Editorial

O insuportável peso do tempo

O tempo que demorou a responder ao desafio de António Costa acabou por comprometer a mensagem de Rui Rio.

Quando Rui Rio foi eleito líder do PSD, foram muitos os que esperaram que ele desatasse “a fazer oposição”. Mas Rio, que sabia que se iria pôr a jeito da oposição interna e de uma imprensa lisboeta pouco amigável, optou por se resguardar. Foi gerindo o tempo, esperando por melhores condições para agir.

Quem o conhece sabe que é uma das suas qualidades políticas, a de não obedecer ao tempo mediático, necessariamente fugaz, e de preferir gerir o seu calendário, o que reforça a imagem de homem austero e ponderado. Mas o que é verdade para um tempo distendido aplica-se mal quando a política está a ferver.

O tempo que demorou a responder ao desafio de António Costa acabou por comprometer a credibilidade da mensagem de Rui Rio. Seria razoavelmente diferente se tivesse esgrimido o travão financeiro na sexta-feira. Haveria, então, melhor terreno para explorar as contradições dos socialistas e para fazer os portugueses acreditar que tinha sido surpreendido pelo facto de o PSD ter aprovado um texto que, alinhado com PCP, BE e CDS-PP, consagrava uma medida que, a ser aplicada, representa uma insuportável carga orçamental estrutural.

Com a resposta dominical fica a ideia de que teve de estudar e reponderar como se livrar de um “acto de desnorte político” e tornou complicado explicar por que razão, afinal, o PSD aceitou votar, na quinta-feira, um documento sem as condicionantes económicas ou mesmo porque é que elas são precisas, se, afinal, não representam uma pesada carga estrutural para o Orçamento. E não, não chega virar as costas aos jornalistas para achar que as perguntas perdem validade.

Quanto a Assunção Cristas, convém olhá-la com alguma abertura de espírito, porque, neste momento é natural que encontremos a sua cabeça debaixo do sovaco e uma perna atrás da nuca, tal o nível de contorcionismo dos últimos dias.

Depois de se ter encostado às esquerdas que tanto gosta de verberar e perante a ameaça de demissão do primeiro-ministro veio, tonitruante, dizer que não havia razão para uma crise, acusando o Governo de “montar uma fantochada” e garantindo que não havia “aumento de um cêntimo no Orçamento” porque só se estabelecia um direito mas não um calendário (!?). Até ontem, sobre as condicionantes da necessidade de crescimento económico e sustentabilidade financeira do país nem sequer uma palavra. Afinal, era o que fora esquecido nas negociações de quinta-feira passada.

Para acreditarmos nas palavras dos dois líderes de que não houve recuo vamos ter recorrer a outra arte circense, a do ilusionismo, que faça desaparecer a triste figura que fizeram nestes dias e que os perseguirá ainda durante algum tempo. 

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