Lucro na Tesla é para repetir? Há três dúvidas em cima da mesa

Elon Musk viu a empresa dar lucro num trimestre pela terceira vez desde a entrada em bolsa. Mas nem todos partilham da euforia. Washington pode sabotar o mercado interno e o lançamento internacional do Model 3 será decisivo.

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Reuters/Mike Blake

A Tesla anunciou resultados e desta vez são lucros. É apenas a terceira vez que isso acontece, desde que entrou na bolsa, em 2010. Para detractores e apoiantes de Elon Musk, é hora de reflectir.

Wall Street entrou em euforia logo depois de a empresa ter anunciado um lucro de 311 milhões de dólares (516 milhões, depois de ajustamento por efeitos não recorrentes). As acções subiram de imediato 12%, mas o vai-e-vem bolsista não desviou analistas das questões essenciais. Será este o início de um ciclo positivo sustentável, tendo em conta que os republicanos ameaçam o mercado interno com o fim ao crédito fiscal para veículos eléctricos? O que acontecerá agora que o empresário deixa de ser chairman e, como tal, não presidirá mais à estratégia da empresa? E que impacto terão as mudanças no Model 3, Model S e Model X, que Elon Musk anunciou no Twitter (e sobre as quais pouco ou nada disse nem na carta aos accionistas nem na conferência que se lhe seguiu)?

A pergunta mais fácil de responder será a do meio, ainda que não passe de uma conjectura: Elon Musk continuará a ser o presidente executivo (CEO) pelo que a saída de chairman pouco ou nada mudará no dia-a-dia da empresa. Mais difícil é perceber o que poderão investidores esperar no trimestre final deste ano e em 2019.

Musk nunca foi de objectivos curtos – e como tal projecta levar o Model 3 para o mercado chinês, a Austrália e Europa em 2019. “Estamos entusiasmados, tendo em conta que o mercado para segmentos sedan premium é ainda maior nessas regiões do que nos EUA”, sublinhou Elon Musk, na conferência de apresentação de resultados. A entrada em novos mercados será decisiva, porque as vendas internacionais poderão ser necessárias para compensar alguma perda no mercado interno, decorrente do corte do crédito fiscal de 7500 dólares que os EUA vão deixar de atribuir aos carros eléctricos. E se for avante a ideia de um senador republicano trocar o crédito que acaba por mais impostos, o marketing da Tesla pode estar em maus lençóis.

Tal cenário não é o melhor para o crescimento das vendas, que no último trimestre auditado cresceram 128% face ao período homólogo. O custo das vendas também cresceu (109%), mas menos, pelo que as medidas extraordinárias que a empresa tomou em 2018 – como um despedimento de 9% de trabalhadores e alterações estruturais na produção – têm de continuar a produzir efeitos positivos. Um desafio que obrigará a uma eficiência cirúrgica para uma empresa que no passado recente teve crises graves de produção, já que é preciso produzir para mercados novos e ao mesmo tempo manter os custos sob olho.

O salto para terreno positivo nas contas deveu-se sobretudo ao Model 3, que se tornou o best seller nos EUA, quando medido em receita, e o quinto mais vendido em volume. O factor mais decisivo foi, porém, uma melhoria notória na margem bruta dos carros – as restantes linhas de negócio (energia e serviços) representam menos de 10% das receitas, que ascenderam no total a 6824 milhões de dólares (mais 82% do que no trimestre anterior).

Porém, a Tesla sempre foi grande no crescimento das vendas. A dúvida expressa por alguns analistas é se a empresa consegue manter a margem bem acima dos 20%, como agora, enquanto reduz o custo de produção e o preço de venda, para tornar os Model 3 mais atractivos. A resposta pode estar nas mudanças que Musk anunciou no Twitter: será posto à venda um Model 3 por 45 mil dólares (4000 dólares mais barato), numa versão mais despojada (bateria com menos autonomia); e para “simplificar a produção”, muitas configurações interiores dos Model S e X deixarão de estar disponíveis nos EUA a partir de 1 de Novembro, como disse Musk no Twitter.

Provavelmente, tudo se jogará no investimento, que caiu consideravelmente. A Tesla ambiciona arrancar com uma fábrica na China (para evitar a guerra aduaneira com os EUA); e tem de investir no desenvolvimento do produto se quiser pôr à venda um Model 3 a 35 mil dólares. “O nosso objectivo é fazer carros eléctricos que qualquer um pode comprar. Se pudéssemos vendê-los já a esse preço, fá-lo-íamos hoje, mas temos de trabalhar mais para chegar a esse ponto e manter uma margem bruta positiva”, resumiu Elon Musk durante a conferência. “Provavelmente, estamos a seis meses de distância, mas essa é a nossa missão”, disse, em jeito de promessa. Para já, Musk cumpriu uma – dar lucro. Para detractores e apoiantes do polémico empresário, já é muito.