Arcade Fire

O Santo Graal de Paredes de Coura

Treze anos depois do embate, o primeiro concerto dos Arcade Fire em Portugal continua inscrito na memória colectiva e em incontáveis panteões individuais como uma experiência à altura da palavra, porventura exagerada, que então se usou e que não há como não repetir: epifania. De regresso a Paredes de Coura para encerrar a edição deste ano, terão pela frente 27 mil pessoas — e a sua própria mitologia.
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paulo pimenta

A música está cheia de histórias duvidosas como aquela de que numa certa noite de 1988, depois de um concerto glorioso no Rivoli, Nick Cave desceu à Ribeira e entrou no Meia Cave, onde, encandeado pelo facto de a luz do seu próprio nome (sic) brilhar à porta de um bar, se misturou até de manhã com os comuns mortais que horas antes tinha tido aos pés. A primeira aparição dos Arcade Fire em Portugal, material que se tornou instantaneamente mitológico, é e não é uma dessas histórias — uma epopeia de bocas escancaradas e cabeças enfiadas em capacetes, coros vindos das entranhas e bombos em despique, mais pandeiretas, acordeões e violinos numa desafinação incendiária que contada a quem não estava em Paredes de Coura nesse fim de tarde de 17 de Agosto de 2005 pareceu mentira, mas que sobrevive até hoje, extraordinariamente nítida, na memória colectiva de milhares de pessoas e, já não tão extraordinariamente nítida, num vídeo do YouTube (são 54 minutos e 53 segundos, mas o chamamento todo em apoteose, com Wake up, basta para perceber que neste caso não é preciso optar entre os factos e a lenda porque, objectivamente, os factos são lendários e a lenda é factual). 

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Desde essa tarde que de repente se fez noite (efeito cósmico do alinhamento, foi, como estava escrito, entre o “As the day grows dim/ I hear you sing a golden hymn” de Tunnels e o “I woke up on the darkest night/ Neighbors all were shoutin' that they found the light” de Power out), desde essa luz que de repente se fez electricidade, foram horas, dias, semanas, meses, anos a espalhar o que não era possível espalhar-se, porque era preciso ter-se vivido. E, o que então pareceu muito exagerado, foram horas, dias, semanas, meses, anos a usar a palavra epifania, apenas porque não havia outra (do grego epiphaneia: festa católica celebrada a 6 de Janeiro, consagrada à comemoração do aparecimento dos Reis Magos, como ocasião da primeira manifestação de Cristo aos gentios; aparição divina; manifestação pela qual uma divindade se dá a conhecer; compreensão súbita e intuitiva do significado essencial de algo; revelação). 

Estremunhados, escrevemos no PÚBLICO, ainda a quente: “Os Arcade Fire são ao mesmo tempo da ordem do cântico dos cânticos e da marcha fúnebre, da canção de engate e do hino nacional (…). Foram épicos ao ponto de parecerem capazes de mover montanhas.” E à medida que os outros jornais iam imprimindo a lenda (todos menos o Diário de Notícias, onde Marcos Cruz se mantinha sóbrio: “Um dia poderão ser uma das melhores bandas do mundo, mas dizer que o são hoje, como aqui se ouviu, é um verdadeiro exagero”), ela tornava-se cada vez mais evidentemente um facto: “Ninguém esperava aquele recreio, aquelas valsas picarescas, aquela embriaguez iluminada (…). A insanidade andou por lá, a clarividência espreitou, o sol pôs-se com pena de não ficar até ao fim” (Ana Markl no Blitz); “É indescritível e é preciso viver-se (…). Uma puta duma epifania, uma puta duma experiência (…) sublime, inesquecível, catártica” (Rodrigo Nogueira no Bodyspace). E mesmo já a frio, em Março de 2007, altura em que nos chegou o ansiado segundo disco da banda, a lenda continuava viva: “Aquele concerto parecia uma concentração cósmica de muitos acontecimentos, um caos organizado pelo entusiasmo. Eles geriram elementos difíceis de coordenar — pequenas lógicas melódicas e rítmicas, pequenas lógicas de euforia física e mental — e construíram uma celebração”, recordava ao Ípsilon o crítico Nuno Galopim, que em 2005 dali proclamara não o concerto do ano, mas o concerto da década.

