Assis e Trigo Pereira desistem de participar em iniciativa da direita e centro-direita

O eurodeputado Francisco Assis diz que não quer fazer parte de uma iniciativa entendida como "uma espécie de estados-gerais do centro-direita, tendo em vista a afirmação de um projecto alternativo de poder".

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Assis diz que participar neste evento pareceria "esquizofrenia política" Rui Gaudencio
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Paulo Trigo Pereira demarca-se do que considera um evento de "combate ao Governo" Daniel Rocha

Entre os cerca de 30 oradores da convenção Europa e Liberdade que se vai realizar na próxima semana estavam três socialistas. Francisco Assis e Paulo Trigo Pereira desistiram de participar no evento por considerarem que ele perdeu o seu carácter plural e se tornou num evento com pretensões político-partidárias.

"Teria todo o gosto em participar no debate aberto, plural e alheio a qualquer tipo de preocupação político-partidária sobre o importante tema do futuro da Europa que me foi proposto. Não posso, como é por demais evidente, participar num encontro que passou a ser publicamente anunciado como uma espécie de 'estados gerais' do centro-direita, tendo em vista a afirmação de um projecto alternativo de poder", escreveu Francisco Assis numa carta enviada aos organizadores. 

Para o socialista, a desistência de participação num evento entendido por ter uma natureza político-partidária tem "razões tão simples quanto inultrapassáveis" e como principal barreira está o facto de Assis não ser de centro-direita. "Não faço parte do centro-direita português e nunca reneguei a minha condição de homem da esquerda democrática e de militante do PS. Como tal, uma eventual participação minha num evento com as características agora publicitadas só poderia ser entendido como um acto de pura esquizofrenia política", escreveu.

Na sua nota, o eurodeputado eleito pelo PS, diz que a sua decisão foi tomada não só pelas notícias que foram saindo sobre o encontro de várias personalidades do centro-direita e da direita contra o Governo, como pode ler aqui, mas também por declarações de Jorge Marrão, presidente do Movimento Europa e Liberdade (MEL), o promotor da convenção.

Jorge Marrão fez um apelo directo no seu Facebook. "Apelamos a todos que não se revejam num governo apoiado por comunistas, trotskistas, extrema-esquerda e novos oportunistas da situação a estarem presentes para se debater o futuro de Portugal de forma diferente com mais liberdade, oportunidades e mais e melhor Europa".

Foram estas palavras escritas por Jorge Marrão que levaram Paulo Trigo Pereira, deputado eleito nas listas do PS que entretanto se tornou independente, a desistir de participar na conferência. Para Paulo Trigo Pereira estas declarações mostram que o evento se tornou num "evento eminentemente político de crítica e combate ao Governo". "Como é sabido sou um apoiante, apesar de crítico, deste Governo do PS. Dado o carácter não plural e a excessiva politização do evento considero a minha participação não apropriada pelo que lastimo mas não estarei presente no mesmo", escreveu aos organizadores.

Em declarações ao PÚBLICO, Jorge Marrão recusou esta visão partidária do evento. "Há uma total independência em relação a partidos do poder", disse, reforçando que o que o movimento quer é promover "o debate" entre pessoas de diferentes ideologias de centro. "Defendemos que não há alternativa democrática e reformista ao centro" e que essa "ausência de reformas cria uma tensão no sistema" que pode levar ao aparecimento de populismos. E por isso quis juntar várias personalidades, todas do PS para a direita, porque, acrescenta "o centro político tem de debater a nova realidade e está a faltar imaginação nas políticas públicas".

"Quero que fique muito claro que não somos de forma nenhuma uma vaga de fundo", respondeu quando questionado pelo PÚBLICO se sentia que o MEL, tendo em conta os actores que convidou para a convenção, pudesse ser entendido como uma onda de apoio a algum partido.