Editorial

Há quem chame a isto política

Altera-se a lei restritiva do Governo, votam-se mudanças que façam a vontade dos professores e, para que o Orçamento de 2019 não fique em causa, adiam-se as progressões na carreira para as calendas.

O PSD está disposto a juntar-se ao PCP e ao Bloco de Esquerda e ao CDS para alterar a essência de uma medida emblemática do actual Governo - a contagem de tempo de serviço dos professores para efeito de progressão na carreira. Para felicidade de todos, a política já não é o que era e o que antes podia parecer uma terrível coligação negativa capaz de pôr o país em alvoroço, dilui-se hoje nos normais mecanismos de estabilização da “geringonça”.

Em concreto, naquele mecanismo simples que consiste em pagar a estabilidade do presente com custos acrescidos no futuro. Faz-se assim: altera-se a lei restritiva do Governo, votam-se mudanças que façam a vontade dos professores e, para que o Orçamento de 2019 não fique em causa, adiam-se as progressões na carreira para as calendas. Há quem chame a isto política.

Este filme só acontecerá se, como se admite, o Presidente da República decidir promulgar a lei que concede aos professores dois anos, nove meses e 18 dias de contagem de tempo de serviço. Aí, toda a posição e toda a oposição terão oportunidade de fazer a festa.

O Bloco e o PCP querem que a contagem do tempo de serviço seja integral porque a causa encaixa bem na sua imensa generosidade e ainda mais imensa falta de vontade para fazer contas. O PSD junta-se à festa para não perder a simpatia dos professores, para irritar o PS e para forçar o Bloco e o PCP a, por uma vez, censurar projectos do Governo a sério e não apenas através de palavras. E no meio de tudo isto, o Governo terá razões para ficar irritado, mas apenas um bocadinho. Os 0,2% do défice de Mário Centeno não estão em causa.

Se isto é política, há que a ver tanto pelo que é como pelo que dissimula. No fundo, no fundo, nem o Bloco e o PCP querem chumbar a lei, nem o PSD deve acreditar que seja um bom negócio para o país ceder aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Como no teatro de sombras ou na alegoria da caverna, vale mais a luz projectada no pano do que a realidade que a cria. Como ninguém quer perder os votos dos docentes, toca a rasteirar o Governo. Mas com jeito, de modo a que não caia. Até porque, lá está, mais tarde alguém há-de pagar a conta.