Liberais contra a "geringonça" juntam-se para a semana

Primeiro lançaram um movimento e para a semana chega uma convenção recheada de dirigentes e ex-dirigentes do PS, PSD, CDS e de outros partidos e movimentos de centro direita e da direita.

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Nelson Garrido

O centro-direita e a direita estão a agitar-se neste início de ano de três eleições e para a semana vão juntar dezenas de nomes que não se revêem na governação actual numa convenção em Lisboa, iniciativa do Movimento Europa e Liberdade. A convenção terá como oradores líderes de partidos à direita do PS, dirigentes, ex-dirigentes e socialistas como Francisco Assis e Luís Amado. Rui Rio foi convidado, mas não respondeu ao convite. Presentes estarão muitos dos seus críticos, desde Pedro Duarte, Miguel Morgado ou Luís Montenegro.

Ao PÚBLICO, o presidente do MEL, Jorge Marrão, assegura que há uma "total independência em relação a partidos do poder" e que o movimento quer promover "o debate" entre pessoas de diferentes ideologias de centro. Na prática, resume "defendemos que não há alternativa democrática e reformista ao centro" e que essa "ausência de reformas cria uma tensão no sistema" que pode levar ao aparecimento de populismos. E por isso quis juntar várias personalidades, todas do PS para a direita, porque, acrescenta "o centro político tem de debater a nova realidade e está a faltar imaginação nas políticas públicas".

"Quero que fique muito claro que não somos de forma nenhuma uma vaga de fundo", respondeu quando questionado pelo PÚBLICO se sentia que o MEL, tendo em conta os actores que convidou para a convenção, pudesse ser entendido como uma onda de apoio a algum partido. 

Tudo começou num manifesto que um grupo de 74 nomes, não conhecidos, lançou em Maio. Depois do manifesto, foi um pequeno salto até nascer o Movimento Europa e Liberdade (MEL), que tem na sua origem os mesmos dirigentes do think tank Associação Missão e Crescimento. Os dinamizadores dizem que não querem ser um partido, mas vão juntar na "1ª Convenção Europa e Liberdade" na Culturgest nos dias 10 e 11 de Janeiro, vários políticos da praça. A começar pelos líderes de partidos, lá estarão Assunção Cristas (CDS), Pedro Santana Lopes (Aliança), Carlos Guimarães Pinto (Iniciativa Liberal). 

E também estarão ex-líderes de partidos como Paulo Portas e Ribeiro e Castro (CDS) e Marques Mendes (PSD). Quem faltou à chamada foi Rui Rio, que não está entre os oradores apesar de ter sido convidado. Já muitos dos seus críticos, como Luís Montenegro, Pedro Duarte e Miguel Morgado, serão três dos convidados dos oito painéis de debate durante os dois dias.

Do lado dos socialistas, chegou a estar prevista a presença de António José Seguro, como avançou a revista Visão, mas o ex-secretário geral do PS não aceitou. Estarão presentes o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado e o ex-líder parlamentar e eurodeputado Francisco Assis.

Num comunicado enviado às redacções na quarta-feira, os promotores do movimento dizem que o objectivo é "preparar um caminho de futuro para 'Portugal, duma sociedade dependente para uma sociedade competitiva'" e que a ideia foi juntar vários "especialistas, jovens, académicos e representantes de partidos, tendências, ideologias, ou simples cidadãos com ideias de como Portugal poderia e deveria evoluir".

No Facebook, o apelo foi mais directo. Jorge Marrão, o presidente do MEL que promove esta convenção, partilhou uma notícia do jornal Observador dando conta do evento e falou directo aos críticos do Governo. "Apelamos a todos que não se revejam num governo apoiado por comunistas, trotskistas, extrema-esquerda e novos oportunistas da situação a estarem presentes para se debater o futuro de Portugal de forma diferente com mais liberdade, oportunidades e mais e melhor Europa".

Foram estas palavras escritas por Jorge Marrão que levaram Paulo Trigo Pereira, deputado eleito nas listas do PS que entretanto se tornou independente, a desistir de participar na conferência. Para Paulo Trigo Pereira estas declarações mostram que o evento se tornou num "evento eminentemente político de crítica e combate ao governo". "Como é sabido sou um apoiante, apesar de crítico, deste governo do PS. Dado o carácter não plural e a excessiva politização do evento considero a minha participação não apropriada pelo que lastimo mas não estarei presente no mesmo", escreveu aos organizadores.

Quem são os dinamizadores?
Jorge Marrão e Paulo Carmona são os dois nomes que dinamizam e dão a cara pelo movimento, mas são também, respectivamente, os presidentes do conselho geral e da direcção da Associação Missão Crescimento, um think tank de onde nasce o MEL, que junta nomes como Daniel Proença de Carvalho, Luís Braga da Cruz, Esmeralda Dourado ou Álvaro Nascimento, antigo chairman da CGD e recentemente nomeado para liderar o conselho consultivo da Entidade Reguladora de Águas e Resíduos (ERSAR).

Jorge Marrão é sócio da Deloitte e o principal nome do Movimento que foi lançado em Maio. O MEL começou por um manifesto de 74 pessoas, promovido na altura por Rui Ramos como Manifesto Europa e Liberdade. Na sua primeira reunião pública, em Julho, Marrão explicou aos jornalistas que a ideia era falar com a sociedade civil e com a sociedade política.

O manifesto partia de cinco princípios básicos: O crescimento do rendimento das famílias, a necessidade de um "horizonte estratégico estável e sustentável", a "integração europeia como motor da configuração portuguesa", "um combate à captura de interesses" e por fim "a resposta de Portugal aos desafios das novas competências e das desigualdades".

Paulo Carmona tem a vida profissional na área da energia. Foi presidente da Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis, entre 2013 e 2016, escolhido na altura do Governo de Passos Coelho. O organismo que fiscalizava o mercado de combustíveis foi extinto pelo Parlamento, por proposta do PCP, com apoio do PS e do BE, mas a decisão teve de ser tomada pelo Governo, uma vez que esta entidade dependia do Executivo, transformando-se na Entidade Nacional do Sector Energético (ENSE). No currículo tem passagem pela administração da Martifer e foi CEO da Prio Bio.

Nota: Artigo actualizado às 17h56 com declarações de Jorge Marrão, com a informação corrigida que António José Seguro não aceitou o convite, e não que desmarcou depois de ter dito que sim e com as declarações de Paulo Trigo Pereira a explicar a sua desistência.