Opinião

Ano eleitoral (1)

PS, PSD, CDS e Bloco partem de um número de mandatos tão baixo que muito dificilmente terão piores resultados em 2019 do que em 2014.

1. Sabemos que 2019 é um ano eleitoral completo – europeias em maio, legislativas e regionais madeirenses em outubro. E, num momento que as democracias consolidadas por toda a Europa enfrentam desafios importantíssimos, estes atos eleitorais são um teste notável ao Governo, aos partidos que viabilizaram a solução parlamentar da legislatura que agora termina, à oposição, ao próprio regime.

2. As eleições europeias em maio assumem-se inevitavelmente como uma grande sondagem para as legislativas de outubro. Por muito que algumas vozes venham a insistir nos temas europeus e no processo complexo em que se encontra a União Europeia, a verdade é que todos os partidos querem usar a mobilização eleitoral antes do Verão como ponto de partida para o que realmente importa politicamente – o exame eleitoral de outubro. E há boas razões para isso – talvez com exceção da CDU, todos os partidos podem facilmente usar os resultados europeus para a sua propaganda. Como podemos facilmente concluir da Tabela 1, PS, PSD, CDS e Bloco partem de um número de mandatos tão baixo que muito dificilmente terão piores resultados em 2019 do que em 2014. Apenas a CDU teve um bom resultado em 2014 e arrisca perder um mandato nestas eleições. Mesmo que o PAN ou os novos partidos (Aliança, Iniciativa Liberal ou outras novas forças partidárias que ainda apareçam) consigam a proeza, implausível, de eleger dois deputados (substituindo, assim, Marinho Pinto), os partidos do regime partem de uma posição tão débil que será fácil cantar vitória na noite eleitoral e acarinhar as habituais claques.

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3. E, no entanto, se olharmos para o número de votos obtidos, as análises complicam-se bastante mais. Primeiro, será necessário confirmar se o número de eleitores estabiliza nos 3,3 milhões de 2014 (eventualmente, subindo como aconteceu em 1999 e 2009, anos em que as europeias antecederam as legislativas) ou se cai para os três milhões de 1994 (ou ainda menos). Depois, deveremos atender a tendências. Como podemos facilmente ver na Tabela 2, os partidos estruturantes do regime (PS, PSD e CDS) apresentam uma perda progressiva de votos desde 1999, tendo atingido o seu mínimo em 2014 (note-se, por exemplo, que ficaram pela primeira vez abaixo dos dois milhões de votos e longe do resultado de 1994, ano com a menor participação eleitoral). Genericamente, a mesma análise se aplica aos cinco partidos – ficarão de novo significativamente abaixo dos três milhões de eleitores ou conseguem recuperar os votos perdidos para Marinho Pinto em 2014?

4. Para o PS, a grande questão é saber se a gestão dos últimos quatro anos permite ao partido passar do patamar do milhão de votos (onde está desde 2009) e regressar aos valores anteriores (próximos do limiar do milhão e meio de votos). Se isso não acontecer em maio (fazendo fé nas sondagens, é o cenário mais provável neste momento), o PS dificilmente chegará aos 40% em eleições legislativas, muito menos a uma maioria absoluta.

5. Já a direita (PSD, CDS e Aliança) enfrenta dois desafios importantes. Primeiro, saber se, em conjunto, ficam também claramente acima do milhão de votos, como em 2009 (ambição que parece muito longe neste momento). Segundo, verificar se a distribuição do milhão e pouco de votos que venham a ter favorece o PSD (que sozinho nunca ficou abaixo do milhão de votos), o CDS (ultrapassando os tradicionais 300 mil votos) ou a Aliança (que, para eleger Paulo Sande, precisará de qualquer coisa como 120 mil votos). Aliás, atendendo a sondagens disponíveis, a distribuição de votos entre as forças da direita parece ser a única questão em dúvida neste momento. 

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O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico  

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