Igreja Católica diz que candidato da oposição ganhou eleições no Congo

Uma semana depois das presidenciais que marcam a saída de Kabila do poder, ao fim de 18 anos, as esperanças de transição pacífica são escassas.

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A contagem dos votos na República Democrática do Congo tem-se arrastado BAZ RATNER / Reuters

A Igreja Católica da República Democrática do Congo considera já saber quem ganhou as eleições presidenciais, realizadas dois anos depois do previsto e após muita turbulência: o candidato da oposição, Martin Fayulu, um gestor petrolífero formado nos Estados Unidos e em França, e não Emmanuel Ramazani Shadary, o pouco conhecido ministro do Interior, que parece ter sido escolhido a dedo por Joseph Kabila para o substituir nestas eleições a que não se apresenta, após 18 anos no poder. 

O que é complicado nisto é que os resultados oficiais ainda não saíram e é pouco provável que sejam divulgados no domingo, como estava inicialmente previsto, avisou a Comissão Eleitoral.

A Igreja Católica, provavelmente a instituição com maior credibilidade no país - cerca de 40% dos congoleses são católicos -, não anunciou directamente o vencedor. Mas disse ter feito um apuramento paralelo dos votos que indicou um vencedor claro, sem revelar o nome. Só que várias fontes diplomáticas ocidentais - e fontes do regime de Kabila, e da própria Comissão Eleitoral, considerada próxima do Presidente cessante, confirmam que Fayulu é o vencedor na contagem da Igreja, diz o New York Times.

“Foi um sinal claro para o regime para não tentar manipular demasiado os resultados”, disse ao PÚBLICO o professor da Universidade de Antuérpia Kristof Titeca, por telefone. O investigador belga  antevê um “impasse” entre o regime de Kabila e a igreja.

EUA com tropas no Gabão

O ambiente é de forte tensão e desconfiança, e o regime dá sinais numa direcção já conhecida pelos congoleses – o conflito. Há vários dias que foi bloqueado o acesso à Internet, bem como o sinal da Radio France Internacional (RFI), sob o pretexto de ter divulgado ilegalmente resultados. A rádio, que também viu a acreditação da sua correspondente em Kinshasa revogada, negou as acusações.

Os resultados deveriam ser revelados no domingo, mas a comissão eleitoral (CENI) avisou que é possível que haja atrasos na contagem dos votos. Na quinta-feira, o director da comissão Corneille Nangaa dizia que ainda aguardava o envio de 80% dos boletins de voto pelas comissões nas províncias.

Na sexta-feira, as Nações Unidas deixavam um derradeiro aviso para o barril de pólvora em formação. “Sendo este um período muito sensível e muito tenso, estamos preocupados que estes esforços para calar a discórdia possam fazer ricochete quando os resultados forem anunciados”, afirmou a porta-voz do Alto-Comissariado para os Direitos Humanos, Ravina Shamdasani. Os EUA enviaram tropas para o vizinho Gabão, que poderão intervir se houver violência, anunciou o Presidente Donald Trump.

Ao longo da sua turbulenta e sangrenta história, o Congo, um gigante africano com 80 milhões de habitantes, nunca teve uma transferência de poder pacífica. Muitos esperavam que a saída de cena de Joseph Kabila, ao fim de 18 anos, pudesse ser esse momento. Mas o grande receio é de que o regime esteja a preparar-se para manipular os resultados em favor do seu candidato, Emmanuel Shadary.

O dia das eleições correu de forma “razoável”, de acordo com os observadores enviados por organizações regionais – missões da União Europeia e dos EUA foram excluídas. Não houve registo de confrontos, mas foram denunciados vários problemas organizacionais, como a abertura tardia de locais de voto e intimidação de eleitores. Mas mais relevante é o contexto em que as eleições acontecem, “que não foi livre nem justo”, disse Kristof Titeca.

Moise Katumbi e Jean-Pierre Bemba, dois dos principais líderes da oposição, foram impedidos de participar nas eleições “com acusações bastante duvidosas”, afirma Titeca. Além disso, o voto foi proibido em duas regiões devido ao surto de ébola e de episódios de violência étnica, deixando mais de 1,2 milhões de eleitores privados de votar. Ambos os locais são descritos pelo especialista como “bastiões da oposição”.