Treze anos depois desse embate, inscrito até hoje em incontáveis panteões individuais, de caras, como “o melhor concerto de sempre”, os Arcade Fire regressam a Paredes de Coura, onde encerrarão, no dia 18, a 26.ª edição de um festival de que se tornaram em 2005, “o melhor ano de sempre”, um mito fundador. Não estão os mesmos, como não estão os mesmos os que o viram então e ainda transportam no seu ADN, vindo lá do fim da juventude, esse Santo Graal colectivo mas intransmissível (“Us kids know”, para voltarmos ao primeiro disco, o único que tinham quando cá chegaram). Na vida dos Arcade Fire, houve entretanto mais quatro álbuns depois de Funeral (2004), o Rosebud de uma geração — Neon Bible (2007), The Suburbs (2010), Reflektor (2013) e Everything Now (2017) —, e houve sobretudo a radical mudança de escala que os teletransportou para o estatuto de banda de estádio ao nível dos U2, e que por cá se foi acompanhando degrau a degrau, patamar a patamar (voltaram a 3 de Julho de 2007 e a 15 de Julho de 2011 para o Super Bock Super Rock, a 31 de Maio de 2014 para o Rock In Rio, a 9 de Julho de 2016 para o Nos Alive, e a 23 de Abril deste ano, finalmente em nome próprio, para um concerto 360º no Campo Pequeno).

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As epifanias não se repetem, ou repetem? (à conta dos Arcade Fire, aliás, os bilhetes para o último dia já estão esgotados: 27 mil pessoas)

Em Paredes de Coura, será a primeira vez desde essa primeira vez. As epifanias não se repetem, ou repetem? É aqui que as opiniões se dividem.

Um furacão 

Por razões orçamentais, ou por medo de pisar território sagrado, de ter de se medir com a sua própria mitologia, a direcção do festival não voltou a tentar os Arcade Fire até que subitamente, em Fevereiro passado, se viu confrontada com o cancelamento do concerto de Björk que deveria encerrar o Vodafone Paredes de Coura deste ano. “Nunca mais tivemos coragem de lhes fazer uma proposta, provavelmente achámos que era uma missão impossível. É uma banda que de repente se agigantou, uma banda para lá de cara, incompatível com o nosso orçamento. Mas quando tivemos de substituir a Björk e arriscámos, foi mais fácil do que imaginávamos — e sentimos que o fraquinho que Paredes de Coura tem pelos Arcade Fire é recíproco, o que é maravilhoso”, diz ao Ípsilon um dos directores do festival, João Carvalho, que vê no concerto de 2005 não só o Santo Graal de Paredes de Coura como o seu próprio Santo Graal. “É indiscutivelmente o meu concerto favorito — e não é da história do festival, é da história da minha vida. Foi um furacão que passou por aqui.”

Nesse ano, o festival vinha de uma edição ruinosa, sobre a qual “choveu torrencialmente”. “Tivemos um prejuízo enorme e ficámos sem patrocinador, por isso tínhamos de o recuperar sozinhos. Ponderámos seriamente acabar”, conta João Carvalho. Possivelmente, com aquele concerto, os Arcade Fire salvaram Paredes de Coura. O que poderão fazer agora num lugar onde se entranharam irreversivelmente na história de tanta gente? Luís Clara Gomes, que então ainda não assinava como Moullinex, imagina “a pressão gigante” que “um concerto que atingiu proporções mitológicas” porá em cima da banda: “Não há luz nem pirotecnia nem truques cénicos que reproduzam aquela entrega. Ou está lá genuinamente ou não está, não se pode emular.” Por razões que não consegue precisar, nunca mais viu os Arcade Fire desde aquela noite: “Não digo que o tenha feito conscientemente, mas quando um concerto te marca profundamente tens o instinto de não tentar repetir, de o guardar como experiência efémera e só tua, e aquele concerto ainda hoje está na lista dos meus preferidos de sempre.” Não precisa da ajuda do YouTube para o citar de memória: “Tocaram àquela hora mágica em que as condições conspiram a favor de uma experiência intensa e entregaram-se, ponto, colectiva e individualmente (na altura eu estava obcecado pelo Owen Pallett, que andava em digressão com eles). Do lado de cá, a resposta do público foi tão incrível que se gerou ali um loop de feedback perfeito, e impossível de explicar a quem não esteve lá.” 

Hoje, desligados dessa “angústia existencial millennial” que “corporizavam tão bem”, e que teve ali o seu tempo — “O primeiro disco e os EP que o antecederam são mesmo muito especiais para mim; talvez fosse impossível manter aquela franqueza, não sei” —, os Arcade Fire deixaram de fazer sentido para Moullinex. E o mesmo para André Henriques, vocalista dos Linda Martini, que se desligou da banda quando “o rock proletário tipo Bruce Springsteen” de Neon Bible e The Suburbs morreu na festa electrónica de Reflektor, isto sem que o concerto a que assistiu em 2005 debaixo de uma árvore à direita do palco tenha perdido um milésimo do brilho (aliás, foi disso que falou, ele que pouco fala nos concertos, quando os Linda Martini tocaram pela primeira vez em Paredes de Coura, dois anos depois): “Eu conhecia bem o Funeral, o Sérgio [Lemos, ex-guitarrista da banda] tinha-mo passado, e bateu-me forte nesse ano. Curiosamente, fomos os únicos da banda a ir a Paredes de Coura em 2005, com um tipo de uma editora que passou o concerto todo a ler um livro, tipo pirraça, enquanto nós, siderados, não conseguíamos tirar os olhos do palco. Era evidentemente o princípio de qualquer coisa. Uma banda que fazia aquilo sem outro fogo-de-artifício que não a sua própria festa em palco de certeza que se ia tornar enorme.”

