Tesla ganha fôlego com salto nos lucros

Elon Musk pode respirar de alívio com as boas notícias: as receitas subiram 82% no terceiro trimestre deste ano.

Model 3 foi o quinto carro mais vendido nos EUA no terceiro trimestre de 2018 e o que mais receita gerou no mesmo período
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Model 3 foi o quinto carro mais vendido nos EUA no terceiro trimestre de 2018 e o que mais receita gerou no mesmo período Reuters/HANDOUT

A Tesla pôs fim ao debate sobre a rentabilidade do negócio. Pelo menos por agora: a empresa comunicou nesta quarta-feira ao mercado um aumento de 82% na receita proveniente da venda de carros, confirmando as expectativas de que tinha boas notícias quando antecipou a data de divulgação dos resultados financeiros relativos ao terceiro trimestre.

Elon Musk despede-se assim como chairman da empresa — aceitou afastar-se ao abrigo de um acordo judicial que lhe foi instaurado por suspeitas de fraude ao mercado — com um registo de lucros que ultrapassa algumas das expectativas geradas nas últimas horas em Wall Street. 

O principal responsável por este desempenho foram as vendas do Model 3, cuja média de produção semanal chegou às 4300 unidades entre Julho e Setembro.

"O Model 3 está a atrair clientes de marcas premium e de outras não-premium, tornando-se num produto verdadeiramente mainstream", sustenta a empresa, na carta aos investidores. 

Nem todos os analistas parecem convencidos. É apenas a terceira vez, desde que entrou na bolsa, em 2010 (foi fundada em 2003), que a empresa tem resultados trimestrais líquidos positivos. Mas Elon Musk bem pode respirar de alívio. Após uma reestruturação com cortes de pessoal, após semanas a fio nas notícias devido a declarações polémicas e sobretudo após ter sido visado por um processo judicial que tinha como objectivo afastá-lo, o fundador da empresa ganha um pouco de fôlego.  

Em três meses, a empresa vendeu 83.775 carros: 56.065 exemplares do Model 3 e o resto em Model S e X. Perante tais números, o Model 3 — com o qual a Tesla quer dominar a venda de eléctricos no mercado de massas — tornou-se o modelo que mais receita gerou em todos os EUA naquele período. E foi o quinto mais vendido em termos de volume, refere a empresa, na carta divulgada esta quarta-feira à tarde na costa Oeste dos EUA (noite em Portugal).

Quanto aos números, o resultado líquido foi de 311 milhões de de dólares, mas, após ajustamentos por factores extraordinários, o lucro salda-se em 516 milhões de dólares. Para tal, contribuiu também um expressivo aumento da margem em todos modelos, factor que pode ser explicado com uma redução de 30% das horas de trabalho necessárias para produzir um carro e consequente diminuição do tempo de montagem e na redução de custos com pessoal (decorrentes da reestruturação anunciada no Verão).

Ainda que tenha visto 20% das 455 mil encomendas canceladas, os resultados operacionais melhoraram em praticamente todas as linhas, face ao trimestre anterior e ao período homólogo de 2017. No segundo trimestre de 2018, a empresa tinha apresentado um prejuízo de 717 milhões de dólares, e de 619 milhões no trimestre homólogo de 2017.

Os resultados foram conhecidos já depois do fecho de Wall Street, mas as acções da empresa registaram uma valorização na ordem dos 12% na negociação after hours da bolsa nova-iorquina (um período curto em que ainda é possível executar ordens de compra e venda apesar de o mercado já estar encerrado).

Na véspera da divulgação dos resultados, o empresário que continuará a ser  presidente-executivo da Tesla, apesar de se afastar do conselho de administração por um período de pelo menos três anos, anunciou que tem um plano para introduzir no mercado uma versão mais barata do Model 3, cujo preço de tabela até aqui tem rondado os 49 mil dólares (quase 43 mil euros). No futuro, disse Musk numa mensagem publicada no Twitter, chegará uma versão menos apetrechada, com uma autonomia menor, cujo preço estará nos 45 mil dólares (39 mil euros).

Segundo as contas agora divulgadas, a empresa acabou por cortar no investimento: o CAPEX (ou capital expenditures, isto é, as despesas de capital) ficou nos 510 milhões de dólares (448 milhões de euros), menos 120 milhões do que no trimestre anterior e menos de metade do que tinha investido no período homólogo de 2017. O grosso do investimento futuro planeado para o último trimestre deste ano, que deverá fechar com um investimento total de 2500 milhões de dólares (2200 milhões de euros) em 2018, irá ser canalizado para a construção de uma unidade de produção em Shangai — ao fabricar carros na China, a Tesla pretende contornar o aumento das taxas aduaneiras devido à guerra comercial entre Washington e Pequim.

Feitas as contas, a empresa registou receitas de 6820 milhões de dólares no trimestre (mais 82% face ao anterior e mais 128% do que no trimestre homólogo de 2017), um fluxo de caixa operacional de 1390 milhões, incluindo o negócio das baterias, melhorou o free cash flow (montante que a empresa poderia distribuir depois de saldar as necessidades de investimento para expandir o seu activo) para 881 milhões de dólares, e a conta bancária actual em mais de 700 milhões de dólares. Para os críticos de uma empresa que andava a "queimar" mil milhões de dólares por trimestre, tal desempenho é como um travão.