Imprevisibilidade

Antecipar qualquer desfecho será um exercício arriscado. “No Congo tudo é imprevisível”, avisa Titeca, notando que o desenrolar dos acontecimentos depende de “quão longe a coligação no poder quiser ir para impor o seu candidato”.

Shadary, um ministro pouco carismático, não passa de um “plano B” congeminado por Kabila depois de se ver obrigado a ceder o poder. O seu objectivo inicial era imitar vários líderes africanos que se mantiveram como Presidentes para além da limitação constitucional de dois mandatos. "Kabila procurou uma sucessão de estratégias para adiar as eleições”, diz Titeca.

A pressão internacional e os protestos violentos nas ruas de Kinshasa obrigaram Kabila a alterar os seus cálculos e, em Agosto, anunciou finalmente que iria abandonar o poder e apresentou Shadary como candidato da Frente Comum pelo Congo, a coligação governamental. Shadary é pouco conhecido e nem sequer era um membro destacado da elite próxima de Kabila, mas “foi escolhido por ser relativamente fácil de controlar”, afirma Titeca.

Ao longo de quase duas décadas, Kabila montou um sistema de enriquecimento pessoal e do seu círculo próximo, não hesitando recorrer a métodos violentos sempre que o seu poder foi ameaçado. O exemplo mais recente foram os protestos populares contra o adiamento das eleições no final de 2017 reprimidos à força pelas autoridades policiais em que vários manifestantes morreram – Shadary era o ministro do Interior na altura e desde então é alvo de sanções internacionais.

“O regime de Kabila envolveu-se em todo o tipo de negócios e o seu círculo próximo também participa nisso. É por isso que é complicado deixar o poder, porque há estes sistemas económicos e políticos que servem a elite”, explica o investigador da Universidade de Antuérpia.

Apesar da imprevisibilidade, Titeca diz ser "improvável que o regime esteja disposto a deixar o poder", mesmo perante a recriminação internacional. Um dos sinais foi a expulsão do embaixador da UE em Kinshasa, por causa das sanções. "A mensagem do regime é: 'somos um país soberano, fazemos o que queremos e a pressão internacional não terá impacto sobre nós'."

Oposição dividida

A oposição a Kabila é encabeçada por Martin Fayulu, um empresário do sector petrolífero, e por Felix Tshisekedi, filho de um antigo líder oposicionista, e ambos são mais populares do que Shadary. As negociações para que os vários grupos de oposição apresentassem uma plataforma conjunta falharam, apesar dos apelos de personalidades como Jean-Jacques Lumumba, sobrinho neto de Patrice Lumumba, um dos ícones da luta pela independência.

“Não cometam mais um erro do que os que já foram cometidos até agora, porque o povo mostrou-nos que quer uma ruptura com a governação corrupta, a predação e a destruição, contra a qual estamos todos em vias de pagar com as nossas vidas”, escreveu Lumumba na revista Jeune Afrique.

Porém, mesmo uma transição pacífica e a ascensão de um novo líder podem não ser suficientes para travar a instabilidade que marca o Congo desde a independência. “O Congo tornou-se o arquétipo do caos e do conflito”, descreve Titeca.

A Leste, as Forças Aliadas Democráticas, um grupo rebelde islamista, continuam a espalhar violência e a impedir o controlo do Estado sobre parte do território. A corrupção sistémica instalada pelo regime de Mobutu e aprimorada por Kabila trava o desenvolvimento económico de um dos países mais ricos de África em recursos naturais.

É no Congo que estão metade das reservas mundiais de cobalto, um minério utilizado no fabrico de baterias para telemóveis, para além de grandes depósitos de cobre, ouro e diamantes. O potencial para a exploração petrolífera também é elevado, mas está praticamente inutilizado. Titeca diz que o Congo poderia tornar-se no segundo maior produtor em África, destronando Angola, mas nenhuma grande empresa está disposta a correr os riscos decorrentes da instabilidade.

“Estas eleições não mudam muita coisa, apenas confirmam a instabilidade e o perigo de investir no Congo”, conclui o especialista.