Quando voltou a vê-los em 2007, encontrou “uma produção incrível, muita cenografia, muitos jogos de luzes” — “Muita parafernália, como se estivessem a tentar compensar com espectáculo visual o que tinha havido de entrega em Paredes de Coura”, acrescenta a designer Cláudia Marques, aliás Menina Limão —; sete anos depois, já estavam em modo banda de estádio, mas uma coisa André Henriques notou “intacta”, “a alegria de estarem em palco uns com os outros”. As epifanias não se repetem, ou repetem? Menina Limão: “Entro muitas vezes em concertos com a expectativa de ser arrebatada. E no caso dos Arcade Fire em Paredes de Coura, os coros, os crescendos… mal aquilo começou tive vontade de chorar. Teve seguramente a ver com o que estava a acontecer na minha vida, mas acho que se em 2018 eles voltassem a entrar no palco de Paredes de Coura, com as bocas escancaradas, a cantar a Wake up aos berros para mim estava feito.”

Só mais um concerto

Ana Markl, que em 2005 era jornalista do Blitz e foi a Paredes de Coura expressamente para os ver (e entrevistar), é mais realista: “Não sabemos quão importante o concerto de Paredes de Coura foi para os Arcade Fire, sabemos quão importante foi para nós. Eles não podem repetir o que aconteceu em 2005 e nem sequer faz sentido que esperemos isso. Sejamos pragmáticos: vai ser só mais um concerto da tournée, não vai ser um concerto especial dos Arcade Fire em memória de 2005 ou da nossa juventude.”

Hoje, o Win Butler que há 13 anos, nos bastidores, “tinha ar de menino perdido, muito tímido, assim de não olhar nos olhos”, está à frente de uma banda enorme e, diz Ana Markl, “muito mais aberta ao mundo do espectáculo do que entregue às canções”. Na altura, “o palco era absolutamente o elemento dele (e deles todos) e a parte das entrevistas, a engrenagem do star-system não o eram de todo — o que tornou aquilo mais fascinante, porque era o gajo ensimesmado que de repente explode em palco”. E que a seguir, já depois de se ter atirado para a multidão (o final, tão apoteótico quanto o início, está fora de campo na gravação do YouTube), ajuda a arrumar os instrumentos e vai com a banda vender discos, como recorda João Carvalho. Os Arcade Fire de 2018, diz a propósito, “vêm num charter privado e antes deles chegam vários camiões com material e uma equipa de 50 pessoas”.

Um bando de “miúdos possessos em palco”? Estamos todos, nós, eles, “past the feeling”, como numa das últimas canções dos Arcade Fire sobre as dores de crescimento (aulas de condução e tudo), The suburbs. Mas a banda, diz o director do festival, “é inteligente o suficiente para se lembrar do impacto que teve” (à conta dele, aliás, os bilhetes para o último dia já estão esgotados: com 27 mil pessoas, “será o mais cheio de sempre”). É provável que também para os Arcade Fire tenha sido inesquecível, acredita André Henriques, via Linda Martini: “Quando tocámos pela primeira vez em Paredes de Coura, não imaginávamos que tantas pessoas soubessem as letras de cor. O concerto foi gravado e de uma ponta à outra estamos todos babados, com cara de parvos. Vai ser nossa quarta vez no festival e nunca fico tão nervoso como quando entro naquele palco: a memória é tão forte que estou sempre com medo de ficar aquém.”

Moullinex, André Henriques e Ana Markl não vão estar no dia 18 em Paredes de Coura. Porque não podem, porque não devem ou porque, como Ana Markl, perderam uma certa “inocência na relação com os Arcade Fire" a que “é impossível regressar”. “Aqueles Arcade Fire do Funeral, do Neon Bible e do The Suburbs ficaram lá atrás, é quase como se fosse outra banda. O primeiro disco era tão íntimo e falava-me tanto ao coração que quando vieram os seguintes eu senti uma coisa que já não tinha idade para sentir: uma espécie de devassa, porque de repente toda a gente gostava deles. Isso quebrou-se com o último disco.” Cláudia Marques ainda está a decidir. “Na altura, disse imediatamente que tinha sido o concerto da minha vida e continua a ser. O que senti naquele concerto não voltei a sentir em mais nenhum. Acho que me vou arrepender se não for.” Talvez ajude se dissermos que seis das dez canções que os Arcade Fire tocaram em 2005 fazem parte do alinhamento desta digressão. E que às vezes ainda começam com a Wake up.