Opinião

Ano eleitoral (2)

Desde 1995, os partidos do regime perderam 1,3 milhões de votos. Nem todos foram diretamente para a abstenção.

1. No artigo anterior, abordei as eleições europeias como grande sondagem para as eleições legislativas. Por um lado, todos os partidos parlamentares (com a notável exceção da CDU, que defende três mandatos) partem de resultados muito baixos, pelo que dificilmente podem perder mandatos (existem dois mandatos de Marinho Pinto para redistribuir). Por outro lado, em termos de antevisão de tendências eleitorais, a atenção deve estar no volume de votos. Para o PS, a grande questão é saber se a gestão dos últimos quatro anos permite ao partido passar do patamar do milhão de votos (onde está desde 2009) e regressar aos valores anteriores (próximos do limiar do milhão e meio), abrindo portas a um bom resultado nas legislativas. Já à direita (PSD, CDS, Aliança e outros novos partidos), o tema fundamental é a distribuição do milhão e pouco de votos que venham a ter.

2. Antes de olharmos para as eleições legislativas, importa contextualizar as grandes linhas de evolução das últimas décadas. Alguns números em que tenho insistido bastante nas minhas intervenções públicas podem ser verificados na tabela. Desde 1995 (legislatura em que começa a longa estagnação da economia portuguesa), os partidos do regime (PS, PSD e CDS) perderam 1,3 milhões de votos. Nem todos foram diretamente para a abstenção. “Apenas” 500 mil. Os cinco partidos parlamentares (PS, PSD, CDS, CDU e Bloco) perderam cerca de 850 mil votos desde 1995, isto é, facilmente percebemos que o Bloco assimilou uma parte substancial do voto de protesto. Ao mesmo tempo, os brancos e os nulos subiram 100 mil votos. E cerca de 300 mil votos foram para os pequenos partidos (incluindo o PAN). Consequentemente, o pano de fundo das eleições legislativas de 2019 será a possível confirmação destes números – os partidos do regime vão continuar a perder votos e aproximar-se dos 3,5 milhões ou invertem a tendência negativa observada desde 2002? Os cinco partidos parlamentares também vão continuar a perder votos ou invertem a trajetória verificada desde 2005? E os pequenos e novos partidos superarão os 400 mil votos e aumentam a sua representação parlamentar?

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3. A derrota de Costa em 2015 é fácil de entender – a direita perdeu mais de 700 mil votos, mas o PS apenas recuperou cerca de 200 mil. A aposta prioritária e imediata para 2019 parece ser, logicamente, o regresso ao patamar dos dois milhões de votos. Se pensarmos que as sondagens indicam neste momento 37-40% para o PS e supondo que votam cerca de 5,3 milhões de eleitores (mantendo as tendências abstencionistas do passado), estima-se que o voto do PS ande realmente na casa dos dois milhões, talvez 2,1 milhões. Um aumento de uns 300 mil eleitores. Esse resultado recoloca o PS nos valores de 2009 (quando Sócrates perdeu a maioria absoluta) e de 2002 (derrota de Ferro Rodrigues para Durão Barroso). Assegurar uma maioria absoluta pediria qualquer coisa como 2,4 milhões de votos, um número quase impensável sem uma transferência importante de votos do Bloco e da CDU, algo muito pouco provável nesta altura. Outra questão é que os 2,1 milhões de votos possam deixar o PS muito próximo da maioria absoluta em virtude da desproporcionalidade do sistema eleitoral e do afundamento do PSD, tema que já abordei em artigos anteriores.

4. A esquerda do PS tem problemas eleitorais algo distintos. A CDU apenas tem de fixar os seus habituais 450 mil eleitores, coisa que as sondagens parecem confirmar. Já o Bloco, depois do caso Robles, terá de saber manter a combinação do seu voto fiel altamente minoritário (perto de 150 mil eleitores) e o voto de protesto (outros 400 mil eleitores). As sondagens indicam uma ligeira quebra, expectável, mas nada que seja realmente muito significativo neste momento. Longe parecem ficar as possibilidades de crescer e chegar ao milhão de votos.

5. As eleições de 2019 são paradoxais para a direita. Por um lado, parte de um dos seus piores resultados eleitorais (apenas 2,1 milhões de votos em 2015, tal como em 2005). Portanto, a expectativa seria de que só pode subir. Mas não. Todas as sondagens apontam para uma perda de outros 300 mil eleitores (que possivelmente alimentam o PS). Pela primeira vez, a direita pode ficar abaixo dos dois milhões, uma verdadeira derrota histórica. Por outro lado, a grande incógnita é a divisão desses quase dois milhões de votos entre o PSD, CDS e os novos partidos entretanto surgidos. As sondagens indicam que o CDS dificilmente chega aos 650 mil votos (os estudos mais otimistas apontam para uns 500 mil votos). O PSD (agora em total ebulição interna) arrisca a ficar abaixo dos 1,65 milhões de votos (mínimos históricos), com as sondagens a apontar para qualquer coisa como 1,3 milhões nos melhores cenários.

6. A grande incógnita são mesmo os pequenos partidos e os novos partidos. Os seus resultados nacionais são pouco relevantes, como facilmente podemos ver na tabela. Apesar de terem subido de menos de 100 mil votos em 1995 para quase 400 mil votos em 2015, apenas o PAN colocou um deputado na Assembleia da República. Parece-me, em consequência, que apenas uma análise dos eleitorados de Lisboa e Porto nos pode dar uma ideia mais exata das reais possibilidades de novos partidos na próxima legislatura.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico​