Anti-semitismo está vivo entre os europeus e um terço sabe muito pouco sobre o Holocausto

Uma sondagem da CNN em sete países revela um grande sentimento de antipatia pela comunidade judaica. Uma em cada 20 pessoas nunca ouviu falar sobre o Holocausto. Organizações contra o anti-semitismo dizem que os resultados são “assustadores”.

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Um terço dos entrevistados confessou saber muito pouco ou nada sobre o Holocausto Reuters/RONEN ZVULUN

Um estudo publicado esta terça-feira pelo canal de televisão norte-americano CNN revelou que os estereótipos anti-semitas continuam vivos na Europa e que a memória do Holocausto se está a desvanecer. Líderes de organizações contra o anti-semitismo e membros dos governos europeus dizem que os resultados são “assustadores” e “deploráveis”.

A sondagem conta com um universo de 7000 europeus, espalhados pela Áustria, França, Alemanha, Reino Unido, Hungria, Polónia e Suécia – países onde o anti-semitismo ainda tem lugar e com um passado ligado ao Holocausto e aos horrores da II Guerra Mundial.

Um terço dos entrevistados confessaram saber muito pouco ou nada sobre a morte de mais de seis milhões de judeus levada a cabo pelo Terceiro Reich, de Adolf Hitler. Um em cada 20 nunca ouviu falar sobre o Holocausto.

Ainda que tenha acontecido apenas há 75 anos e milhares de sobreviventes estejam vivos para contar a sua história, o estudo revela que a memória do Holocausto se está a perder entre os mais novos.

Em França, uma em cinco pessoas entre os 18 e os 34 anos disse nunca ter ouvido falar do genocídio judeu. Já na Áustria, país natal de Hitler, 12% dos entrevistados da mesma faixa etária disseram o mesmo. Metade dos europeus inquiridos revelaram saber o que foi o Holocausto, mas apenas uma em cinco pessoas diz saber muito sobre o assassinato em massa de milhões de judeus na Alemanha nazi.

O diplomata Felix Klein, encarregado de combater o anti-semitismo no governo de Berlim, disse à CNN que na base da luta está “manter a memória do Shoah [Holocausto] viva” e promover “uma cultura de lembrança”. Klein comprometeu-se a “encorajar outros governos a criar funções” semelhantes às suas, porque o “anti-semitismo é uma ameaça a qualquer sociedade democrática”.

Dois terços dos europeus também consideram importante manter a memória do Holocausto viva, para evitar que a História se repita. Este número aumenta para 80% na Polónia, onde foi construído o campo de concentração mais mortífero do regime nazi, Auschwitz.

Metade dos inquiridos disse que as celebrações do Holocausto ajudam a combater a onda de anti-semitismo na Europa, mas um terço considera que os judeus utilizam o genocídio como forma de obter poder e de atingir os seus objectivos. Para além disso, o mesmo número de pessoas na Alemanha, Áustria, Polónia e Hungria pensa que as comemorações desviam a atenção de outras atrocidades modernas.

Onda anti-semita

Cerca de 55% dos europeus reconhecem que a onda anti-semita é um problema nos seus países — 40% revelaram que os judeus estão em risco de ser alvo de ataques racistas e metade dos inquiridos considera que o Governo devia ser mais activo na luta contra o anti-semitismo. Ainda assim, 46% dos entrevistados dizem que o sentimento anti-semita nos seus países é consequência das acções de Israel e do comportamento da comunidade judaica, que usam o Holocausto para justificar os seus actos.

O presidente do Congresso Judeu Europeu, Moshe Kantor, observa que é “extremamente problemático” o facto de os europeus atribuírem culpa aos judeus pelo ódio que lhes é dirigido: “Legitimar o anti-semitismo já é mau, mas deslegitimar o direito dos judeus de lutarem contra esta opressão é absolutamente intolerável.”

“Em França, o aumento do número de actos anti-semitas, bem como homofóbicos, é uma preocupação urgente do Governo”, disse a ministra para a Igualdade de Género, Marlène Schiappa, que classificou os resultados do estudo como “alarmantes”.

O número de ataques anti-semitas em França subiu quase 70% nos primeiros nove meses do ano, segundo um comunicado do primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, publicado no início de Novembro. Já no Reino Unido, foram registados 727 incidentes com contornos anti-semitas nos primeiros seis meses de 2018, o segundo maior número alguma vez verificado, segundo um relatório do Fundo de Segurança da Comunidade Judaica da região.

Não sou anti-semita, mas...

Feita a média aos entrevistados dos sete países, só uma em cada dez pessoas afirma abertamente ter uma atitude desfavorável ante os judeus. A CNN resume este sentimento numa frase: “Não sou anti-semita, mas...”

A atitude anti-semita dos europeus revela-se antes nos estereótipos atribuídos aos judeus: uma em quatro pessoas considera que os judeus têm demasiada influência no campo dos negócios e das finanças, enquanto uma em cinco pessoas lhes atribui demasiada influência nos media e na política. Contudo, 56% dizem nunca ter conhecido um judeu.

Esta crença é particularmente visível nas estimativas dos entrevistados para a população judaica no mundo: 20%, disseram dois terços dos inquiridos. Na verdade, apenas 0,2% da população mundial é de origem judaica, segundo um estudo do Pew Research Center.

A presidente do Fundo Educacional do Holocausto, Karen Pollock, disse em comunicado que o estudo “confirma o aumento do número de pessoas que acreditam em estereótipos anti-semitas” e demonstra a sua “decepcionante falta de conhecimento sobre o Holocausto”.

Para Pollock, a chave está na educação e na partilha de conhecimento dos sobreviventes, cada vez menos e muitos já de idade avançada. Avner Shalev, presidente do Yad Vashem, o memorial de Israel para relembrar os judeus mortos no Holocausto, é da mesma opinião. “O resultado da sondagem prova a necessidade de aumentar os esforços na área da educação sobre o Holocausto, essencial no combate ao anti-semitismo”, disse, em comunicado.

O presidente da Agência Judaica, Isaac Herzog, disse que o anti-semitismo é “uma das mais antigas doenças”, que, à semelhança do racismo, tem de ser “combatida antes que se torne uma epidemia”. Em comunicado, apelou aos líderes mundiais para que “arregacem as mangas e trabalhem contra os sinais preocupantes do anti-semitismo” em vários países: a “doença” tem de ser “arrancada pela raiz”.

Texto editado por Pedro Rios