Análise

Diário de campanha, dia 4: Berardo na campanha e um rapaz sempre sério

E pronto. Berardo entrou na campanha em força. O CDS aumentou o grau de contaminação entre europeias e empréstimos que não foram pagos ao acusar António Costa de estar, de certo modo, implicado no “caso Berardo”. Porquê? Porque António Costa, então ministro de Sócrates, assinou em 2006, em conjunto com José Sócrates e Teixeira dos Santos, o decreto-lei que criou a Fundação Berardo. “A Fundação Berardo foi criada por decreto-lei em 2006, sendo que os créditos concedidos foram praticamente subsequentes. E quem subscreve o decreto lei da Fundação Berardo? José Sócrates, António Costa e Teixeira dos Santos”. A descoberta permitiu a Melo espraiar-se sobre a “deliquência bancária que custa muito dinheiro aos portugueses” e que “acaba por ter sempre dominadores comuns que têm nomes”.

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O nome de que Nuno Melo se esqueceu foi o da antiga ministra da Justiça Celeste Cardona, histórica do CDS, que depois foi para a administração da Caixa e que participou na aprovação dos empréstimos. Regra número 1 da actividade política (e que vale para todos os partidos, sempre): nunca falar da roupa suja amontoada na própria casa.

Foi o Bloco de Esquerda que trouxe o nome de Celeste Cardona para a campanha, na quarta-feira. Ao reagir ao escândalo Berardo e ao frenesim institucional para a devolução das medalhas, Marisa Matias concordou com a retirada da comenda, mas insistiu no dinheiro e em outros nomes. “Queremos que a medalha seja devolvida, mas sobretudo que o dinheiro seja devolvido. E que sejam responsabilizadas as pessoas que tomaram estas decisões. Celeste Cardona, do CDS, que foi nomeada por Durão Barroso, aliás como Armando Vara, do PS, esteve directa e pessoalmente envolvida”. Marisa Matias disse que gostava de saber se Nuno Melo também defende a retirada de comendas a Cardona, mas já se viu que ficou sem resposta. Aparentemente, tudo indica que só Berardo perderá a medalha – Armando Vara, de resto, já a perdeu.

  1. Vieira da Silva foi ontem à campanha de Pedro Marques dizer que o seu antigo secretário de Estado “de ar sempre sério” tem “a enorme capacidade de não desistir, de persistir”. O ar sério – quase de tímido fóbico – e o estilo não-tenho-jeito-nenhum-para-isto marcaram os primeiros dias de campanha do candidato do PS. E, no entanto, alguma coisa parece estar a mudar. No famoso comício de Faro, em que Marques se insurgiu contra a acção de campanha de Paulo Rangel a sobrevoar as zonas afectadas pelos incêndios, Pedro Marques ameaçou estar em processo de crescimento político. Curiosamente, Paulo Rangel teve necessidade de atacar directamente Marques e todo o seu legado político desde que entrou pela primeira vez num governo. É claro que o patinho feio (politicamente falando) não se transformou em cisne – mas sabe-se lá.