Turismo vai continuar a crescer acima da economia portuguesa

Exportações vão ultrapassar a fasquia dos 20 mil milhões de euros em 2021, mais cinco mil milhões de euros do que em 2017, chegando a 9,3% do PIB. Estudo do Banco de Portugal alerta que horizonte não está isento de riscos.

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"Previsível aumento da intensidade turística traz óbvias vantagens para a economia do país mas coloca também desafios” diz o BdP Nuno Ferreira Santos

O Banco de Portugal prevê que as exportações do turismo tenham um peso cada vez mais preponderante na economia portuguesa, chegando aos 9,3% do PIB em 2021, quando no ano passado estava nos 7,8%. Em valor, isso quererá dizer que dentro de três anos será superada a fasquia dos 20 mil milhões de euros, mais cinco mil milhões de euros do que em 2017, ano que ficou marcado por um forte crescimento do sector.

Ainda assim, a previsão é a de um abrandamento à medida que o calendário for passando: depois do recorde de 14,5% em 2017, em 2021 o crescimento do peso na economia deverá ser de 2,6% (chegando então aos 9,3% do PIB). A informação consta de uma análise incluída no boletim económico de Dezembro, divulgado oficialmente esta terça-feira, intitulada "Exportações de turismo: desenvolvimentos recentes e perspectivas futuras".

No documento, o Banco de Portugal (BdP) antecipa que, este ano, as exportações de turismo cheguem aos 16,8 mil milhões, o que equivale a 8,4% do PIB. No início da década, em 2010, ano em que começou o actual ciclo de crescimento, as exportações valiam metade: 4,2%.

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Com este crescimento, superior ao do resto da economia portuguesa, as vendas deste serviço junto do exterior (captando turistas e receitas em concorrência com os outros mercados) tornam-se também mais importantes para o financiamento do país.

De acordo com a análise do Banco de Portugal, o saldo comercial da rubrica de viagens e turismo, positivo, tem vindo a crescer (5,6% do PIB em 2017). Já o mesmo não se pode dizer da balança corrente e de capital, positiva, mas que decresceu em 2017 (de 1,6% para 1,4% do PIB). Se se retirasse o turismo da equação, o saldo geral passava mesmo para terreno negativo (-4,2%).

Olhando para os números deste ano que já estão disponíveis, até Setembro, as exportações de turismo iam nos 12,8 mil milhões de euros, o que representa 53% dos serviços e 22,8% do total das vendas ao exterior (incluindo bens).

Sobre a importância do sector para a economia nacional, o INE deu conta esta segunda-feira de que a procura turística total (consumo por parte de estrangeiros e também de residentes) subiu para os 26,7 mil milhões de euros em 2017, chegando aos 13,7% do PIB (1,2 pontos percentuais acima do ano anterior).

Preços a subir

Os dados do banco central mostram que Portugal tem ganho quota de mercado, crescendo acima do sector (com o turismo a registar uma subida a nível global) e de concorrentes como Espanha ou Grécia, e que isso não tem sido feito à custa do factor preço (que tem subido, e a um ritmo superior ao de Espanha, por exemplo, embora vários intervenientes destaquem que a base de preços era baixa).

Se é verdade que o país beneficiou da instabilidade de mercados como Egipto, Tunísia e Turquia, a comparação com outros países do Mediterrâneo europeu mostra, segundo o estudo, que o dinamismo se deve “a outros factores par além do clima de insegurança em mercados concorrentes”.

De acordo com os cálculos apresentados, a receita média por turista está mesmo acima do valor registado em Espanha e Itália, tal como a receita média por dormida. O cálculo, feito com base nas exportações para o período de 2010 a 2017, incidia um “aumento da percepção de qualidade e valor acrescentado dos serviços oferecidos pelos operadores turísticos nacionais”, destaca-se.

O crescimento tem feito mudar alguns aspectos do sector, com uma menor sazonalidade e maior diversificação geográfica (Agosto passou de 14% do total em 2010 para 12,6% em 2017, com reforço do turismo de cidade e o de negócios, visível na descida do peso do Algarve e subida de Lisboa). Há, também, uma maior diversificação em termos de mercados emissores (menos britânicos e espanhóis e mais brasileiros e norte-americanos).

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Low cost perderam terreno

A oferta hoteleira também tem subido, com destaque para a região norte e Lisboa, ao mesmo tempo que surgiu o alojamento local. De acordo com o BdP, os hotéis, “que têm associado um maior gasto diário, ganham peso no total de dormidas”, passando de 57% em 2010 para 60% em 2017, “em particular os de categoria superior”. À hotelaria juntou-se o alojamento local (AL), que cresceu de forma exponencial devido a plataformas como o Airbnb. No ano passado, mostram os dados do BdP, havia perto de 500 mil camas disponíveis, das quais 19% eram de AL.

A oferta do transporte aéreo também tem ajudado ao crescimento do turismo, com uma maior presença de companhias low cost. Mas, em 2017, e pela primeira vez, as low cost perderam quota de mercado para as companhias bandeira, ao passarem de 46% para 45% (detinham 36% em 2010). A explicação para os dados do BdP pode estar relacionada com os cancelamentos da Ryanair no final do ano e com o reposicionamento da TAP na sequência da privatização, incluindo-se aqui a ponte área Lisboa-Porto.  

Há espaço para mais turistas

Portugal, destaca o banco central, “tem um sector turístico relativamente competitivo”, recordando que o país ocupa hoje a 14ª posição no ranking do World Economic Fórum. E se se olhar para factores como a intensidade do turismo – chegadas de turistas em percentagem de população – e o peso do sector em termos macroeconómicos, a análise defende que Portugal está ainda “ligeiramente abaixo da média da Europa do Sul/Mediterrânea”, o que indicia margem de crescimento. No caso da intensidade turística, Portugal está nos 108,7% quando a média é 154% (com casos como o da Croácia, com 330%, e o de Marrocos, com 29%).

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Aqui, o tema levanta alguma polémica, ligada à elevada pressão turística em algumas zonas. Por parte do BdP, este avisa que “o previsível aumento da intensidade turística traz óbvias vantagens para a economia do país mas coloca também desafios”, como o “risco de hostilidade por parte dos habitantes locais, a deterioração da experiência turística e a degradação do património natural, cultural e histórico”. Estratégia? Acentuar a tendência de dispersar os visitantes pelo conjunto do ano e pelo território do país.

Riscos e incertezas

O horizonte positivo para o sector nos próximos anos não está isento de “incerteza e riscos”, ressalva o BdP. Entre os factores de alerta inclui-se alterações na conjuntura internacional e a tendência de recuperação de concorrentes, muito assente no factor preço. Ao nível das recomendações, o BdP aposta no aumento da qualidade e do valor acrescentado dos serviços “para fidelizar os visitantes e para um aumento da receita por turista”, na diminuição da sazonalidade e dispersão territorial.

Já o investimento em infra-estruturas de transporte “não deve ser descurado, evitando a criação de estrangulamentos”, no que se entende como uma referência aos constrangimentos actuais do aeroporto de Lisboa. O estudo defende ainda que “o quadro regulatório do sector deve permitir o desenvolvimento ordenado de novos modelos de negócio, nomeadamente associados a novas tecnologias”.