Editorial

A tragédia dos CTT

O que o governo de Passos Coelho fez ao decidir a privatização dos CTT foi criminoso. Esse crime foi prosseguido placidamente pelo actual. O que vai acontecer a seguir? Zero. Zerinho. Nem uma cartinha, nem um bilhete-postal.

O Estado não pode proibir as pessoas de abandonarem o interior e organizarem as suas vidas onde bem entenderem. Mas torna-se culpado da tragédia que é a desertificação de metade do país quando toma decisões incompreensíveis à luz de critérios económicos e totalmente repelentes em termos sociais, de protecção aos mais vulneráveis e de igualdade territorial.

O que Sócrates fez, ao colocar a privatização dos CTT no memorando da troika, a que depois o governo de Passos Coelho deu seguimento ao vender uma empresa pública que dava lucro – e que continua a distribuir dividendos alegremente, apesar de fechar balcões – foi criminoso. Esse crime, formalizado pelo anterior Governo, foi prosseguido placidamente pelo actual – que é o Governo mais à esquerda que já existiu em Portugal, descontando o período revolucionário.

Um Governo formado pelo PS e com o apoio parlamentar do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda foi incapaz de reverter a privatização e consequente extinção de balcões dos Correios nas zonas onde o seu papel social era mais necessário. Pactuou, de facto, com o agravamento da desigualdade entre os portugueses, ao manter uma privatização que atingiu os mais velhos, os mais pobres e os mais isolados.

António Costa sempre disse que não iria reverter a privatização – ao contrário do que veio a acontecer com a TAP, isso nunca lhe passou pela cabeça. Há agora vários dirigentes socialistas a pressionar o primeiro-ministro para fazer alguma coisa: a todo-poderosa Federação do Porto, o PS/Algarve, o PS da Guarda. “O PS deve reconhecer a importância decisiva do serviço postal e isso só pode ser conseguido com a intervenção pública”, diz Manuel Pizarro, costista indefectível. Tiago Barbosa Ribeira, o deputado socialista responsável pelas questões do Trabalho, acusa a administração dos CTT de agir “de forma gulosa e selvagem”.

E agora? E agora, batatas. O coordenador da Economia da bancada parlamentar do PS reconhece ao PÚBLICO que era preciso licença de Bruxelas para fazer alguma coisa – já que os CTT agora são um banco. E mesmo reconhecendo que gostaria de fazer alguma coisa, reconhece a causa como perdida. Bloco, PCP e “Os Verdes” estiveram desde o início contra a privatização e vão insistir em nova votação. Mas não têm maioria – ou a maioria de esquerda não chega para isto.

Não se vai fazer nada. Zero. Zerinho. Nem uma cartinha, nem um bilhete-postal. O Governo de esquerda ou “das esquerdas” – como gosta a direita de dizer - ficará co-responsável pelo desastre.