porque considerou não haver proporcionalidade entre o abate de um drone e a morte estimada de 150 iranianos, o que parece ser o único momento de lucidez no confronto entre uma administração belicosa e delirante e um regime delirante e belicoso. Salvou-se o dia e respirou-se fundo, mas o cenário de tensão que se acumula há meses no Golfo Pérsico não tolera grande optimismo. Por lá, americanos, sauditas, iranianos e os sucedâneos de uns e outros continuam a acumular ressentimento, ódio e armas. Um dia, é muito provável que o abate de um drone seja a mecha suficiente para desencadear um conflito de proporções imprevisíveis.

A escalada do conflito começa em 2015 quando Donald Trump decide rasgar um acordo laboriosamente tecido por Barack Obama e os aliados europeus para travar as ambições nucleares do Irão. Washington ensaia e consegue depois erguer uma cortina de sanções que paralisaram a economia iraniana, reduziram as reservas de bens essenciais como medicamentos e fizeram disparar os custos com a alimentação. Talvez Trump acreditasse que a hegemonia americana na economia mundial e o poder que dispõe para travar negócios de empresas de todo o mundo bastaria para a submissão do Irão ou, cenário sempre negado, para promover uma mudança de regime. Trump e os seus acólitos talvez desconheçam que o Irão é a velha Pérsia, onde a história conta e o orgulho nacional persiste.

À loucura de Trump e à delícia dos sauditas empenhados em vergar o seu arqui-inimigo na região juntou-se a loucura de Ali Khamenei. Apesar de várias tentativas, não parece haver margem suficiente para uma negociação. E sem diálogo, o que passará a determinar o futuro são incidentes como os ataques a petroleiros ou o abate de um drone. Há meses que a imprensa internacional adverte para a iminência de uma guerra e, infelizmente, todos os dados apontam nesse sentido. O Irão continuará a rasgar o que resta do acordo e prosseguirá o seu caminho para a bomba nuclear. Os americanos arriscam-se a envolver-se numa guerra que jamais poderão ganhar. A economia mundial ressentir-se-á com a instabilidade na região onde passa um quinto do petróleo mundial. A insensatez de um presidente que, desonrando a palavra da América, decide incumprir um tratado deu no que se vê.